Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Glória de Sant'Anna
O Pescador Velho
Pescador vindo do largo
com o teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face
a tua face marcada
pelo sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar
- nesta água não tem peixe -
pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata
- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
pró lado do Zanzibar.
com o teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face
a tua face marcada
pelo sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar
- nesta água não tem peixe -
pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata
- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
pró lado do Zanzibar.
2 898
2
Fernando Pessoa
Sob olhos que não olham — os meus olhos —
Sob olhos que não olham – os meus olhos –
Passa o ribeiro, que nem sei se é
Rápido no lento passar incerto ao pé
Dos invisíveis espinhos e abrolhos
Da margem, minha estagnação sem fé.
É como um viandante que passasse
Por um muro de quinta abandonada
E, por não ter que olhá-lo, por ser nada
Para o seu interesse, o não olhasse,
Fiel somente ao nada sem a estrada.
22/11/1934
Passa o ribeiro, que nem sei se é
Rápido no lento passar incerto ao pé
Dos invisíveis espinhos e abrolhos
Da margem, minha estagnação sem fé.
É como um viandante que passasse
Por um muro de quinta abandonada
E, por não ter que olhá-lo, por ser nada
Para o seu interesse, o não olhasse,
Fiel somente ao nada sem a estrada.
22/11/1934
4 528
2
Lord Byron
Estâncias para Música
Alegria não há que o mundo dê, como a que tira.
Quando, do pensamento de antes, a paixão expira
Na triste decadência do sentir;
Não é na jovem face apenas o rubor
Que esmaia rápido, porém do pensamento a flor
Vai-se antes de que a própria juventude possa ir.
Alguns cuja alma bóia no naufrágio da ventura
Aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados;
O ímã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura
Praia que nunca atingirão os panos lacerados.
Então, frio mortal da alma, como a noite desce;
Não sente ela a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar;
toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar;
Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece.
Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada,
Na meia-noite já sem esperança de repouso:
É como na hera em torno de uma torre já arruinada,
Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso.
Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas,
Ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto;
Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas:
No ermo da vida assim seria para mim o pranto
Quando, do pensamento de antes, a paixão expira
Na triste decadência do sentir;
Não é na jovem face apenas o rubor
Que esmaia rápido, porém do pensamento a flor
Vai-se antes de que a própria juventude possa ir.
Alguns cuja alma bóia no naufrágio da ventura
Aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados;
O ímã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura
Praia que nunca atingirão os panos lacerados.
Então, frio mortal da alma, como a noite desce;
Não sente ela a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar;
toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar;
Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece.
Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada,
Na meia-noite já sem esperança de repouso:
É como na hera em torno de uma torre já arruinada,
Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso.
Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas,
Ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto;
Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas:
No ermo da vida assim seria para mim o pranto
1 762
2
Fernando Pessoa
Cai amplo o frio e eu durmo na tardança
Cai amplo o frio e eu durmo na tardança
De adormecer.
Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,
Nem desejo de os ter.
E um choro por meu ser me inunda
A imaginação.
Saudade vaga, anónima, profunda,
Náusea da indecisão.
Frio do Inverno duro, não te tira
Agasalho ou amor.
Dentro em meus ossos teu tremor delira.
Cessa, seja eu quem for!
19/01/1931
De adormecer.
Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,
Nem desejo de os ter.
E um choro por meu ser me inunda
A imaginação.
Saudade vaga, anónima, profunda,
Náusea da indecisão.
Frio do Inverno duro, não te tira
Agasalho ou amor.
Dentro em meus ossos teu tremor delira.
Cessa, seja eu quem for!
19/01/1931
4 387
2
Manuel Alegre
Canção tão simples
Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
5 182
2
Bocage
Proposição das rimas do poeta
Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.
