Poemas neste tema
Vida
Cora Coralina
A gleba me transfigura
Sinto que sou abelha no seu artesanato.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(...)
Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.
Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.
pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que
vão pelas estradas.
Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
(...)
Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
(...)
Em mim a planta renasce e flosrece, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada
e fecundada no ventre escuro da terra.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(...)
Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.
Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.
pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que
vão pelas estradas.
Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
(...)
Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
(...)
Em mim a planta renasce e flosrece, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada
e fecundada no ventre escuro da terra.
4 623
1
Chacal
Ponto de bala
os mortos tecem considerações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações
3 683
1
Antônio Massa
A Teia da Vida
Renda bordada
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
1 451
1
Albano Dias Martins
Ofício e Morada
De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rotuais.
De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.
De comércio sabemos.
Com âncoras e astro
lábios medimos
nossa rota inscrita
na retina. Exaustos,
entre aquáticas
florestas, perseguimos
os veados do sol
e da vertigem. Por
obscuras silícias
e cretas navegamos.
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rotuais.
De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.
De comércio sabemos.
Com âncoras e astro
lábios medimos
nossa rota inscrita
na retina. Exaustos,
entre aquáticas
florestas, perseguimos
os veados do sol
e da vertigem. Por
obscuras silícias
e cretas navegamos.
1 101
1
Afonso Duarte
Recordação
Eu bem sei
Que rodo em muitas esferas
E não sei
Por onde me levas, poesia.
Quando vou,
E não encontro ninguém,
Tenho medo do que sei:
Um filho de sua mãe
E seu pai,
Ou algum longínquo avó,
A quem um poeta sai.
Será também o Deus da infância
E a árvore sagrada
De frutos proibidos,
Na fragrância
Com que rasguei meus vestidos
E não retirei os ninhos...
Enchi de rosas a terra
E levo nas mãos espinhos.
Que rodo em muitas esferas
E não sei
Por onde me levas, poesia.
Quando vou,
E não encontro ninguém,
Tenho medo do que sei:
Um filho de sua mãe
E seu pai,
Ou algum longínquo avó,
A quem um poeta sai.
Será também o Deus da infância
E a árvore sagrada
De frutos proibidos,
Na fragrância
Com que rasguei meus vestidos
E não retirei os ninhos...
Enchi de rosas a terra
E levo nas mãos espinhos.
1 545
1
Joachim Du Bellay
SE AO PÉ DA ETERNIDADE NOSSA VIDA
Se ao pé da eternidade nossa vida
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
É quase nada e os anos que se vão
Arrastam nossos dias sem perdão,
E se o que vem à luz vai de vencida,
O que esperas ainda, alma sofrida?
Por que te apraz da vida a escuridão,
Se pra alcançar mais lúcida mansão,
Uma asa tens às costas estendida?
É lá que existe o bem que a alma deseja,
Lá, toda paz por quem o mundo almeja,
O verdadeiro amor, delícia tanta!
E lá, minha alma, te elevando ao céu,
Hás de reconhecer, então, sem véu,
A Idéia da beleza que me encanta.
969
1
William Blake
A MOSCA
Pequena Mosca,
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
4 585
1
João Cabral de Melo Neto
Meu Álcool
Marques Rabelo garantia
que bêbado era quem bebia
por se inventar duplo motivo:
sentir-se invivo ou sobrevivo.
Querer-se lúcido, acordar,
ser todo o agudo que nele há,
ser quando está de todo aceso,
tem o ser na ponta dos dedos.
Ou estar num ser tão extreme
que ser é insuportavelmente,
que ser é estar-se num incêndio
e sentir-se esse incêndio sendo.
Por isso, é que o bêbado bebe:
porque triste quer ser alegre,
e bebe porque chega a demais
a alegria de que ele é capaz.
2
Um pôde achar álcool melhor,
não tóxico, sem qualquer depois,
um álcool que não tem veneno
nem contém amanhãs de inferno.
