Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Mário Dionísio
No cais
Ó quarteirões de casas escuras
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
1 637
Mário Dionísio
Pregão
Dum gesto alcançámos a terra.
Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.
Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.
Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!
Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.
Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.
Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.
Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.
Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!
Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.
Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.
Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
1 561
José Augusto de Carvalho
A recusa!
Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!
O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.
Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!
Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...
20 de Abril de 2010
Viana do Alentejo
909
Neves e Sousa
Ilha de Moçambique
Ilha de oiro e angustia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.
Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...
Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.
Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.
Riquexos vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados
E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...
Portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...
Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.
Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...
Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.
Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.
Riquexos vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados
E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...
Portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...
Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.
1 315
Fernando Couto
Na agreste paisagem
Na agreste paisagem de dunas
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.
Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.
Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.
Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.
Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
1 132
João Maimona
Arte poética
Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.
Cai areia na areia.
Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.
Cai areia na areia.
Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.
1 464
Teobaldo Virgínio
Rota longa
Irei na rota branca
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.
Rota longa rota longa
Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.
Rota longa rota longa
Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.
Rota longa rota longa
Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.
Rota longa rota longa
Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.
Rota longa rota longa
Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.
Rota longa rota longa
Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.
Rota longa rota longa
Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.
Rota longa rota longa
Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.
Rota longa rota longa
Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.
Rota longa rota longa
Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.
1 155
Cândido da Velha
As idades da pedra - I
É do mar que vêm estas vozes
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.
Este permanente arfar marinho
desperta a ressonância de oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.
Cheiros de primeira pâtria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira o corpo na fronteira do mar.
Reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vermos,
na babugem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.
Este permanente arfar marinho
desperta a ressonância de oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.
Cheiros de primeira pâtria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira o corpo na fronteira do mar.
Reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vermos,
na babugem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.
1 152
Sousândrade
Harpa XXXV - Visões
..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 590
Torquato Neto
A Rua
toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
1 970
Vicente de Carvalho
A Voz do Sino
I
Tarde triste e silenciosa
De vila de beira-mar:
Uma tarde cor-de-rosa
Que vai morrendo em luar...
(...)
De súbito, rumoreja
Violentamente o ar:
Na torrezinha da igreja
Rompe o sino a badalar.
Ponho-me atento, a escutá-lo:
Que diz, alto e repentino,
Esse bater de um badalo
Num sino?
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Aves, já nenhuma voa:
Dormem; e vais acordá-las
À-toa...
Vais espantar quanta moça
Aí pelos arredores
Depois de um dia de roça,
De enxada e de soalheira,
Dedica a tarde ligeira
A tarefas bem melhores:
Pelas discretas beiradas
De alguma fonte; fiadas
Na proteção pitoresca
De ramagens, folha, flores;
Que fazem elas? Coitadas,
Bebem, nas mãos, água fresca...
Lavam as caras tostadas...
Ou cuidam dos seus amores...
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Olha que vais espantá-las
À-toa...
Badalas... E eu que te falo
Não sei e nem imagino
Que pretendes tu, badalo,
A bater, bater no sino.
Talvez convoques à ceia
Pescadores que, lidando,
Nem viram que entardeceu;
Algum se estendeu na areia
A descansar; senão quando,
De cansado adormeceu...
(...)
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Tarde triste e silenciosa
De vila de beira-mar:
Uma tarde cor-de-rosa
Que vai morrendo em luar...
(...)
De súbito, rumoreja
Violentamente o ar:
Na torrezinha da igreja
Rompe o sino a badalar.
Ponho-me atento, a escutá-lo:
Que diz, alto e repentino,
Esse bater de um badalo
Num sino?
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Aves, já nenhuma voa:
Dormem; e vais acordá-las
À-toa...
Vais espantar quanta moça
Aí pelos arredores
Depois de um dia de roça,
De enxada e de soalheira,
Dedica a tarde ligeira
A tarefas bem melhores:
Pelas discretas beiradas
De alguma fonte; fiadas
Na proteção pitoresca
De ramagens, folha, flores;
Que fazem elas? Coitadas,
Bebem, nas mãos, água fresca...
Lavam as caras tostadas...
Ou cuidam dos seus amores...
Badalo que assim badalas
No sino que assim ressoa,
Olha que vais espantá-las
À-toa...
Badalas... E eu que te falo
Não sei e nem imagino
Que pretendes tu, badalo,
A bater, bater no sino.
Talvez convoques à ceia
Pescadores que, lidando,
Nem viram que entardeceu;
Algum se estendeu na areia
A descansar; senão quando,
De cansado adormeceu...