2 529
2
Aníbal Nazaré
Tudo isto é fado
Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Eu disse que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia
Mas vou-te dizer agora
Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado
Se queres ser meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Não me fales só de amor
Fala-me também do fado
É canção que é meu castigo
Só basceu pra me perder
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer
Se eu sabia o que era o fado
Eu disse que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia
Mas vou-te dizer agora
Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado
Se queres ser meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Não me fales só de amor
Fala-me também do fado
É canção que é meu castigo
Só basceu pra me perder
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer
1 571
2
Raimundo Bento Sotero
Os Bastardos
Alta noite e eu andava descontente
Pela cidade horrivelmente feia;
Meia noite ou meia noite e meia
Um relógio bateu sinistramente.
Os meus passos rebeldes pela rua,
Assim como se fosse de animal,
Reboavam num silêncio sepulcral,
Enquanto lá no céu surgia a lua,
Que mais se parecia uma caveira
Amortalhando com a luz mortiça
Em cada escura esquina uma carniça
Que apodrecia até virar poeira.
Exalava na podre madrugada
Um bafio a cortar o meu pulmão
Do lixo revirado por um cão,
Que farejava à beira da calçada.
A cidade dormia convulsiva,
E só eu, como um verme solitário,
Ia seguindo meu itinerário
Com uma ansiedade compulsiva.
A rua parecia um cemitério,
E toda casa era uma sepultura
Onde jazia cada criatura
Amortalhada num mortal mistério;
Mas eu seguia pela rua torta,
Escutando as pancadas do meu peito
Que de tudo pulsava insatisfeito
Por entre as casas da cidade morta.
De repente, porém, um burburinho:
Era uma casa de carnal comércio,
Que me deixou mais triste que Propércio,
E eu não pude seguir o meu caminho.
Era de ser o foco, com certeza,
De toda podridão da vil cidade
Onde os homens em animalidade,
No cio, como um bicho atrás da presa,
Vinham à tentação de tais pecados
E assim como um bando de possessos,
Na fúria mais lasciva dos excessos,
Contorciam-se como invertebrados.
E cada um era um pai irresponsável
Que outro filho gerava ao desconforto,
E eu que observava tudo aquilo torto,
Achava aquilo tudo abominável.
Uma calça esquecida pelo dono
Sobre a saia da moça quase virgem
Provava todo mal que dava origem
À criança que vive no abandono.
E na fornicação de tal orgia,
Quem sabe um deles cometesse incesto
E fosse ao leito, sem nenhum protesto,
Da própria filha que desconhecia.
Cantava o galo pela noite afora;
Mas na luxúria de Sardanapalo
Não respeitavam o cantar do galo,
Nem davam conta do romper da Aurora.
E às pancadas do sino da matriz,
Lembraram-se de ir a santa missa,
E cada qual com a consciência omissa
De ter gerado mais um infeliz.
Era quase manhã e a contragosto
Um tardio que vinha à socapa,
Tentava se esconder atrás da capa;
Mas era tarde pra cobrir o rosto.
Pela cidade horrivelmente feia;
Meia noite ou meia noite e meia
Um relógio bateu sinistramente.
Os meus passos rebeldes pela rua,
Assim como se fosse de animal,
Reboavam num silêncio sepulcral,
Enquanto lá no céu surgia a lua,
Que mais se parecia uma caveira
Amortalhando com a luz mortiça
Em cada escura esquina uma carniça
Que apodrecia até virar poeira.
Exalava na podre madrugada
Um bafio a cortar o meu pulmão
Do lixo revirado por um cão,
Que farejava à beira da calçada.
A cidade dormia convulsiva,
E só eu, como um verme solitário,
Ia seguindo meu itinerário
Com uma ansiedade compulsiva.
A rua parecia um cemitério,
E toda casa era uma sepultura
Onde jazia cada criatura
Amortalhada num mortal mistério;
Mas eu seguia pela rua torta,
Escutando as pancadas do meu peito
Que de tudo pulsava insatisfeito
Por entre as casas da cidade morta.
De repente, porém, um burburinho:
Era uma casa de carnal comércio,
Que me deixou mais triste que Propércio,
E eu não pude seguir o meu caminho.
