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Relações e Família

José Albano

José Albano

Canção a Camões

Co'uma espada de prata e lira de ouro,
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.

Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito —
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.

Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saudosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.

(...)

Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branda e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.

(...)


Publicado no livro Canção a Camões e Ode à Língua Portuguesa (1912).

In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.113-115. (Série Revisões, 3)

NOTA: Poema composto de 7 estrofe
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Elegia dum incoerente

Tua Presença
É o todo-inteiro,
Real, verdadeiro,
De que a beleza
É um fragmento;
Tua Presença
Lembra um Mosteiro,
É como um claustro,
Como um convento
Onde se bebe
Recolhimento,
E cada qual
Se sente menos
Preso da Vida
Que a carne tenra
Recém-nascida
Se prende à vida
Pelo cordão
Umbilical.

A tua Ausência
É o todo-inteiro
Real, verdadeiro,
De que o Inferno
É um fragmento;
A tua Ausência
Lembra as galés,
Traz-nos atados
De mãos e pés,
Remando sós
Pelos infinitos
Mares deste mundo,
Seguindo o rumo
Dos Desvairados,
Como proscritos,
Como gafados.
A tua Ausência!
Antes ser cego,
Antes cativo,
Antes ser posto
Num caixão estreito,
Levado à cova
E sepulto vivo.

Tua Presença
É como nave
De Catedral,
Dum goticismo
Tão trabalhado,
Tão requintado,
Que são aladas
As próprias pedras
Das arcarias
Abobadadas,
E os capitéis
Das colunatas
Fogem em bandos,
Em revoadas
Ascensionais,
Para aquele ponto,
Exterior ao mundo,
Pra onde tendem
As catedrais!

A tua Ausência
É um oceano
Glauco e sem fundo
Onde naufragam
Os bens do mundo;
É uma imagem
Tumultuária
Dos Derradeiros
Dias Finais;
É como um campo aberto
Para a pilhagem
Das tentações,
Dos desatinos,
Das abjecções;
A tua Ausência
É cavalgada
Desenfreada
DApocalipse,
É o remorso
De quem celebra,
Com mãos profanas,
Ritos sagrados,
É um telescópio
Das dores humanas

Tua Presença
Dimana graças
De iluminura;
Foi modelada
Num raio fulvo
De luz sidéria;
Tem os caprichos,
As fantasias,
Duma voluta
De incenso em brasa;
Tua Presença
Foi feita à imagem
Das vagas névoas,
Sonhos dispersos
Pelos rutilantes
Rubros gritantes
Da madrugada,
E em si resume
O azul doente
Em que dilui
A macerada
Melancolia
Do Sol poente.
É essência Pura
Do ideal,
É um vitral
Que transfigura
Raios de Sol
Que correm montes
Buscando fontes
Para as calar

Sòmente estou triste,
Pois sei que a Presença
Que eu canto em bravatas
Com coros de latas
E versos quebrados,
Enfim, só existe
Na minha Elegia,
Nas minhas bravatas,
Se um dia tombar.

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T. S. Eliot

T. S. Eliot

DIFICULDADES DE UM HOMEM DE ESTADO

Rogar que rogarei?
Toda a carne é como erva: incluindo
Os Companheiros do Banho, os cavaleiros do Império Britânico, os oficiais,
ó oficiais, da Legião de Honra,
A Ordem da Águia Negra (1ª e 2ª classes),
E a Ordem do Sol-Nascente.
Rogar rogar que rogarei?
A primeira coisa a fazer é organizar as comissões
Os conselhos consultivos, as comissões permanentes, as comissões especiais e as
sub-comissões.
Um mesmo secretário serve para várias.
Que rogarei?
Artur Eduardo Cirilo da Silva é nomeado telefonista
Com um vencimento de cento e vinte escudos por semana, elevável, por fracções anuais de
vinte e cinco [escudos,
A duzentos escudos por semana; com uma gratificação de cento e cinquenta escudos pelo
Natal
E direito por ano a uma semana de férias.
Foi nomeada uma comissão que nomeará a comissão de engenheiros
Para o estudo do Abastecimento de Aguas.
Está nomeada a comissão
Da Construção Civil, para tratar sobretudo da reconstrução das fortificações.
É nomeada uma comissão
Para discutir com a comissão designada pelos Volscos
Os termos da paz perpétua: os frecheiros, alfagemes e ferreiros
Nomearam uma comissão conjunta para protestar contra a redução das encomendas.
Entretanto os guardas jogam aos dados na escadaria
E as rãs (ó Mantuano) coaxam nos pântanos.
Pirilampos cintilam contra o vago relampejar de brancura
Que rogarei?
Mãe ó mãe.
Eis a galeria dos retratos de família, bustos enegrecidos, parecendo todos notavelmente
romanos,
Notavelmente iguais uns aos outros, iluminados sucessivamente pelo cintilar
De um suado portador de archote, que boceja.
Oh quem se escondesse... Escondesse por baixo... Lá onde o pé da pomba pousou e se
firmou por um [instante
Um instante imóvel, repouso meridiano, sob os mais altos ramos da mais vasta árvore do
meio-dia
Sob as penas do peito agitadas pela aragem post-meridiana
Lá onde o ciclamen abre as suas asas, onde a clematite pende do lintel
Ó mãe (não entre estes bustos, tão correctamente votivos)
Eu cansada cabeça entre estas cabeças
Pescoços fortes para suportá-las
Narizes fortes para cortar o vento
Mãe
Não estaremos nós, alguma vez, agora quase, juntos,
Se as imolações, oblações, impetrações,
Agora são cumpridas
Não estaremos nós
Oh quem se escondesse na Uma do meio-dia, na crocitante noite silenciosa.
Vem com o deslizar das asas do morcego, o pequeno cintilar do pirilampo ou vagalume
Erguendo-se e tombando, de poeira coroados, os pequenos seres,
Os pequenos seres trilam pela poeira, pela noite,
Ó mãe
Que rogarei?
Exigimos uma comissão, uma comissão representativa, uma comissão de inquérito
DEMISSÃO DEMISSÃO DEMISSÃO

(Tradução
de Jorge de Sena)

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