Que, se é preciso, apaga o incêndio
e se é preciso, vem e acende-o;
um álcool que possui duas pontas,
que age a favor como age contra,
nem precisa que alguém lhe diga
quando dar mais ou menos vida
(como lâmpada do escritor russo,
põe o quarto aceso ou escuro).
Mais: que não se bebe, contempla;
é um álcool para a convivência,
álcool que dá a chama e o sopro
com tê-lo ao alcance do corpo.
3
Esse álcool não é de vender:
ninguém engarrafou um ser.
É álcool sem quandos, sem ondes,
de perto, ou pelo telefone.
Vê-lo e usá-lo foi de imediato:
depois de álcoois mais variados,
da familiar cana de cana
de suas várzeas pernambucanas,
viajou por outros tão diversos
(os de Appolinaire, o dos versos)
que até empregou como bebida
o fluido ambíguo de Sevilha.
E de nenhum deles renega:
nem das úlceras que eles legam
nem da intestina homorragia
em hospitais ao fio da vida.
3
Se a um novo álcool se entregou,
se o vê como álcool superior,
não foi por causa de conselho,
prescrição de médico, ou medo.
É que no novo álccol de agora
pode alcançar mais alta quota
de álcool na vida, e é mais contínua
a vida que acende, e seu clima:
um clima mais claro, e tão limpo
como toalha ou lençol de linho,
e ao mesmo tempo tão intenso
de um ser vivo vivendo pleno.
(E isso, só, com a convivência
de mulher, com a nua presença
de mulher, que como Sevilha
é interna-externa, é noitedia.)
que bêbado era quem bebia
por se inventar duplo motivo:
sentir-se invivo ou sobrevivo.
Querer-se lúcido, acordar,
ser todo o agudo que nele há,
ser quando está de todo aceso,
tem o ser na ponta dos dedos.
Ou estar num ser tão extreme
que ser é insuportavelmente,
que ser é estar-se num incêndio
e sentir-se esse incêndio sendo.
Por isso, é que o bêbado bebe:
porque triste quer ser alegre,
e bebe porque chega a demais
a alegria de que ele é capaz.
2
Um pôde achar álcool melhor,
não tóxico, sem qualquer depois,
um álcool que não tem veneno
nem contém amanhãs de inferno.
Que, se é preciso, apaga o incêndio
e se é preciso, vem e acende-o;
um álcool que possui duas pontas,
que age a favor como age contra,
nem precisa que alguém lhe diga
quando dar mais ou menos vida
(como lâmpada do escritor russo,
põe o quarto aceso ou escuro).
Mais: que não se bebe, contempla;
é um álcool para a convivência,
álcool que dá a chama e o sopro
com tê-lo ao alcance do corpo.
3
Esse álcool não é de vender:
ninguém engarrafou um ser.
É álcool sem quandos, sem ondes,
de perto, ou pelo telefone.
Vê-lo e usá-lo foi de imediato:
depois de álcoois mais variados,
da familiar cana de cana
de suas várzeas pernambucanas,
viajou por outros tão diversos
(os de Appolinaire, o dos versos)
que até empregou como bebida
o fluido ambíguo de Sevilha.
E de nenhum deles renega:
nem das úlceras que eles legam
nem da intestina homorragia
em hospitais ao fio da vida.
3
Se a um novo álcool se entregou,
se o vê como álcool superior,
não foi por causa de conselho,
prescrição de médico, ou medo.
É que no novo álccol de agora
pode alcançar mais alta quota
de álcool na vida, e é mais contínua
a vida que acende, e seu clima:
um clima mais claro, e tão limpo
como toalha ou lençol de linho,
e ao mesmo tempo tão intenso
de um ser vivo vivendo pleno.
(E isso, só, com a convivência
de mulher, com a nua presença
de mulher, que como Sevilha
é interna-externa, é noitedia.)
4 454
1
Heinrich Heine
DER TOD
A Morte é a gélida noite,
A Vida o dia opressivo.
Escurece, tenho sono,
O dia cansou-me muito.