(...)
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
3 650
Olegário Mariano
De Papo Pro Á, 1931
I
Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé
Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á
II
Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho
In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147
NOTA: Música de Joubert de Carvalh
Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé
Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á
II
Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho
In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147
NOTA: Música de Joubert de Carvalh
1 016
Vicente de Carvalho
Sugestões do Crepúsculo
Estranha voz, estranha prece
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
1 875
Basílio da Gama
Canto Terceiro (I)
(...)
Respirava descanso a natureza.
Só na outra margem não podia em tanto
O inquieto Cacambo achar sossego.
No perturbado interrompido sono,
Talvez fosse ilusão, se lhe apresenta
A triste imagem de Cepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno à cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava, e as descompostas penas.
Quanto diverso do Cepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue, e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza, e desventura encobre.
(...)
(...) Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas no ar fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.
Acorda o Índio valeroso, e salta
Longe da curva rede, e sem demora
O arco, e as setas arrebata, e fere
O chão com o pé: quer sobre o largo rio
Ir peito a peito a contrastar co'a morte.
Tem diante dos olhos a figura
Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.
Pendura a um verde tronco as várias penas,
E o arco, e as setas, e a sonora aljava;
E onde mais manso, e mais quieto o rio
Se estende, e espraia sobre a ruiva areia,
Pensativo, e turbado entra; e com água
Já por cima do peito as mãos, e os olhos
Levanta ao Céu, que ele não via, e às ondas
O corpo entrega. (...)
(...)
Lá, como é uso do país, roçando
Dous lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto, e foge a tempo
Da perigosa luz; porém na margem
Do rio, quando a chama abrasadora
Começa a alumiar a noite escura,
Já sentido dos Guardas não se assusta,
E temerária, e venturosamente,
Fiando a vida aos animosos braços,
De um alto precipício às negras ondas
Outra vez se lançou, e foi de um salto
Ao fundo rio a visitar a areia.
Debalde gritam, e debalde às margens
Corre a gente apressada. Ele entretanto
Sacode as pernas, e os nervosos braços:
Rompe as escumas assoprando, e a um tempo
Suspendido nas mãos, voltando o rosto,
Via nas águas trêmulas a imagem
Do arrebatado incêndio, e se alegrava.
Não de outra sorte o cauteloso Ulisses,
Vaidoso da ruína, que causara,
Viu abrasar de Tróia os altos muros,
E a perjura Cidade envolta em fumo
Encostar-se no chão, e pouco a pouco
Desmaiar sobre as cinzas. (...)
Imagem - 00250004
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
Respirava descanso a natureza.
Só na outra margem não podia em tanto
O inquieto Cacambo achar sossego.
No perturbado interrompido sono,
Talvez fosse ilusão, se lhe apresenta
A triste imagem de Cepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno à cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava, e as descompostas penas.
Quanto diverso do Cepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue, e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza, e desventura encobre.
(...)
(...) Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas no ar fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.
Acorda o Índio valeroso, e salta
Longe da curva rede, e sem demora
O arco, e as setas arrebata, e fere
O chão com o pé: quer sobre o largo rio
Ir peito a peito a contrastar co'a morte.
Tem diante dos olhos a figura
Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.
Pendura a um verde tronco as várias penas,
E o arco, e as setas, e a sonora aljava;
E onde mais manso, e mais quieto o rio
Se estende, e espraia sobre a ruiva areia,
Pensativo, e turbado entra; e com água
Já por cima do peito as mãos, e os olhos
Levanta ao Céu, que ele não via, e às ondas
O corpo entrega. (...)
(...)
Lá, como é uso do país, roçando
Dous lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto, e foge a tempo
Da perigosa luz; porém na margem
Do rio, quando a chama abrasadora
Começa a alumiar a noite escura,
Já sentido dos Guardas não se assusta,
E temerária, e venturosamente,
Fiando a vida aos animosos braços,
De um alto precipício às negras ondas
Outra vez se lançou, e foi de um salto
Ao fundo rio a visitar a areia.
Debalde gritam, e debalde às margens
Corre a gente apressada. Ele entretanto
Sacode as pernas, e os nervosos braços:
Rompe as escumas assoprando, e a um tempo
Suspendido nas mãos, voltando o rosto,
Via nas águas trêmulas a imagem
Do arrebatado incêndio, e se alegrava.
