Poemas neste tema
Juventude
Lêdo Ivo
Acontecimento do Soneto
À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros
versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.
Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,
irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros
versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.
Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,
irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.
1 328
Flávio Villa-Lobos
Sobressalto
Há de acontecer repentinamente
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
912
Cláudio Martins
O Tempo Passa
"O tempo passa, a gente vai mudando
Sonhos e esperanças vão morrendo...
deve ser triste envelhecer temendo
o abismo que a idade vai cavando.
É preciso evitar que vãos tormentos,
quase sempre irreais ou superados,
por mera ansiedade exagerados,
transmudem nossas vidas em desalentos.
A Vida é uma jornada, simplesmente
defrontá-la, altaneira e firmemente,
é prova de vivência e de saber
E mesmo fosse triste envelhecer,
jovem sempre será o que, prudente,
não quer mais do que tem, ou pode ter.
Sonhos e esperanças vão morrendo...
deve ser triste envelhecer temendo
o abismo que a idade vai cavando.
É preciso evitar que vãos tormentos,
quase sempre irreais ou superados,
por mera ansiedade exagerados,
transmudem nossas vidas em desalentos.
A Vida é uma jornada, simplesmente
defrontá-la, altaneira e firmemente,
é prova de vivência e de saber
E mesmo fosse triste envelhecer,
jovem sempre será o que, prudente,
não quer mais do que tem, ou pode ter.
930
Dílson Catarino
Sombra Calada
Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
799
Castro Alves
Improviso
(À MOCIDADE ACADÊMICA)
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
3 546
Castro Alves
Estrofes do Solitário
Basta de covardia! A hora soa...
Voz ignota e fatídica revoa,
Que vem... Donde? De Deus.
A nova geração rompe da terra,
E, qual Minerva armada para a guerra,
Pega a espada... olha os céus.
Sim, de longe, das raias do futuro,
Parte um grito, pra — os homens surdo, obscuro
Mas para - os moços, não!
É que, em meio das lutas da cidade,
Não ouvis o clarim da Eternidade,
Que troa namplidão!
Quando as praias se ocultam na neblina,
E como a garça, abrindo a asa latina,
Corre a barca no mar,
Se então sem freios se despenha o norte,
É impossível — parar... volver — é morte
Só lhe resta marchar.
E o povo é como - a barca em plenas vagas,
A tirania - é o tremedal das plagas,
O porvir - a amplidão.
Homens! Esta lufada que rebenta
É o furor da mais lôbrega tormenta. .
- Ruge a revolução.
E vós cruzais os braços... Covardia!
E murmurais com fera hipocrisia:
— É preciso esperar...
Esperar? Mas o quê? Que a populaça,
Este vento que os tronos despedaça,
Venha abismos cavar?
Ou quereis, como o sátrapa arrogante,
Que o porvir, nante-sala, espere o instante
Em que o deixeis subir?!
Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,
O oceano, o condor, os elementos...
Porém nunca o porvir!
Meu Deus! Da negra lenda que se inscreve
Coo sangue de um Luís, no chão da Grève,
Não resta mais um som!...
Em vão nos deste, pra maior lembrança,
Do mundo - a Europa, mas dEuropa - a França.
Mas da França - um Bourbon!
Desvario das frontes coroadas!
Na página das púrpuras rasgadas
Ninguém mais estudou!
E no sulco do tempo, embalde dorme
A cabeça dos reis - semente enorme
Que a multidão plantou! ...
No entanto fora belo nesta idade
Desfraldar o estandarte da igualdade,
De Byron ser o irmão...
E pródigo - a esta Grécia brasileira,
Legar no testamento - uma bandeira,
E ao mundo - uma nação.
Soltar ao vento a inspiração de Graco
Envolver-se no manto de Spartaco,
Dos servos entre a grei;
Lincoln - o Lázaro acordar de novo,
E da tumba da ignomínia erguer um povo,
Fazer de um verme - um rei!
Depois morrer - que a vida está completa,
- Rei ou tribuno, César ou poeta,
Que mais quereis depois?
Basta escutar, do fundo lá da cova,
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós ...
Voz ignota e fatídica revoa,
Que vem... Donde? De Deus.
A nova geração rompe da terra,
E, qual Minerva armada para a guerra,
Pega a espada... olha os céus.
