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Poemas neste tema

Raiva e Indignação

Dambudzo Marechera

Dambudzo Marechera

Há um dissidente na sopa eleitoral!

Não tenho ouvidos para slogans
É melhor que você cale a matraca
Eu corro quando é hora do EU TE AMO
Não venha com essa Eu vou ficar dessa vez
Eu corro quando é hora de THE FIGHT
Eu corro quando é hora do AVANTE
Não venha com essa Vamos trepar toda a noite
A lua não vai baixar
Primeiro desajeitada, lancinante de constrangedora
Mas com Vênus ascendendo, grito e pulo de alegria

Quando os lençóis estão finalmente em silêncio
Não pergunte "O que você está pensando?"
Não pergunte "Foi gostoso?"
Não se sinta mal porque estou fumando
Os inseguros é que perguntam e se sentem mal
Que dizem depois do ato "Me conte uma história"
E você já deve saber bem
Não fale em "CASAMENTO" se quiser que essa reconciliação
Venha a durar

:

There ´s a dissident in the election soup!

I have no ear for slogans
You may as well shut up your arse
I run when it"s I LOVE YOU time
Don"t say it I"ll stick around
I run when it"s A LUTA time
I run when it"s FORWARD time
Don"t say it we"ll fuck the whole night
The moon won"t come down
At first awkwardly, excruciatingly embarrassing
But with Venus ascending, a shout and leap of joy

When the sheets are at last silent
Don"t ask "What are you thinking?"
Don"t ask "Was it good?"
Don"t feel bad because I"m smoking
They ask and feel bad who are insecure
Who say after the act "Tell me a story"
And you may as well know
Don"t talk of "MARRIAGE" if this reconciliation
is to last.


Quem usou minha mochila nova!?

Tive esse pesadelo
Pegava meu irmão estourava seu cérebro
Ao acordar encontrava atrasado o aluguel

Tive esse sonho
Pegava minha irmã pruma foda
Ao acordar lá estavam os B.O.´s

Tentei dar um jeito na noite de sol
Ladrão cafetão tudo só na lábia
Ao voltar a PM já metia o pé na porta do barraco

E eu que achei que até um filho-da-puta
Diziam que tinha FAMÍLIA
Suas desculpas esfarrapadas me devolveram
Aos chutes noite adentro.

Agora não há o que fazer só não pensar
Sim não pensar é o único tabu
Mochila de Pandora dentro do anarquista
E sua mentícula

:

Who´s used my new rucksack!?

Had this nightmare
Bashed out my brother"s brains
Woke to find I owed rent

Had this dream
Fucking my sister
Woke to find final demands

Tried to sort out the sunlit night
Thieving pimping talk it outright
Got back bailiffs were breaking down the door

And I thought even a son-of-a-bitch"s
Supposed to have FAMILY
Their scraps of excuses kicked me back
Into the night

Now there"s nothing but not to think
Yes not-to-think is the only taboo
The Pandora"s rucksack inside the anarchist"s
Tiny mind
941
Sílvio Romero

Sílvio Romero

ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca

(Ceará)

Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.

Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.

Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.

Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.

Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.

Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!

Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.

Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.

I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.

Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.

Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.

Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.

O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.

Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.

Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.

Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.

Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.

Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.

Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.

Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.

Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Descreve com Mais Individuação

Senhora Dona Bahia,
nobre, e opulenta cidade,
madrasta dos Naturais,
e dos estrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa,
em que fundais o ditame
de exaltar, os que aí vêm,
e abater, os que ali nascem?
(...)
Vem um Clérigo idiota,
desmaiado com um jalde,
os vícios com seu bioco,
com seu rebuço as maldades:
Mais Santo do que Mafoma
na crença dos seus Árabes,
Letrado como um Matulo,
e velhaco como um Frade:
Ontem simples Sacerdote,
hoje uma grã dignidade,
ontem salvage notório,
hoje encoberto ignorante.
Ao tal Beato fingido
é força, que o povo aclame,
e os do governo se obriguem,
pois edifica a cidade.
Chovem uns, e chovem outros
com ofícios, e lugares,
e o beato tudo apanha
por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro, e respeito,
vai remetendo as fundagens,
compra toda a sua terra,
com que fica homem grande,
e eis aqui a personagem.
(...)
Chega um destes, toma amo,
que as capelas dos Magnates
são rendas, que Deus criou
para estes Orate frates.
Fazem-lhe certo ordenado,
que é dinheiro na verdade,
que o Papa reserva sempre
das ceias, e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
porque o Reverendo Padre
é do Santo Nicomedes
meritíssimo confrade;
e eis aqui a personagem.
Vêem isto os Filhos da terra,
e entre tanta iniquidade
são tais, que nem inda tomam
licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre falam,
até que Deus lhes depare,
quem lhes faça de justiça
esta sátira à cidade,
Tão queimada, e destruída
te vejas, torpe cidade,
como Sodoma, e Gomorra
duas cidades infames.
(...)