Não de outra sorte o cauteloso Ulisses,
Vaidoso da ruína, que causara,
Viu abrasar de Tróia os altos muros,
E a perjura Cidade envolta em fumo
Encostar-se no chão, e pouco a pouco
Desmaiar sobre as cinzas. (...)
Imagem - 00250004
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
2 815
Vicente de Carvalho
A Ternura do Mar
No firmamento azul, cheio de estrelas de ouro
Ia boiando a lua indiferente e fria...
De penhasco em penhasco e de estouro em estouro,
Embaixo, o mar dizia:
"Lua, só meu amor é fiel tempo em fora...
Muda o céu, que se alegra à madrugada, e pelas
Sombras do entardecer todo entristece, e chora
Marejado de estrelas;
Ora em pompas, a terra, ora desfeita e nua
— Como a folha que vai arrastada na brisa —
Aos caprichos do tempo inconstante flutua
Indecisa, indecisa...
Desfolha-se, encanece em musgos, aos rigores
Do céu mostra a nudez dos seus galhos mesquinhos,
A árvore que viçou toda folhas e flores,
Toda aromas e ninhos:
Cóleras de tufão, pompas de primavera,
Céu que em sombras se esvai, terra que se desnuda,
A tudo o tempo alcança, e a tudo o tempo altera...
— Só o meu amor não muda!
Há mil anos que eu vivo a terra suprimindo:
Hei de romper-lhe a crosta e cavar-lhe as entranhas,
Dentro de vagalhões penhascos submergindo,
Submergindo montanhas.
Hei de alcançar-te um dia... Embalde nos separa
A largura da terra e o fraguedo dos montes...
Hei de chegar aí de onde vens, nua e clara,
Subindo os horizontes.
Um passo para ti cada dia entesouro;
Há de ter fim o espaço, e o meu amor caminha...
Dona do céu azul e das estrelas de ouro,
Um dia serás minha!
E serei teu escravo... À noute, pela calma
Rendilharei de espuma o teu berço de areias,
E há de embalar teu sono e acalentar tua alma
O canto das sereias.
Quando a aurora romper no céu despovoado,
Tesouros a teus pés estenderei, de rastros...
Ser amante do mar vale mais, sonho amado,
Que ser dona dos astros.
Deliciando-te o olhar, afagando-te a vista,
Todo me tingirei de mil cores cambiantes,
E abrir-se-á de meu seio a brancura imprevista
Das ondas arquejantes.
Levar-te-ei de onda e monda a vagar de ilha em ilha,
Tranquilas solidões, ermas como atalaias,
Onde o marulho canta e a salsugem polvilha
A alva nudez das praias.
Ao longe, de repente assomando e fugindo,
Alguma vela, ao sol, verás alva de neve:
Teus olhos sonharão enlevados, seguindo
Seu vôo claro e leve;
Sonharão, na delícia indefinida e vaga
De sentir-se levar sem destino, um momento,
Para além... para além... nos balanços da vaga,
Nos acasos do vento.
(...)
Imagem - 00160001
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Ia boiando a lua indiferente e fria...
De penhasco em penhasco e de estouro em estouro,
Embaixo, o mar dizia:
"Lua, só meu amor é fiel tempo em fora...
Muda o céu, que se alegra à madrugada, e pelas
Sombras do entardecer todo entristece, e chora
Marejado de estrelas;
Ora em pompas, a terra, ora desfeita e nua
— Como a folha que vai arrastada na brisa —
Aos caprichos do tempo inconstante flutua
Indecisa, indecisa...
Desfolha-se, encanece em musgos, aos rigores
Do céu mostra a nudez dos seus galhos mesquinhos,
A árvore que viçou toda folhas e flores,
Toda aromas e ninhos:
Cóleras de tufão, pompas de primavera,
Céu que em sombras se esvai, terra que se desnuda,
A tudo o tempo alcança, e a tudo o tempo altera...
— Só o meu amor não muda!
Há mil anos que eu vivo a terra suprimindo:
Hei de romper-lhe a crosta e cavar-lhe as entranhas,
Dentro de vagalhões penhascos submergindo,
Submergindo montanhas.
Hei de alcançar-te um dia... Embalde nos separa
A largura da terra e o fraguedo dos montes...
Hei de chegar aí de onde vens, nua e clara,
Subindo os horizontes.
Um passo para ti cada dia entesouro;
Há de ter fim o espaço, e o meu amor caminha...
Dona do céu azul e das estrelas de ouro,
Um dia serás minha!