Sim, de longe, das raias do futuro,
Parte um grito, pra — os homens surdo, obscuro
Mas para - os moços, não!
É que, em meio das lutas da cidade,
Não ouvis o clarim da Eternidade,
Que troa namplidão!
Quando as praias se ocultam na neblina,
E como a garça, abrindo a asa latina,
Corre a barca no mar,
Se então sem freios se despenha o norte,
É impossível — parar... volver — é morte
Só lhe resta marchar.
E o povo é como - a barca em plenas vagas,
A tirania - é o tremedal das plagas,
O porvir - a amplidão.
Homens! Esta lufada que rebenta
É o furor da mais lôbrega tormenta. .
- Ruge a revolução.
E vós cruzais os braços... Covardia!
E murmurais com fera hipocrisia:
— É preciso esperar...
Esperar? Mas o quê? Que a populaça,
Este vento que os tronos despedaça,
Venha abismos cavar?
Ou quereis, como o sátrapa arrogante,
Que o porvir, nante-sala, espere o instante
Em que o deixeis subir?!
Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,
O oceano, o condor, os elementos...
Porém nunca o porvir!
Meu Deus! Da negra lenda que se inscreve
Coo sangue de um Luís, no chão da Grève,
Não resta mais um som!...
Em vão nos deste, pra maior lembrança,
Do mundo - a Europa, mas dEuropa - a França.
Mas da França - um Bourbon!
Desvario das frontes coroadas!
Na página das púrpuras rasgadas
Ninguém mais estudou!
E no sulco do tempo, embalde dorme
A cabeça dos reis - semente enorme
Que a multidão plantou! ...
No entanto fora belo nesta idade
Desfraldar o estandarte da igualdade,
De Byron ser o irmão...
E pródigo - a esta Grécia brasileira,
Legar no testamento - uma bandeira,
E ao mundo - uma nação.
Soltar ao vento a inspiração de Graco
Envolver-se no manto de Spartaco,
Dos servos entre a grei;
Lincoln - o Lázaro acordar de novo,
E da tumba da ignomínia erguer um povo,
Fazer de um verme - um rei!
Depois morrer - que a vida está completa,
- Rei ou tribuno, César ou poeta,
Que mais quereis depois?
Basta escutar, do fundo lá da cova,
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós ...
1 986
Castro Alves
O Século
Soldados, do, alto daquelas pirâmides
quarenta séculos vos contemplam!
Napoleão
o século é grande e forte.
V. Hugo
Da mortalha de seus bravos
Fez bandeira a tirania
Oh! armas talvez o povo
Deseus ossos faça um dia
J. Bonifácio
O séc’lo é grande... No espaço
Há um drama de treva e luz.
Como o Cristo — a liberdade
Sangra no poste da Cruz.
Um corvo escuro, anegrado,
Obumbra o manto azulado,
Das asas dáguia dos céus...
Arquejam peitos e frontes...
Nos lábios dos horizontes
Há um riso de luz... É Deus.
Às vezes quebra o silêncio
Ronco estrídulo, feroz.
Será o rugir das matas,
Ou da plebe a imensa voz?...
Treme a terra hirta e sombria. . .
São as vascas da agonia
Da liberdade no chão?...
Ou do povo o braço ousado
Que, sob montes calcado,
Abala-os como um Titão?! ...
Ante esse escuro problema
Há muito irônico rir.
Pra nós o vento da esprança
Traz o pólen do porvir.
E enquanto o cepticismo
Mergulha os olhos no abismo,
Que a seus pés raivando tem,
Rasga o moço os nevoeiros,
Pra dos morros altaneiros
Ver o sol que irrompe além.
Toda noite — tem auroras,
Raios — toda a escuridão.
Moços, creiamos, não tarda
A aurora da redenção.
Gemer — é esperar um canto...
Chorar - aguardar que o pranto
Faça-se estrela nos céus.
O mundo é o nauta nas vagas...
Terá do oceano as plagas
Se existem justiça e Deus.
No entanto inda há muita noite
No mapa da criação.
Sangra o abutre — tirano
Muito cadáver — nação.
Desce a Polônia esvaída,
Cataléptica, adormida,
À tumba do Sobieski;
Inda em sonhos busca a espada ...
Os reis passam sem ver nada ...
E o Czar olha e sorri...
Roma inda tem sobre o peito
O pesadelo dos reis!
