Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Ricardo Gonçalves
A Cisma do Caboclo
A Valdomiro Silveira
Cisma o cabloco à porta da cabana.
Declina o sol, mas, rúbido, espadana
Ondas fulvas de luz.
No terreiro, entre espigas debulhadas,
Arrulham, perseguindo-se a bicadas,
Dois casais de pombinhos parirús.
A criação de penas se empoleira;
Come a ração no cocho da mangueira
Um velho pangaré.
E uma vaca leiteira e bois de carro
Pastam junto à casinha, que é de barro,
Coberta de sapé.
Longe, uma tropa trota pela estrada.
E a viração das matas, impregnada
De perfumes sutis,
Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade
O soturno queixume de saudade
Das pombas juritis.
Cisma o cabloco. Pensa na morena
Que vira numa noite de novena
Orando ao pé do altar.
Que vira... e que, por mal de seus pecados,
Tinha os olhos profundos e rasgados
E um riso de matar.
Branco, de fofos, era o seu vestido.
E ele, ao vê-la, sentindo-se ferido
Em pleno coração,
Baixinho suspirou: "Nossa Senhora!
Ai, meu São Bom Jesus de Pirapora
Da minha devoção!"
Depois não se conteve e, num fandango
Furtou-lhe um beijo aos lábios de morango
O diabo do rapaz.
E ela volveu zangada: "Malcriado!
Seu vigário já disse que é pecado.
Aquilo não se faz!..."
E o caboclo medita. O sol em chama
Como agora há pouquinho não derrama
Ondas fulvas de luz.
O corrego soluça, a noite desce,
E vem dos capoeirões onde anoitece
O trilo vesperal dos inambús.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Cisma o cabloco à porta da cabana.
Declina o sol, mas, rúbido, espadana
Ondas fulvas de luz.
No terreiro, entre espigas debulhadas,
Arrulham, perseguindo-se a bicadas,
Dois casais de pombinhos parirús.
A criação de penas se empoleira;
Come a ração no cocho da mangueira
Um velho pangaré.
E uma vaca leiteira e bois de carro
Pastam junto à casinha, que é de barro,
Coberta de sapé.
Longe, uma tropa trota pela estrada.
E a viração das matas, impregnada
De perfumes sutis,
Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade
O soturno queixume de saudade
Das pombas juritis.
Cisma o cabloco. Pensa na morena
Que vira numa noite de novena
Orando ao pé do altar.
Que vira... e que, por mal de seus pecados,
Tinha os olhos profundos e rasgados
E um riso de matar.
Branco, de fofos, era o seu vestido.
E ele, ao vê-la, sentindo-se ferido
Em pleno coração,
Baixinho suspirou: "Nossa Senhora!
Ai, meu São Bom Jesus de Pirapora
Da minha devoção!"
Depois não se conteve e, num fandango
Furtou-lhe um beijo aos lábios de morango
O diabo do rapaz.
E ela volveu zangada: "Malcriado!
Seu vigário já disse que é pecado.
Aquilo não se faz!..."
E o caboclo medita. O sol em chama
Como agora há pouquinho não derrama
Ondas fulvas de luz.
O corrego soluça, a noite desce,
E vem dos capoeirões onde anoitece
O trilo vesperal dos inambús.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
3 150
1
Ricardo Gonçalves
Fazenda Velha
Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 412
1
Ricardo Gonçalves
Fazenda Velha
Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 412
1
Teófilo Dias
A Matilha
Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos,
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados;
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa, — o gozo — em tua boca.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos,
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados;
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa, — o gozo — em tua boca.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960
3 334
1
Amadeu Amaral
Tapera
Numa curva da estrada, onde a luz reverbera
num tanque entre ervaçais, aparece uma casa.
Pombas voejam no oitão, sobre a cumeeira rasa.
Tudo ali tem um ar de quem convida, e espera.
Sigo. Chego ao pomar: o capim prolifera;
a guaxima no juá bravo, alta e rija, se casa.
Silêncio. E, no silêncio, o som mole de uma asa
e o fremente chiar da cigarra. É a tapera.
Bato à porta. Ninguém. Olho por uma fresta:
tudo escuro; e no escuro, a descer do telhado,
longas fitas de sol. Nada mais ali resta.
A velha casa morre. Apenas, sobre as lombas
do teto a desabar caminham sem cuidado,
nos pequeninos pés, turturinando, as pombas.
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.170. (Obras de Amadeu Amaral
num tanque entre ervaçais, aparece uma casa.
Pombas voejam no oitão, sobre a cumeeira rasa.
Tudo ali tem um ar de quem convida, e espera.
Sigo. Chego ao pomar: o capim prolifera;
a guaxima no juá bravo, alta e rija, se casa.
Silêncio. E, no silêncio, o som mole de uma asa
e o fremente chiar da cigarra. É a tapera.
Bato à porta. Ninguém. Olho por uma fresta:
tudo escuro; e no escuro, a descer do telhado,
longas fitas de sol. Nada mais ali resta.