E serei teu escravo... À noute, pela calma
Rendilharei de espuma o teu berço de areias,
E há de embalar teu sono e acalentar tua alma
O canto das sereias.
Quando a aurora romper no céu despovoado,
Tesouros a teus pés estenderei, de rastros...
Ser amante do mar vale mais, sonho amado,
Que ser dona dos astros.
Deliciando-te o olhar, afagando-te a vista,
Todo me tingirei de mil cores cambiantes,
E abrir-se-á de meu seio a brancura imprevista
Das ondas arquejantes.
Levar-te-ei de onda e monda a vagar de ilha em ilha,
Tranquilas solidões, ermas como atalaias,
Onde o marulho canta e a salsugem polvilha
A alva nudez das praias.
Ao longe, de repente assomando e fugindo,
Alguma vela, ao sol, verás alva de neve:
Teus olhos sonharão enlevados, seguindo
Seu vôo claro e leve;
Sonharão, na delícia indefinida e vaga
De sentir-se levar sem destino, um momento,
Para além... para além... nos balanços da vaga,
Nos acasos do vento.
(...)
Imagem - 00160001
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 038
Mário Faustino
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo
...
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo-
ária de pranto, advento de borrasca,
o mar sem remo tolda os horizontes,
Bóreas tem asco deste canto e vai-se —
a este, o meio. O mar, alto e bifronte,
o mastro verga ao peso de seus astros,
tudo perdura e passa, Vasco e pano,
a hora atordoada, a ponte, o gado —
estado, tempo insone, maremoto
o peixe em seu sepulcro, o céu doloso,
piso estelado, fulcro de tormentos,
nasce de baixo um feixe, um arco, um pasto —
inviolável ave, procelária,
próxima de seu cume, vela e prumo,
alemar, terraquem, céu soto e supra,
solto esqueleto alado, escuma e sulco,
protelado corcel e corolário
do mar e dor do ar e surto e fumo,
esquálido estilete, flecha e rumo,
esquálido estilete flecho e rumo.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo-
ária de pranto, advento de borrasca,
o mar sem remo tolda os horizontes,
Bóreas tem asco deste canto e vai-se —
a este, o meio. O mar, alto e bifronte,
o mastro verga ao peso de seus astros,
tudo perdura e passa, Vasco e pano,
a hora atordoada, a ponte, o gado —
estado, tempo insone, maremoto
o peixe em seu sepulcro, o céu doloso,
piso estelado, fulcro de tormentos,
nasce de baixo um feixe, um arco, um pasto —
inviolável ave, procelária,
próxima de seu cume, vela e prumo,
alemar, terraquem, céu soto e supra,
solto esqueleto alado, escuma e sulco,
protelado corcel e corolário
do mar e dor do ar e surto e fumo,
esquálido estilete, flecha e rumo,
esquálido estilete flecho e rumo.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 226
Ribeiro Couto
Santos
Sobre a cidade a tarde cai de manso.
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
1 366
Mário Faustino
Gaivota, vais e voltas
...
Gaivota, vais e voltas,
gaivota, vais — e não voltas.
Somem-se os homens, deixam-se os peixes
ir à deriva —
mal se respira
o ar do mundo
e experimenta-se a voracidade
do mar, do fundo
envenenado:
esperma — e mente,
ira — e sorriso,
esperança — e dança.
Alguém traz a mirra,
traz açafrão, azeite, vinagre:
eis o homem disposto, com suas faixas,
ei-lo em templo deposto, entre seus panos.
Maresia, santidade — que perfume!
Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,
cala-se alguém que não quis beber seu cálice,
alguém que não quis beber,
alguém que não quis
o mar, em vão e nada, o árduo mundo,
gota após gota, anos e anos.
Contemplando o poente, os albatrozes
refletem-se nos elmos derrotados.
Alguém canta o refrão. As algas dançam
no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,
açoite após açoite,
agora, enfim, é noite
e esvaem-se os navios.
— É esta, então, a Vera Cidade?
— É essa, Adão, a tua verdade?
Alguém não quis viver,
alguém não quis seu fardo, suas rotas,
alguém entre alcatrazes,
entre peixes vorazes, ser disforme —
santo lume nascente, ou heresia?
Um rei entre santelmos —
(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,
Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Gaivota, vais e voltas,
gaivota, vais — e não voltas.