Onde me deito há uma árvore
Em que canta um rouxinol.
Só canta de puro amor.
Até em sonhos o escuto.
A Vida o dia opressivo.
Escurece, tenho sono,
O dia cansou-me muito.
Onde me deito há uma árvore
Em que canta um rouxinol.
Só canta de puro amor.
Até em sonhos o escuto.
2 614
1
Antônio Brasileiro
Banquete Ilúdico
Quando me chegam, subitamente,
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.
Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.
Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.
1 274
1
Giuseppe Ungaretti
Vigília
Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
2 340
1
Adélia Prado
Entrevista
Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem
[é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz”,
descansa em teu amor, que bem estás.
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem
[é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz”,
descansa em teu amor, que bem estás.
3 988
1
Natércia Freire
E levantam-se as pessoas
E levantam-se as pessoas
E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.
E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.
1 374
1
Natércia Freire
Assim
Assim por muito mais e muito
menosAssim por heroísmo e cobardia.Assim a tarde a noite
no momentoAssim pensar em mim quando
vivias.Assim os dedos longos nos cabelosDos mortos
abraçados e cativos.Assim esta miséria de estar
vivaE não saber estar viva quando vivo.Assim
nas brancas árvores o tempoAssim ter acabado o
meu destinoE ler-me noutros versos, noutros
nomesAssim desconhecer aonde habito.Assim por muito
mais e muito menosSe acaba, em vida, a vida ao
suicida.Assim por ser a hora mais cinzenta,O desamparo
assim da minha vida.
menosAssim por heroísmo e cobardia.Assim a tarde a noite
no momentoAssim pensar em mim quando
vivias.Assim os dedos longos nos cabelosDos mortos
abraçados e cativos.Assim esta miséria de estar
vivaE não saber estar viva quando vivo.Assim
nas brancas árvores o tempoAssim ter acabado o
meu destinoE ler-me noutros versos, noutros
nomesAssim desconhecer aonde habito.Assim por muito
mais e muito menosSe acaba, em vida, a vida ao
suicida.Assim por ser a hora mais cinzenta,O desamparo
assim da minha vida.
1 304
1
José Tolentino Mendonça
Murmúrios do mar
"Paga-me um café e
conto-te a minha vida" o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos de uma criança
muito assustada que corria o vento batia-lhe no
rosto com violência a infância inteira disso me
lembro outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo apagavas cigarros nas palmas das
mãos e os que te viam choravam mas tu
,não,nunca choraste por amores que se perdem os
naufrágios são belos sentimo-nos tão vivos entre as
ilhas ,acreditas? E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo tudo o que
seremos depois "pago-te um café se me contares
o teu amor"
conto-te a minha vida" o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos de uma criança
muito assustada que corria o vento batia-lhe no
rosto com violência a infância inteira disso me
lembro outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo apagavas cigarros nas palmas das
mãos e os que te viam choravam mas tu
,não,nunca choraste por amores que se perdem os
naufrágios são belos sentimo-nos tão vivos entre as
ilhas ,acreditas? E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo tudo o que
seremos depois "pago-te um café se me contares
o teu amor"
7 392
1
Ernesto de Melo e Castro
Autobiografia fenómeno-F(re)udiana
fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
1 309
1
José Tolentino Mendonça
Uma Coisa A Menos Para Adorar
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
2 458
1
Alexei Bueno
Transmutação
Transmutação
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
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Gottfried Benn
Campo dos infelizes
Campo dos infelizes
Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.
A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.
E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo.
Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.
A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.
E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo.
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René Char
Commune Presence
Commune Presence
Tu es pressé décrire,
Comme si tu étais en retard sur la vie.
Sil en est ainsi fais cortège à tes sources.
Hâte-toi.
Hâte-toi de transmettre
Ta part de merveilleux de rébellion de bienfaisance.