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Bioco: manto ou capuz usado sobre a cabeça e parte do rosto para afetar modéstia, virtude; Mafoma: Maomé
2 604
Machado de Assis

Machado de Assis

Os Arlequins, 1864

Que deviendra dans l'éternité l'âme d'un
homme qui a fait Polichinelle toute sa vie?
Mme. DE STAEL

Musa, depõe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga.

Como aos olhos de Roma,
— Cadáver do que foi, pávido império
De Caio e de Tibério, —
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu não te abrias,
Ó céu de Roma, à cena degradante!
E tu, tu não caías,
Ó raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia população;
Não busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
Não encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar, seguro, altivo e penetrante,
E certo ar arrogante
Que impõe com aparências de assombroso;
Não vacila, não tomba,
Caminha sobre a corda firme e alerta;
Tem consigo a maromba
E a ovação é certa.

Tamanha gentileza,
Tal segurança, ostentação tão grande,
A multidão expande
Com ares de legítima grandeza.
O gosto pervertido
Acha o sublime neste abatimento,
E dá-lhe agradecido
O louro e o monumento.

Do saber, da virtude,
Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,
Um manto de retalhos
Que à consciência universal ilude.
Não cora, não se peja
Do papel, nem da máscara indecente,
E ainda inspira inveja
Esta glória insolente!

(...)

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Publicado no livro Crisálida: poesias (1864).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.196-197. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
1 483
Colombina

Colombina

Maldição

Maldito sejas tu que eu encontrei na vida,
como se não bastasse a tormenta sofrida
sem culpa e sem perdão;
por tudo o que eu quis ser e que alcançar não pude;
por toda essa amargura e toda essa inquietude
da minha solidão.

Maldito sejas tu, pelas noites sem sono,
pelos dias sem sol e as horas de abandono,
de tristeza sem fim...
Pelo amor que esbanjei, generosa, às mãos-cheias,
e apenas vi florir pelas searas alheias
e nunca para mim.

Pelos passos que dei sem rumo, desnorteada,
nas trevas tateando... (é sempre escura a estrada,
quando a gente vai só).
Por toda essa extensão de enganos percorrida,
pela enseada de paz para sempre perdida
e transformada em pó...

Maldito sejas tu, que por capricho, um dia,
do meu ser transformaste a serena harmonia
num rugir de paixão.
Maldito sejas tu! Teu riso, tua boca!
Para cuja mentira e hipocrisia é pouca
a minha maldição.

Maldito sejas tu, que infiltraste em meu sangue
todo o calor macio, aveludado e langue
da tua voz sem par.
Por tudo o que eu perdi por te haver encontrado,
pelo tempo tão longo e tão triste passado,
em silêncio a chorar...

Maldito sejas tu... Mas, se um dia voltasses,
e o remorso no olhar, e lágrimas nas faces,
me pedisses perdão,
eu, na porta entreaberta e mal iluminada,
sem nada te dizer, sem perguntar-te nada,
te estenderia a mão.


Publicado no livro Sândalo: versos (1941). Poema integrante da série Flamas.

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 936
Mário Faustino

Mário Faustino

Sextina: Altaforte

Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.

Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?

A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.


I

Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.

II

Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.

III

Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!

IV

E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.

V

Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.

VI

Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"

VII

Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"

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Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.

In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).

NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
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