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Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

V [Lagartixa taruíra

(...)
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.

A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.

A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.

A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)

A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.

Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.

A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara

e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.

Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.

Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)


In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
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Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto VI [É fama então que a multidão formosa

XXXVI

É fama então que a multidão formosa
Das damas, que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Entre as ondas com ânsia furiosa,
Nadando, o esposo pelo mar seguiam,
E nem tanta água que flutua vaga
O ardor que o peito tem, banhando apaga.

XXXVII

Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que as mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.

XXXVIII

"Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?

(...)

XLII

Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se nágua.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.148-149. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto VI" é composto de 79 estrofe
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Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto II [Não era assim nas aves fugitivas

XLIII

Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.

XLIV

Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.

(...)

XLVI

Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.

XLVII

Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
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Sousa Caldas

Sousa Caldas

Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [2

(...)

Muito tinha a dizer sobre esta obra admirável,
se não fosse a vozeria da equipagem, que me obriga
a largar mão da pena para atender a um
indivíduo, que nos põe a todos de mau humor,
e a mim em susto.

Um Tritão todo coberto
De marisco e verde limo,
Traz somente descoberto
O nariz agudo, e frio.

Pelas ventas vem soprando
Vento Leste enregelado,
E dobra, de instante a instante
Seu furor endiabrado.

Treme o mar encapelado,
O baixel torcido geme,
Mal segura o indócil leme
O mancebo debruçado.

Que há de ser de mim, meu Pires? em que língua
hei de falar a este Tritão para abrandar a sua cólera?
Português, Italiano, Latim, Francês, Inglês,
é de que eu sei alguma coisa: mas quem pode
adivinhar a língua dos Tritões? Experimentemos;
vou falar-lhe em todas elas, talvez que entenda
alguma:

Basta já, Senhor Tritão,
(Não entende.)

Per pietá, Tritone amato,
(Menos.)

Triton, I can no more,
(Tempo perdido.)

Prudence, Seigneur Triton
(Pior.)

Ó Triton, esto pacato
Corde, animo, naso e ore.

Com efeito a esta última língua fez um leve aceno;
e é indubitável que até os Tritões veneram a
antiguidade; mas ou seja perrice, ou tenção ante-
cipada, cada vez se acende mais em ira:

Eis que as bochechas engrossa;
Ai de mim, onde esconder-me!
Parece querer no abismo,
De um só sopro, soverter-me.

Boa vontade tinha de lhe pintar aqui uma tem-
pestade, não faltará ocasião: entretanto imagine
serras, montanhas, ondas, mares, Céus, abismos,
Bóreas, Austro, Leste, Oeste, e toda a caterva dos
ventos; ajunte-lhes quatro adjetivos, e três verbos
para os unir, e terá uma tempestade completa.
O pior é que não se aplaca a que me persegue:
vou de novo suplicar o Tritão na língua que pa-
rece entender... Bravo! começa a adoçar-se: aplacou-se
de todo; vai-se embora,

Depois de roncar seis vezes
Com medonho horrendo ronco,
E de sorver outras tantas,
Por ser um Tritão mui porco,
O limoso verde monco;
Escorregando,
Contradançando
Ligeiramente,
No fundo do mar
Em lisa gruta,
Foi-se abrigar.

(...)


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: CANDIDO, Antonio; CASTELLO, J. Aderaldo. Presença da literatura brasileira: história e antologia: I. das origens ao realismo. 3.ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. p.145-147

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Panteísmo

MEDITAÇÃO

O dia descobre a terra: a noite descobre os céus.
MARQUÊS DE MARICÁ.


Eu creio, amigo, que a existência inteira
É um mistério talvez; — mas n'alma sinto
De noite e dia respirando flores,
Sentindo as brisas, recordando aromas
E esses ais que ao silêncio a sombra exala
E enchem o coração de ignota pena
Como a íntima voz de um ser amigo,
Que essas tardes e brisas, esse mundo
Que na fronte do moço entorna flores,
Que harmonias embebem-lhe no seio —
Têm uma alma também que vive e sente...

A natureza bela e sempre virgem
Com suas galas gentis na fresca aurora,
Com suas mágoas na tarde escura e fria,
E essa melancolia e morbideza
Que nos eflúvios do luar ressumbra —
Não é apenas uma lira muda
Onde as mãos do poeta acordam hinos
E a alma do sonhador lembranças vibra...

Por essas fibras da natura viva,
Nessas folhas e vagas, nesses astros,
Nessa mágica luz que me deslumbra
E enche de fantasia até meus sonhos —
Palpita porventura um almo sopro,
Espírito do céu que as reanima,
E talvez lhes murmura em horas mortas
Estes sons de mistério e de saudade,
Que lá no coração repercutidos
O gênio acordam que enlanguesce e canta!

(...)

São idéias talvez... Embora riam
Homens sem alma, estéreis criaturas:
Não posso desamar as utopias,
Ouvir e amar à noite entre as palmeiras
Na varanda ao luar o som das vagas,
Beijar nos lábios uma flor que murcha,
E crer em Deus como alma animadora
Que não criou somente a natureza,
Mas que ainda a relenta em seu bafejo,
Ainda influi-lhe no sequioso seio
De amor e vida a eternal centelha !

Por isso, ó meu amigo, à meia-noite
Eu deito-me na relva umedecida,
Contemplo o azul do céu, amo as estrelas,
Respiro aromas, e o arquejante peito
Parece remoçar em tanta vida,
Parece-me alentar-se em tanta mágoa,
Tanta melancolia, e nos meus sonhos,
Filho de amor e Deus, eu amo e creio!

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Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

No Mar

Les étoiles s'allument au ciel, et la brise du soir
erre doucement parmi les fleurs: rêvez, chantez et
soupirez.
GEORGE SAND.

Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!

Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!
Sonhavas? — eu não dormia;

A minh'alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitiva!

E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!

Minha rola, ó minha flor,
Ó madressilva de amor!
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!

E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!

Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Sonhando a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!

Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!

Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Inácio José de Alvarenga Peixoto

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Oh, que sonho, oh, que sonho eu tive nesta

feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d`Açúcar levantar-se,
e no meio das ondas transformar-se
na figura do Índio mais gentil,
representando só todo o Brasil.
Pendente a tiracol de branco arminho,
côncavo dente de animal marinho
as preciosas armas lhe guardava:
era tesouro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
as hásteas de ouro, mas as penas pretas;
que o Índio valeroso, ativo e forte,
não manda seta em que não mande a morte.
Zona de penas de vistosas cores,
guarnecida de bárbaros lavores,
de folhetas e pérolas pendentes,
finos cristais, topázios transparentes,
em recamadas peles de saíras,
rubins, e diamantes e safiras,
em campo de esmeralda escurecia
a linda estrela que nos traz o dia.
No cocar... oh! que assombro, oh! que riqueza!
Vi tudo quanto pode a natureza:
no peito, em grandes letras de diamante,
o nome da Augustíssima Imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
as mãos lhe ocupa, enquanto ao doce acento
das saudosas palhetas, que afinava,
Píndaro Americano assim cantava:
"Sou vassalo, sou leal;
como tal,
fiel constante,
sirvo à glória da imperante,
sirvo à grandeza real.
Aos Elísios descerei,
fiel sempre a Portugal,
ao famoso vice-rei,
ao ilustre general,
às bandeiras que jurei.
Insultando o fado e a sorte
e a fortuna desigual,
a quem morrer sabe, a morte
nem é morte nem é mal."

In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960.
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