A Grécia espera chorando
Canaris... Byron talvez!
Napoleão amordaça
A boca da populaça
E olha Jersey com terror;
Como o filho de Sorrento,
Treme ao fitar um momento
O Vesúvio aterrador.
A Hungria é como um cadáver
Ao relento exposto nu;
Nem sequer a abriga a sombra
Do foragido Kossuth.
Aqui — o México ardente,
— Vasto filho independente
Da liberdade e do sol —
Jaz por terra... e lá soluça
Juarez, que se debruça
E diz-lhe: "Espera o arrebol!"
O quadro é negro. Que os fracos
Recuem cheios de horror.
A nós, herdeiros dos Gracos,
Traz a desgraça — valor!
Lutai... Há uma lei sublime
Que diz: "À sombra do crime
Há de a vingança marchar."
Não ouvis do Norte um grito,
Que bate aos pés do infinito,
Que vai Franklin despertar?
É o grito dos Cruzados
Que brada aos moços — "De pé"!
É o sol das liberdades
Que espera por Josué! ...
São bocas de mil escravos
Que transformaram-se em bravos
Ao cinzel da abolição.
E — à voz dos libertadores —
Reptis saltam condores,
A topetar namplidão!...
E vós, arcas do futuro,
Crisálidas do porvir,
Quando vosso braço ousado
Legislações construir,
Levantai um templo novo,
Porém não que esmague o povo,
Mas lhe seja o pedestal.
Que ao menino dê-se a escola,
Ao veterano — uma esmola...
A todos — luz e fanal!
Luz!... sim; que a criança é uma ave,
Cujo porvir tendes vós;
No sol — é uma águia arrojada,
Na sombra — um mocho feroz.
Libertai tribunas, prelos ...
São fracos, mesquinhos elos...
Não calqueis o povo-rei!
Que este mar dalmas e peitos,
Com as vagas de seus direitos,
Virá partir-vos a lei.
Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele — uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus,
Que aos gritos do Niagara
— Sem escravos, — Guanabara
Se eleve ao fulgor dos sóis!
Banhem-se em luz os prostíbulos,
E das lascas dos patíbulos
Erga-se a estátua aos heróis!
Basta!... Eu sei que a mocidade
É o Moisés no Sinai;
Das mãos do Eterno recebe
As tábuas da lei! — Marchai!
Quem cai na luta com glória,
Tomba nos braços da História,
No coração do Brasil!
Moços, do topo dos Andes,
Pirâmides vastas, grandes,
Vos contemplam séclos mil!
quarenta séculos vos contemplam!
Napoleão
o século é grande e forte.
V. Hugo
Da mortalha de seus bravos
Fez bandeira a tirania
Oh! armas talvez o povo
Deseus ossos faça um dia
J. Bonifácio
O séc’lo é grande... No espaço
Há um drama de treva e luz.
Como o Cristo — a liberdade
Sangra no poste da Cruz.
Um corvo escuro, anegrado,
Obumbra o manto azulado,
Das asas dáguia dos céus...
Arquejam peitos e frontes...
Nos lábios dos horizontes
Há um riso de luz... É Deus.
Às vezes quebra o silêncio
Ronco estrídulo, feroz.
Será o rugir das matas,
Ou da plebe a imensa voz?...
Treme a terra hirta e sombria. . .
São as vascas da agonia
Da liberdade no chão?...
Ou do povo o braço ousado
Que, sob montes calcado,
Abala-os como um Titão?! ...
Ante esse escuro problema
Há muito irônico rir.
Pra nós o vento da esprança
Traz o pólen do porvir.
E enquanto o cepticismo
Mergulha os olhos no abismo,
Que a seus pés raivando tem,
Rasga o moço os nevoeiros,
Pra dos morros altaneiros
Ver o sol que irrompe além.
Toda noite — tem auroras,
Raios — toda a escuridão.
Moços, creiamos, não tarda
A aurora da redenção.
Gemer — é esperar um canto...
Chorar - aguardar que o pranto
Faça-se estrela nos céus.
O mundo é o nauta nas vagas...
Terá do oceano as plagas
Se existem justiça e Deus.
No entanto inda há muita noite
No mapa da criação.
Sangra o abutre — tirano
Muito cadáver — nação.
Desce a Polônia esvaída,
Cataléptica, adormida,
À tumba do Sobieski;
Inda em sonhos busca a espada ...