Era de ser o foco, com certeza,
De toda podridão da vil cidade
Onde os homens em animalidade,
No cio, como um bicho atrás da presa,
Vinham à tentação de tais pecados
E assim como um bando de possessos,
Na fúria mais lasciva dos excessos,
Contorciam-se como invertebrados.
E cada um era um pai irresponsável
Que outro filho gerava ao desconforto,
E eu que observava tudo aquilo torto,
Achava aquilo tudo abominável.
Uma calça esquecida pelo dono
Sobre a saia da moça quase virgem
Provava todo mal que dava origem
À criança que vive no abandono.
E na fornicação de tal orgia,
Quem sabe um deles cometesse incesto
E fosse ao leito, sem nenhum protesto,
Da própria filha que desconhecia.
Cantava o galo pela noite afora;
Mas na luxúria de Sardanapalo
Não respeitavam o cantar do galo,
Nem davam conta do romper da Aurora.
E às pancadas do sino da matriz,
Lembraram-se de ir a santa missa,
E cada qual com a consciência omissa
De ter gerado mais um infeliz.
Era quase manhã e a contragosto
Um tardio que vinha à socapa,
Tentava se esconder atrás da capa;
Mas era tarde pra cobrir o rosto.
1 212
2
Manuel Alegre
Lisboa perto e longe
Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa -- branca e rota
a blusa de seu povo -- essa gaivota.
Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.
Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas -- povo armado
de vento revoltado violas astros
-- meu povo que ninguém verá de rastos.
Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros -- mar aberto
-- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.
Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.
Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.
Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa -- branca e rota
a blusa de seu povo -- essa gaivota.
Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.
Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas -- povo armado
de vento revoltado violas astros
-- meu povo que ninguém verá de rastos.
Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros -- mar aberto
-- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.
Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.
Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.
Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.
3 358
2
Augusto Massi
RONDÓ DA CONSOLAÇÃO
Nossa Senhora da Consolação
Protegei-nos em nossa peregrinação
Ao cruzar tua estéril e única praça,
Teus hotéis baratos, cartórios às traças
E, no Mackenzie, o graffito da mijada.
Consolai
Estendei-nos suas mãos de asfalto
E o refrão que nos toma de assalto
Mal partimos de tua morada.
Consolai
Dissipai minha solidão de pária,
Na tua ampla quadra mortuária,
Bombeiros chamuscados de mistério,
E o vasto paredão do cemitério.
Nossa Senhora da Consolação,
Consolai
Das tarefas fatigantes da errância,
Procuro novas capelas tão em voga,
A santa prostituição de Dona Olga,
Consolai
Olhai, Nossa Senhora das variedades,
Pelo Sujinho, a melhor bisteca da cidade,
Pela longa lista de lojas de lustres,
Pelo Riviera dos anônimos ilustres,
Pelas seis salas do Belas Artes,
Consolai
Vago na multidão que te envenena,
Infortúnios que a miséria encena.
Em qualquer trecho desta rua,
Consolai
Nossa Senhora da Consolação,
Aforismo trágico da contradição,
Bizarra colisão entre vida e arte,
Ruga enraizada no rosto da cidade,
Nosso último verso moderno,
Consolai
Protegei-nos em nossa peregrinação
Ao cruzar tua estéril e única praça,
Teus hotéis baratos, cartórios às traças
E, no Mackenzie, o graffito da mijada.
Consolai
Estendei-nos suas mãos de asfalto
E o refrão que nos toma de assalto
Mal partimos de tua morada.
Consolai
Dissipai minha solidão de pária,
Na tua ampla quadra mortuária,
Bombeiros chamuscados de mistério,
E o vasto paredão do cemitério.
Nossa Senhora da Consolação,
Consolai
Das tarefas fatigantes da errância,
Procuro novas capelas tão em voga,
A santa prostituição de Dona Olga,
Consolai
Olhai, Nossa Senhora das variedades,
Pelo Sujinho, a melhor bisteca da cidade,
Pela longa lista de lojas de lustres,
Pelo Riviera dos anônimos ilustres,
Pelas seis salas do Belas Artes,
Consolai
Vago na multidão que te envenena,
Infortúnios que a miséria encena.