Effectivement tu es en retard sur la vie,
La vie inexprimable,
La seule en fin de compte à laquelle tu acceptes de tunir,
Celle qui test refusée chaque jour par les êtres et par les choses,
Dont tu obtiens péniblement de-ci de-là quelques fragments décharnés
Au bout de combats sans merci.
Hors delle, tout nest quagonie soumise, fin grossière.
Si tu rencontres la mort durant ton labeur,
Reçois-là comme la nuque en sueur trouve bon le mouchoir aride,
En tinclinant.
Si tu veux rire,
Offre ta soumission,
Jamais tes armes.
Tu as été créé pour des moments peu communs.
Modifie-toi, disparais sans regret
Au gré de la rigueur suave.
Quartier suivant quartier la liquidation du monde se poursuit
Sans interruption,
Sans égarement.
Essaime la poussière
Nul ne décèlera votre union.
Tu es pressé décrire,
Comme si tu étais en retard sur la vie.
Sil en est ainsi fais cortège à tes sources.
Hâte-toi.
Hâte-toi de transmettre
Ta part de merveilleux de rébellion de bienfaisance.
Effectivement tu es en retard sur la vie,
La vie inexprimable,
La seule en fin de compte à laquelle tu acceptes de tunir,
Celle qui test refusée chaque jour par les êtres et par les choses,
Dont tu obtiens péniblement de-ci de-là quelques fragments décharnés
Au bout de combats sans merci.
Hors delle, tout nest quagonie soumise, fin grossière.
Si tu rencontres la mort durant ton labeur,
Reçois-là comme la nuque en sueur trouve bon le mouchoir aride,
En tinclinant.
Si tu veux rire,
Offre ta soumission,
Jamais tes armes.
Tu as été créé pour des moments peu communs.
Modifie-toi, disparais sans regret
Au gré de la rigueur suave.
Quartier suivant quartier la liquidation du monde se poursuit
Sans interruption,
Sans égarement.
Essaime la poussière
Nul ne décèlera votre union.
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Mário de Sá-Carneiro
Crise Lamentável
Gostava
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
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Carlos Figueiredo
As estrelas brilham por amor
As estrelas brilham por amor,
como o mar, as crianças, a música,
como os homens quando são livres
como o mar, as crianças, a música,
como os homens quando são livres
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Alexandre S. Santos
Saída para a Sanidade
O que tens a dizer ser insensato,
senão contradizer-te com palavras ocas;
deitar-te sobre pregos e sentir prazer;
cobrir-te de medalhas e lisonjas mocas;
travestir-te de feliz enquanto no retrato...
Abre com grande grito teu peito;
deixa pulsar sem disfarce teu coração;
chora lágrimas de dor verdadeira;
sonha e vive, porém, com emoção;
clama ajuda ao desfalecer no leito...
Ouve a voz que brota de tua entranha;
mescla ao teu bom senso o sentimento;
escorra sangue da veia pungida;
não percas a luta para o tormento;
toma o gozo pela dor, numa barganha...
Então, quando da visita da alvorada
sentires o calor vivificante da coragem,
não mates teu tempo com pura divagação,
ungi-te de vigor e parte numa viagem;
chora, ri, ama, faça da vida namorada.
senão contradizer-te com palavras ocas;
deitar-te sobre pregos e sentir prazer;
cobrir-te de medalhas e lisonjas mocas;
travestir-te de feliz enquanto no retrato...
Abre com grande grito teu peito;
deixa pulsar sem disfarce teu coração;
chora lágrimas de dor verdadeira;
sonha e vive, porém, com emoção;
clama ajuda ao desfalecer no leito...
Ouve a voz que brota de tua entranha;
mescla ao teu bom senso o sentimento;
escorra sangue da veia pungida;
não percas a luta para o tormento;
toma o gozo pela dor, numa barganha...
Então, quando da visita da alvorada
sentires o calor vivificante da coragem,
não mates teu tempo com pura divagação,
ungi-te de vigor e parte numa viagem;
chora, ri, ama, faça da vida namorada.
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Júlio Salusse
Cisne
Cisne
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!
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