A velha casa morre. Apenas, sobre as lombas
do teto a desabar caminham sem cuidado,
nos pequeninos pés, turturinando, as pombas.
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.170. (Obras de Amadeu Amaral
2 198
1
Ribeiro Couto
Chuva
A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Publicado no livro O Jardim das Confidências. Poema integrante da série Os Romances Perdidos.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Publicado no livro O Jardim das Confidências. Poema integrante da série Os Romances Perdidos.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.
3 065
1
Aureliano Lessa
A Tarde
II
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 579
1
Aureliano Lessa
A Tarde
II
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 579
1
Juó Bananére
O Gorvo i o Raposo
Fabula di Lafontana
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
1 990
1
João Cabral de Melo Neto
Num Monumento à Aspirina
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.360-361. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.360-361. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 858
1
Murillo Mendes
Murilo Menino
Eu quero montar o vento em pêlo,
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.
Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.
Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.
Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.
Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.
Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.
Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.
Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.
Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
5 242
1
Tasso da Silveira
Canção
Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C
1 463
1
Luís Delfino
Primeira Missa no Brasil
A Victor Meirelles
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
3 008
1
Raul Pompéia
O Ventre
A atração sideral é uma forma do egoísmo. O equilíbrio
dos egoísmos, derivado em turbilhão, faz a ordem nas cousas.
Passa-se assim em presença do homem: a fúria sedenta das
raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura, o
leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos
assassinando as flores. O egoísmo cobiça a destruição. A sede
inabrandável do mar tenta beber o rio, o rio pretende dar vazão
às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem perpetuamente
as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta; o rio
corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas
dos mundos, trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus.
A fome é a suprema doutrina. Consumir é a lei.
A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.
O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.
A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro.
Giram as instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados,
bradam as cidades... O ventre, soberano como um deus, preside e
engorda.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.71. (Vera Cruz, 324c
dos egoísmos, derivado em turbilhão, faz a ordem nas cousas.
Passa-se assim em presença do homem: a fúria sedenta das
raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura, o
leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos
assassinando as flores. O egoísmo cobiça a destruição. A sede
inabrandável do mar tenta beber o rio, o rio pretende dar vazão
às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem perpetuamente
as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta; o rio
corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas
dos mundos, trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus.
A fome é a suprema doutrina. Consumir é a lei.
A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.
O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.
A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro.
Giram as instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados,
bradam as cidades... O ventre, soberano como um deus, preside e
engorda.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.71. (Vera Cruz, 324c
2 252
1
Carlos Frydman
Menino de Hirochima
Hoje, que o sol raiou mais otimista,
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 020
1
Armando Freitas Filho
Nu de Verão Subindo a Escada
Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 500
1
Armando Freitas Filho
Nu de Verão Subindo a Escada
Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 500
1
Armando Freitas Filho
Nu de Verão Subindo a Escada
Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 500
1
Capinan
O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo
O desenvolver-se do rio é pacífico.
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.
De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.
Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.
De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.
Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
1 465
1
Odylo Costa Filho
Os Coelhinhos
Iam dois coelhinhos
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.
E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.
E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.
Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.1
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.
E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.
E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.
Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.1
2 841
1
D. Pedro II
IV - Sempre o Brasil
Nunca noite dormi tão sossegado,
Quem nem mesmo sonhei com o meu Brasil,
Porém, vendo infinito mar d'anil,
Lembra-me a aurora dele nacarada.
Cada dia que passa não é nada,
E os que faltam parecem mais de mil.
Se o tempo que lá vivo é um ceitil,
Aqui é para mim grande massada.
E a doença porém me consentir,
Sempre pensando nele, cuidarei
De tornar-me mais digno de o servir,
E, quando possa, logo voltarei;
Pois na terra só quero eu existir
Quando é para bem dele que eu o sei.
Bordo do Gironde, 7 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
Quem nem mesmo sonhei com o meu Brasil,
Porém, vendo infinito mar d'anil,
Lembra-me a aurora dele nacarada.
Cada dia que passa não é nada,
E os que faltam parecem mais de mil.
Se o tempo que lá vivo é um ceitil,
Aqui é para mim grande massada.
E a doença porém me consentir,
Sempre pensando nele, cuidarei
De tornar-me mais digno de o servir,
E, quando possa, logo voltarei;
Pois na terra só quero eu existir
Quando é para bem dele que eu o sei.
Bordo do Gironde, 7 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
1 931
1
Arnaldo Antunes
Dorme
PÁRA-RAIO, DORME
TEMPORAL, DORME
VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME
AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME
TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME
LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME
SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME
CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME
CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME
CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME
PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME
AMANHÃ, DORME
In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
TEMPORAL, DORME
VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME
AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME
TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME
LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME
SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME
CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME
CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME
CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME
PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME
AMANHÃ, DORME
In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
2 479
1
Paulo Bomfim
A Água
Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
2 366
1
Luís Delfino
Sanguínea
A Alberto de Oliveira
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
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