Em qualquer trecho desta rua,
Consolai
Nossa Senhora da Consolação,
Aforismo trágico da contradição,
Bizarra colisão entre vida e arte,
Ruga enraizada no rosto da cidade,
Nosso último verso moderno,
Consolai
1 090
2
Raimundo Bento Sotero
Meu Signo
Quatorze dias por andar janeiro,
Ano da graça de cinqüenta e sete,
Vim ao mundo levando um bofete
Para chorar o meu pesar primeiro.
Segue meus passos signo agoureiro,
E a ventura, vilíssima vedete,
Armada de punhal e de gilete,
Quer me matar pois não me quer herdeiro.
Quando nasci, o céu anuviou-se,
Um cipreste nasceu, ua flor murchou-se;
O sino da matriz dobrou sem fim.
Pálida a lua despencou, minguante,
E a maré, no refluxo da vazante,
Buscou os mares pra fugir de mim.
Ano da graça de cinqüenta e sete,
Vim ao mundo levando um bofete
Para chorar o meu pesar primeiro.
Segue meus passos signo agoureiro,
E a ventura, vilíssima vedete,
Armada de punhal e de gilete,
Quer me matar pois não me quer herdeiro.
Quando nasci, o céu anuviou-se,
Um cipreste nasceu, ua flor murchou-se;
O sino da matriz dobrou sem fim.
Pálida a lua despencou, minguante,
E a maré, no refluxo da vazante,
Buscou os mares pra fugir de mim.
967
2
Fernando Pessoa
PRESSÁGIO
PRESSÁGIO
Vinham, louras, de preto
Ondeando até mim
Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.
Nos olhos toucas tinham
Reflexos de um jardim
Que não o por onde vinham
Na véspera do fim.
Mas passam... Nunca me viram
E eu quanto sonhei afim
A essas que se partiram
Na véspera do fim.
10/04/1927
Vinham, louras, de preto
Ondeando até mim
Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.
Nos olhos toucas tinham
Reflexos de um jardim
Que não o por onde vinham
Na véspera do fim.
Mas passam... Nunca me viram
E eu quanto sonhei afim
A essas que se partiram
Na véspera do fim.
10/04/1927
6 730
2
Fernando Pessoa
DOBRADA À MODA DO PORTO
DOBRADA À MODA DO PORTO
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
3 176
2
Fernando Pessoa
O ANDAIME
O ANDAIME
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.
A sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha sp'rança
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam – verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças –
Mortas, porque hão-de morrer.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim –
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
(Presença, nº 31-32, Junho de 1931)
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.
A sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha sp'rança
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam – verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças –
Mortas, porque hão-de morrer.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim –
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
(Presença, nº 31-32, Junho de 1931)
4 999
2
Fernando Pessoa
Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.
Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.
Melhor entre onde os ramos
Tecem dosséis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.
10/10/1933
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.
Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.
Melhor entre onde os ramos
Tecem dosséis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.
10/10/1933
6 020
2
Fernando Pessoa
QUALQUER MÚSICA
QUALQUER MÚSICA
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
Qualquer música – guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra
Um sonho em que nada vejo...
Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!
(Presença, nº 10, Março de 1928)
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
Qualquer música – guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra
Um sonho em que nada vejo...
Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!
(Presença, nº 10, Março de 1928)
7 084
2
Fernando Pessoa
EU
Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.
Depois, malograda trajectória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.
Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre
Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.
24/09/1923
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.
Depois, malograda trajectória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.
Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre
Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.
24/09/1923
5 813
2
Fernando Pessoa
Cessa o teu canto!
Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Como que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós.
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas a cantar.
E a melodia
Que não havia,
Se agora a lembro,
Faz-me chorar.
Foi tua voz
Encantamento
Que, sem querer,
Nesse momento,
Vago acordou
Um ser qualquer
Alheio a nós
Que nos falou?