Somem-se os homens, deixam-se os peixes
ir à deriva —
mal se respira
o ar do mundo
e experimenta-se a voracidade
do mar, do fundo
envenenado:
esperma — e mente,
ira — e sorriso,
esperança — e dança.
Alguém traz a mirra,
traz açafrão, azeite, vinagre:
eis o homem disposto, com suas faixas,
ei-lo em templo deposto, entre seus panos.
Maresia, santidade — que perfume!
Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,
cala-se alguém que não quis beber seu cálice,
alguém que não quis beber,
alguém que não quis
o mar, em vão e nada, o árduo mundo,
gota após gota, anos e anos.
Contemplando o poente, os albatrozes
refletem-se nos elmos derrotados.
Alguém canta o refrão. As algas dançam
no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,
açoite após açoite,
agora, enfim, é noite
e esvaem-se os navios.
— É esta, então, a Vera Cidade?
— É essa, Adão, a tua verdade?
Alguém não quis viver,
alguém não quis seu fardo, suas rotas,
alguém entre alcatrazes,
entre peixes vorazes, ser disforme —
santo lume nascente, ou heresia?
Um rei entre santelmos —
(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,
Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 443
Renata Pallottini
Olha, que no Verão
Olha, que no verão a lua nasce
vermelha dentro d'água
nesta praia.
Acendamos o fogo para vê-la
e para ver-nos. Já é quase noite
o mar só faz de conta com sua água múltipla
breve virá o rastro de ouro e sangue.
A lua sempre comoveu mulheres
seus ciclos, suas datas,
seus períodos
a lua sempre motivou os gatos
maré de bons resquícios
sexo e fluido;
gemendo nos amamos
e gemendo explodimos nos sismos do parto.
As mulheres são fossos onde a lua dorme
e desperta furiosa
a cada quatro casas.
Nada mais do que sou
me basta
neste instante;
o que fui já passou há muito tempo;
não devemos voltar nem pra recolher os destroços
fossem de ouro os restos
não voltemos;
deixa na praia os pedaços de troncos
ou joga-os na fogueira
de areia e ossos.
Pode tardar a lua; a hora não importa
à senhora dos sulcos e das lavras do mar.
Ela tem o seu tempo, o tempo das crateras
o lívido da pele do seu centro
o ouro do seu carmim
no nascimento.
Pode tardar a lua
Vem
O fogo
é dentro
In: PALLOTTINI, Renata. Ao inventor das aves. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebaran
vermelha dentro d'água
nesta praia.
Acendamos o fogo para vê-la
e para ver-nos. Já é quase noite
o mar só faz de conta com sua água múltipla
breve virá o rastro de ouro e sangue.
A lua sempre comoveu mulheres
seus ciclos, suas datas,
seus períodos
a lua sempre motivou os gatos
maré de bons resquícios
sexo e fluido;
gemendo nos amamos
e gemendo explodimos nos sismos do parto.
As mulheres são fossos onde a lua dorme
e desperta furiosa
a cada quatro casas.
Nada mais do que sou
me basta
neste instante;
o que fui já passou há muito tempo;
não devemos voltar nem pra recolher os destroços
fossem de ouro os restos
não voltemos;
deixa na praia os pedaços de troncos
ou joga-os na fogueira
de areia e ossos.
Pode tardar a lua; a hora não importa
à senhora dos sulcos e das lavras do mar.
Ela tem o seu tempo, o tempo das crateras
o lívido da pele do seu centro
o ouro do seu carmim
no nascimento.
Pode tardar a lua
Vem
O fogo
é dentro
In: PALLOTTINI, Renata. Ao inventor das aves. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebaran
1 505
Sosigenes Costa
Iemanjá
(...)
— Ê vai ê vai
a rainha do mar
rompendo mar e vento.
Orungã, não faça isto
que o mundo vai se acabar.
Não te dói a consciência?
Não desonre esta sereia,
não manche a estrela do mar.
Ê vai ê vai
rompendo mar e vento
rainha da Guiné.
Onde mora Santa Barb'a
que quero me esconder.
Vai haver um castigo,
o mundo vai se arrasar.
Já estive numa casa
e era a casa de Bará.
Onde mora Santa Barb'a?
Minha gente, me responda:
Onde mora Santa Barb'a?
— Mora den'da lua
mora den'dum rochedo.
— Ai quem me dera que eu pudesse
me esconder dentro da lua.
E Iemanjá de tão cansada
já não podia correr mais.
Ia cai não cai caindo.