Os reis passam sem ver nada ...
E o Czar olha e sorri...
Roma inda tem sobre o peito
O pesadelo dos reis!
A Grécia espera chorando
Canaris... Byron talvez!
Napoleão amordaça
A boca da populaça
E olha Jersey com terror;
Como o filho de Sorrento,
Treme ao fitar um momento
O Vesúvio aterrador.
A Hungria é como um cadáver
Ao relento exposto nu;
Nem sequer a abriga a sombra
Do foragido Kossuth.
Aqui — o México ardente,
— Vasto filho independente
Da liberdade e do sol —
Jaz por terra... e lá soluça
Juarez, que se debruça
E diz-lhe: "Espera o arrebol!"
O quadro é negro. Que os fracos
Recuem cheios de horror.
A nós, herdeiros dos Gracos,
Traz a desgraça — valor!
Lutai... Há uma lei sublime
Que diz: "À sombra do crime
Há de a vingança marchar."
Não ouvis do Norte um grito,
Que bate aos pés do infinito,
Que vai Franklin despertar?
É o grito dos Cruzados
Que brada aos moços — "De pé"!
É o sol das liberdades
Que espera por Josué! ...
São bocas de mil escravos
Que transformaram-se em bravos
Ao cinzel da abolição.
E — à voz dos libertadores —
Reptis saltam condores,
A topetar namplidão!...
E vós, arcas do futuro,
Crisálidas do porvir,
Quando vosso braço ousado
Legislações construir,
Levantai um templo novo,
Porém não que esmague o povo,
Mas lhe seja o pedestal.
Que ao menino dê-se a escola,
Ao veterano — uma esmola...
A todos — luz e fanal!
Luz!... sim; que a criança é uma ave,
Cujo porvir tendes vós;
No sol — é uma águia arrojada,
Na sombra — um mocho feroz.
Libertai tribunas, prelos ...
São fracos, mesquinhos elos...
Não calqueis o povo-rei!
Que este mar dalmas e peitos,
Com as vagas de seus direitos,
Virá partir-vos a lei.
Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele — uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus,
Que aos gritos do Niagara
— Sem escravos, — Guanabara
Se eleve ao fulgor dos sóis!
Banhem-se em luz os prostíbulos,
E das lascas dos patíbulos
Erga-se a estátua aos heróis!
Basta!... Eu sei que a mocidade
É o Moisés no Sinai;
Das mãos do Eterno recebe
As tábuas da lei! — Marchai!
Quem cai na luta com glória,
Tomba nos braços da História,
No coração do Brasil!
Moços, do topo dos Andes,
Pirâmides vastas, grandes,
Vos contemplam séclos mil!
1 880
José Maria de Barros Pinho
O Retrato nas Paredes
As casas como as pessoas
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
São Luis / junho 1997
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
São Luis / junho 1997
1 143
Bráulio de Abreu
Pássaros
O espaço era cheio de asas
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
1 017
Castro Alves
Menina e Moça
(Versos para o &bum de D. MAxiA
JOAQUINA DA SILVA Freire.)
MENINA e Moça! Há no volver das horas
Esta idade ideal e feiticeira;
É quando a estrela expira e rompe a aurora
Um prelúdio nos leques da palmeira.
Menina e Moça! Há no viver das flores
Este instante feliz... É quando a rosa,
Ao relento das noites perfumadas,
Abre o cálix, risonha e curiosa.
Menina e Moça! HÁ no passar dos anos
Esta estação de amor... quando nas veigas
Fazem-se em flor as folhas sussurrantes,
Beijam-se as pombas, arrulando meigas.
Menina e Moça! Há no sonhar da música
Som que esta idade festival exprime...
Quando a voz do piano espalha aos ermos
Os suspiros saudosas de Bellini.
Menina e Moça! Se a poesia esquece
Agora o tipo da criança bela,
Quem não te adora a límpida inocência,
O filha de Sorrento! Ó Graziela!
Menina e Moça I Castidade e pejo!
Crença, frescura, divinal anseio!
Por quem tu cismas? — Se pergunta à fronte.
Por quem palpitas? — Se pergunta ao seio.
Menina e Moça! É tão festivo o riso!
Chama dourada sobre os olhos brilha!
Como estalam os beijos das amigas
A donzela tem asas... de escumilha!
Menina e Moça! Como é doudo o baile!