Não sei. Não cantes!
Deixa-me ouvir
Qual o silêncio
Que há a seguir
A tu cantares!
Ah, nada, nada!
Só os pesares
De ter ouvido,
De ter querido
Ouvir para além
Do que é o sentido
Que uma voz tem.
Que anjo, ao ergueres
A tua voz,
Sem o saberes
Veio baixar
Sobre esta terra
Onde a alma erra
E com as asas
Soprou as brasas
De ignoto lar?
Não cantes mais!
Quero o silêncio
Para dormir
Qualquer memória
Da voz ouvida,
Desentendida,
Que foi perdida
Por eu a ouvir...
09/05/1934
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Como que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós.
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas a cantar.
E a melodia
Que não havia,
Se agora a lembro,
Faz-me chorar.
Foi tua voz
Encantamento
Que, sem querer,
Nesse momento,
Vago acordou
Um ser qualquer
Alheio a nós
Que nos falou?
Não sei. Não cantes!
Deixa-me ouvir
Qual o silêncio
Que há a seguir
A tu cantares!
Ah, nada, nada!
Só os pesares
De ter ouvido,
De ter querido
Ouvir para além
Do que é o sentido
Que uma voz tem.
Que anjo, ao ergueres
A tua voz,
Sem o saberes
Veio baixar
Sobre esta terra
Onde a alma erra
E com as asas
Soprou as brasas
De ignoto lar?
Não cantes mais!
Quero o silêncio
Para dormir
Qualquer memória
Da voz ouvida,
Desentendida,
Que foi perdida
Por eu a ouvir...
09/05/1934
4 493
2
Fernando Pessoa
Ah quanta melancolia!
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada –
Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego –
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
03/09/1924
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada –
Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego –
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
03/09/1924
5 397
2
Fernando Pessoa
No limiar que não é meu
No limiar que não é meu
Sento-me e deixo o irreflectido olhar
Encher-se, sem eu ver, de campo e céu.
Se é tarde ou cedo, deixo de notar.
Nada me diz de si qualquer coisa que eu
Possa gozar.
Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, estranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
Na inútil hora
Eu, mais inútil que ela, sem sentir
Fito com um olhar que já nem chora
A Dor ou desdém, dolo ou infiel sorrir,
O absurdo céu onde nenhuma coisa mora
Para eu fruir.
Apenas, vaga
Não uma esp'rança, mas uma saudade
Do tempo em que a esperança, como vaga,
Dava na praia da minha ansiedade,
Me toma e um surdo marulhar meu ser alaga
De vacuidade.
Mas acordo e com vão
Olhar ainda, mas já diferente,
Por estar ausente dele o coração,
E eu outra vez, nem mesmo descontente,
Fito o céu calmo, o campo, a alegre solidão
Inconsciente.
Nada, só o dia –
Se é tarde ou cedo continuo a errar –,
Alheio a mim, a tudo dá a alegria
De não ter coração com que agitar
O corpo. E, quando vier a noite, tudo esfria
Mas sem chorar.
Isto e eu comigo
Posto no eterno aquém das coisas calmas
Que a vida externa mostra ao céu amigo –
Campos ao sol, vivas flores almas.
Isto só e não ter o coração abrigo
Nem sol as almas.
16/02/1920
Sento-me e deixo o irreflectido olhar
Encher-se, sem eu ver, de campo e céu.
Se é tarde ou cedo, deixo de notar.
Nada me diz de si qualquer coisa que eu
Possa gozar.
Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, estranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
Na inútil hora
Eu, mais inútil que ela, sem sentir
Fito com um olhar que já nem chora
A Dor ou desdém, dolo ou infiel sorrir,
O absurdo céu onde nenhuma coisa mora
Para eu fruir.
Apenas, vaga
Não uma esp'rança, mas uma saudade
Do tempo em que a esperança, como vaga,
Dava na praia da minha ansiedade,
Me toma e um surdo marulhar meu ser alaga
De vacuidade.