— Ô Iná marabô,
faça surgir um mar de Espanha,
Inaê ou Inaô,
um espinheiro e uma neblina,
ô Iná arauê
uma chuva de navalha
pra Orungã não te pear.
E Iemanjá já não podia
correr mais e desmaiou.
E caiu no chão de costas.
Porém antes que Orungã
alcançasse Iemanjá
e tocasse nos seu seios,
o seu corpo foi crescendo,
foi crescendo e agigantou-se
e os dois seios de Inaê
se tornaram do tamanho
de dois montes sem igual
e o céu estremeceu
e a terra se abalou
e o ceú veio arriando
e queria desabar.
Quando os bicos dos seus peitos
se afundaram pelas nuvens,
sustentando o firmamento
que queria desabar,
o anjo tocou a trombeta
e os dois seios da sereia
começaram a jorrar água
com estrondo e num dilúvio
e dois rios se formaram
da água de cada um,
e a água lavou o mundo.
E o espírito de Deus vagou naquelas águas
e foi então o princípio
e a pomba do Divino bebeu das águas bentas.
E eu botei o joelho em terra
para pedir pelos filhos de Deus.
Ai a água lava tudo,
lava o que nos mancha as almas,
lava o que nos envergonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
Dos teus seios, Janaína
se formaram estes dois rios
que a Bahia estão lavando
para tirar o que nos mancha
e também nos envergonha.
Ora, um é o S. Francisco
e o outro é o Jequitinhonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
(...)
Imagem - 00830001
Poema integrante da série Obra Poética II.
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
— Ê vai ê vai
a rainha do mar
rompendo mar e vento.
Orungã, não faça isto
que o mundo vai se acabar.
Não te dói a consciência?
Não desonre esta sereia,
não manche a estrela do mar.
Ê vai ê vai
rompendo mar e vento
rainha da Guiné.
Onde mora Santa Barb'a
que quero me esconder.
Vai haver um castigo,
o mundo vai se arrasar.
Já estive numa casa
e era a casa de Bará.
Onde mora Santa Barb'a?
Minha gente, me responda:
Onde mora Santa Barb'a?
— Mora den'da lua
mora den'dum rochedo.
— Ai quem me dera que eu pudesse
me esconder dentro da lua.
E Iemanjá de tão cansada
já não podia correr mais.
Ia cai não cai caindo.
— Ô Iná marabô,
faça surgir um mar de Espanha,
Inaê ou Inaô,
um espinheiro e uma neblina,
ô Iná arauê
uma chuva de navalha
pra Orungã não te pear.
E Iemanjá já não podia
correr mais e desmaiou.
E caiu no chão de costas.
Porém antes que Orungã
alcançasse Iemanjá
e tocasse nos seu seios,
o seu corpo foi crescendo,
foi crescendo e agigantou-se
e os dois seios de Inaê
se tornaram do tamanho
de dois montes sem igual
e o céu estremeceu
e a terra se abalou
e o ceú veio arriando
e queria desabar.
Quando os bicos dos seus peitos
se afundaram pelas nuvens,
sustentando o firmamento
que queria desabar,
o anjo tocou a trombeta
e os dois seios da sereia
começaram a jorrar água
com estrondo e num dilúvio
e dois rios se formaram
da água de cada um,
e a água lavou o mundo.
E o espírito de Deus vagou naquelas águas
e foi então o princípio
e a pomba do Divino bebeu das águas bentas.
E eu botei o joelho em terra
para pedir pelos filhos de Deus.
Ai a água lava tudo,
lava o que nos mancha as almas,
lava o que nos envergonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
Dos teus seios, Janaína
se formaram estes dois rios
que a Bahia estão lavando
para tirar o que nos mancha
e também nos envergonha.
Ora, um é o S. Francisco
e o outro é o Jequitinhonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
(...)
Imagem - 00830001
Poema integrante da série Obra Poética II.
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
2 292
Carlos Frydman
Cascata
O chiado das águas
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.
Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.
O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.
Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.
Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.
O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.
Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 603
Marcus Accioly
A Terra
O Sertão
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 160
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 593
Sosigenes Costa
I [E Romãozinho foi subindo, foi subindo
(...)
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:
— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?
— Não vi não.
Nisto apareceu o amarelo empapuçado.
— Você viu Zeca?
— Que Zeca?
— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.
— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.
As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:
— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?
— Não vi não.
Nisto apareceu o amarelo empapuçado.
— Você viu Zeca?
— Que Zeca?
— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.
— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.
As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 210