Como são várias da existência as cenas!
Ama-se o canto — Se elas são as aves...
Ama-se a valsa. — Se elas são falenas ...
Menina e Moça! Adormecida garça
Que o ma,- na riba do ideal balouça...
O bardo canta na tormenta ao longe...
Sonha o teu sonho de - menina e moça!...
JOAQUINA DA SILVA Freire.)
MENINA e Moça! Há no volver das horas
Esta idade ideal e feiticeira;
É quando a estrela expira e rompe a aurora
Um prelúdio nos leques da palmeira.
Menina e Moça! Há no viver das flores
Este instante feliz... É quando a rosa,
Ao relento das noites perfumadas,
Abre o cálix, risonha e curiosa.
Menina e Moça! HÁ no passar dos anos
Esta estação de amor... quando nas veigas
Fazem-se em flor as folhas sussurrantes,
Beijam-se as pombas, arrulando meigas.
Menina e Moça! Há no sonhar da música
Som que esta idade festival exprime...
Quando a voz do piano espalha aos ermos
Os suspiros saudosas de Bellini.
Menina e Moça! Se a poesia esquece
Agora o tipo da criança bela,
Quem não te adora a límpida inocência,
O filha de Sorrento! Ó Graziela!
Menina e Moça I Castidade e pejo!
Crença, frescura, divinal anseio!
Por quem tu cismas? — Se pergunta à fronte.
Por quem palpitas? — Se pergunta ao seio.
Menina e Moça! É tão festivo o riso!
Chama dourada sobre os olhos brilha!
Como estalam os beijos das amigas
A donzela tem asas... de escumilha!
Menina e Moça! Como é doudo o baile!
Como são várias da existência as cenas!
Ama-se o canto — Se elas são as aves...
Ama-se a valsa. — Se elas são falenas ...
Menina e Moça! Adormecida garça
Que o ma,- na riba do ideal balouça...
O bardo canta na tormenta ao longe...
Sonha o teu sonho de - menina e moça!...
3 907
Bráulio de Abreu
Maria
Eu vivo procurando, na cidade,
A casa onde Maria está morando.
Ela veio, eu fiquei, mas a saudade
Me faz andar por ela perguntando.
É loucura, talvez, da mocidade,
Por ela andar perdido como eu ando.
Porém, minha maior felicidade
É encontrá-la, e eu não sei como nem quando.
Intensificarei minha procura,
Pois, se eu perder Maria, a desventura
Virá morar comigo noite e dia.
Vou publicar este soneto agora...
Se alguém o ler, sabendo onde ela mora,
Mande dizer-me onde encontrou Maria.
A casa onde Maria está morando.
Ela veio, eu fiquei, mas a saudade
Me faz andar por ela perguntando.
É loucura, talvez, da mocidade,
Por ela andar perdido como eu ando.
Porém, minha maior felicidade
É encontrá-la, e eu não sei como nem quando.
Intensificarei minha procura,
Pois, se eu perder Maria, a desventura
Virá morar comigo noite e dia.
Vou publicar este soneto agora...
Se alguém o ler, sabendo onde ela mora,
Mande dizer-me onde encontrou Maria.
957
Marcelo Batalha
Naquela Noite
Pareces mais alta do que és
Mais pela alteza que pela altura.
Naquele noite contemplei no teu sorriso
Todo o meu amor arraigado ;
Tentei registrá-lo em vão.
Tu não mereces a foto que tirei...
Me dirigiste poucas palavras, mas
Teus cabelos molhados falaram bastante.
A clara morenice brilhou dentre tantas,
A voz grave fez solo entre os artistas,
O jeito arredio levou a ribalta para o cantinho da sala.
Haja folego ! Juventude madura,
Olhos de diamante, plácida beleza,
Meu mundo está a teus pés !
Mais pela alteza que pela altura.
Naquele noite contemplei no teu sorriso
Todo o meu amor arraigado ;
Tentei registrá-lo em vão.
Tu não mereces a foto que tirei...
Me dirigiste poucas palavras, mas
Teus cabelos molhados falaram bastante.
A clara morenice brilhou dentre tantas,
A voz grave fez solo entre os artistas,
O jeito arredio levou a ribalta para o cantinho da sala.
Haja folego ! Juventude madura,
Olhos de diamante, plácida beleza,
Meu mundo está a teus pés !