Mas acordo e com vão
Olhar ainda, mas já diferente,
Por estar ausente dele o coração,
E eu outra vez, nem mesmo descontente,
Fito o céu calmo, o campo, a alegre solidão
Inconsciente.
Nada, só o dia –
Se é tarde ou cedo continuo a errar –,
Alheio a mim, a tudo dá a alegria
De não ter coração com que agitar
O corpo. E, quando vier a noite, tudo esfria
Mas sem chorar.
Isto e eu comigo
Posto no eterno aquém das coisas calmas
Que a vida externa mostra ao céu amigo –
Campos ao sol, vivas flores almas.
Isto só e não ter o coração abrigo
Nem sol as almas.
16/02/1920
4 524
2
Fernando Pessoa
Cansa sentir quando se pensa.
Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.
Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei-de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.
Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.
(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo –
Ah, nada é isto, nada é assim!)
09/11/1932
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.
Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei-de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.
Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.
(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo –
Ah, nada é isto, nada é assim!)
09/11/1932
5 069
2
Fernando Pessoa
Bóiam leves, desatentos,
Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
04/08/1930
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
04/08/1930
5 029
2
Fernando Pessoa
Como quem, roçando um arco às vezes
Como quem, roçando um arco às vezes
Por um violino, ao acaso,
Súbito som excessivamente belo e saudoso
Ouve-se, e não se pode encontrar outra vez,
Às vezes, sou certos gestos súbitos do Momento,
Gemo inspiradas sensações...
E são um tédio repentino à cor e à hora das coisas
E uma lamúria e longínqua paixão de não estar no mundo.
Árvores longínquas que esperam por mim desde Deus...
Paisagens mais perto da alma... Ou são grande pálios
Em procissões interminavelmente a mesma...
Levando-me num triunfo de coisa nenhuma, sonolento e voluptuoso,
E perdido fico no Tempo como um momento em que se não pensa em nada...
20/11/1914
Por um violino, ao acaso,
Súbito som excessivamente belo e saudoso
Ouve-se, e não se pode encontrar outra vez,
Às vezes, sou certos gestos súbitos do Momento,
Gemo inspiradas sensações...
E são um tédio repentino à cor e à hora das coisas
E uma lamúria e longínqua paixão de não estar no mundo.
Árvores longínquas que esperam por mim desde Deus...
Paisagens mais perto da alma... Ou são grande pálios
Em procissões interminavelmente a mesma...
Levando-me num triunfo de coisa nenhuma, sonolento e voluptuoso,
E perdido fico no Tempo como um momento em que se não pensa em nada...
20/11/1914
3 343
2
Fernando Pessoa
Aqui onde se espera
Aqui onde se espera
– Sossego, só sossego –
Isso que outrora era,
Aqui onde, dormindo,
– Sossego, só sossego –
Se sente a noite vindo,
E nada importaria
– Sossego, só sossego –
Que fosse antes o dia,
Aqui, aqui estarei
– Sossego, só sossego –
Como no exílio um rei,
Gozando da ventura
– Sossego, só sossego –
De não ter a amargura
De reinar, mas guardando
– Sossego, só sossego –
O nome venerando...
Que mais quer quem descansa
– Sossego, só sossego –
Da dor e da esperança,
Que ter a negação
– Sossego, só sossego –
De todo o coração?
31/08/1933
– Sossego, só sossego –
Isso que outrora era,
Aqui onde, dormindo,
– Sossego, só sossego –
Se sente a noite vindo,
E nada importaria
– Sossego, só sossego –
Que fosse antes o dia,
Aqui, aqui estarei
– Sossego, só sossego –
Como no exílio um rei,
Gozando da ventura
– Sossego, só sossego –
De não ter a amargura
De reinar, mas guardando
– Sossego, só sossego –
O nome venerando...
Que mais quer quem descansa
– Sossego, só sossego –
Da dor e da esperança,
Que ter a negação
– Sossego, só sossego –
De todo o coração?
31/08/1933
5 127
2