802
Bernardo Guimarães
Hino à Tarde
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
1 833
Marcial
IV, 7 - A HILO
Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
1 129
Joachim Du Bellay
JUDO QUANTO RODEIA A NATUREZA
Tudo quanto rodeia a Natureza,
Quanto mais cedo nasce, menos dura;
Da primavera o manto de verdura
Em breve perde a flórida beleza.
No calor, do trovão são fácil presa
Os frutos que receiam a friúra;
E contra o inverno têm pele mais dura
Os tardos, que do outono são riqueza.
As florinhas de tua mocidade
Breve serão colhidas sem piedade,
Não a virtude, o espírito, a razão.
A esses frutos, em ti tão promissores,
Não dá outono nem verão temores,
Nem o rigor da gélida sazão.
Quanto mais cedo nasce, menos dura;
Da primavera o manto de verdura
Em breve perde a flórida beleza.
No calor, do trovão são fácil presa
Os frutos que receiam a friúra;
E contra o inverno têm pele mais dura
Os tardos, que do outono são riqueza.
As florinhas de tua mocidade
Breve serão colhidas sem piedade,
Não a virtude, o espírito, a razão.
A esses frutos, em ti tão promissores,
Não dá outono nem verão temores,
Nem o rigor da gélida sazão.
1 020
Miguel Anxo Fernán-Vello
Visión dun corpo na praia
Lábio de luz que treme na nudez
dun astro de brancura.
Movimento delgado
como perfil de auga.
Peixe de lentitude adiviñando o corpo
a sua sílaba húmida,
unha estrela que nace
flor de espuma.
Na ondulación da arxila
corpo solar
que arvorece no espello.
Liña de sede,
semente e sal,
a pel mariña,
e chama do tempo.
Este sopro ou queimazón violácea,
sulco fino da brisa,
a pulsación dos ollos
contra o sol da carne.
Está aqui escrito o exílio do desexo?
A adolescéncia é unha fenda rosada,
suave eclipse,
esbelta auséncia.
Mais agora regresa esa febre
que beixa a lua da boca,
ponto de fuga que arde
no interior dunha máxia
de saliva e de seda.
O salto docísimo dunha lágrima
que avivece insensíbel,
unha rosa de area
que brilla no recordo.
Aparición e signo, corpo
que o instante fai milagre,
espellismo do céu,
revelación dourada
que o mar
estremece no sangue.
dun astro de brancura.
Movimento delgado
como perfil de auga.
Peixe de lentitude adiviñando o corpo
a sua sílaba húmida,
unha estrela que nace
flor de espuma.
Na ondulación da arxila
corpo solar
que arvorece no espello.
Liña de sede,
semente e sal,
a pel mariña,
e chama do tempo.
Este sopro ou queimazón violácea,
sulco fino da brisa,
a pulsación dos ollos
contra o sol da carne.
Está aqui escrito o exílio do desexo?
A adolescéncia é unha fenda rosada,
suave eclipse,
esbelta auséncia.
Mais agora regresa esa febre
que beixa a lua da boca,
ponto de fuga que arde
no interior dunha máxia
de saliva e de seda.
O salto docísimo dunha lágrima
que avivece insensíbel,
unha rosa de area
que brilla no recordo.
Aparición e signo, corpo
que o instante fai milagre,
espellismo do céu,
revelación dourada
que o mar
estremece no sangue.
1 055
Natália Correia
Mocinhas gráceis
Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.
Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Soi, porém, as irreiais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.
Lá no fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.
Enleais, mas de enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
– Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas –,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.
Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.
Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transparência.
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.
Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Soi, porém, as irreiais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.
Lá no fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.
Enleais, mas de enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
– Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas –,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.
Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.
Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transparência.
2 133
Anibal Beça
Menino no banheiro
Menino no banheiro
sola um sonho só de gozo
entre a mão e o chuveiro.
sola um sonho só de gozo
entre a mão e o chuveiro.
1 154
José Honório
Eu e Juliana
No tempo em que fui menino
não tinha televisão
por isso meu passatempo
era bodoque e pião
tomar banho lá no riacho
e pegar "aduvinhão".
No entanto eu fui crescendo
e já estando um rapaz
ajudava o velho Pedro
a cuidar dos animais
e também da plantação
lá do sítio de meus pais.
E nesse tempo eu ainda
sem ter mulher conhecido
de vez em quando eu sentia
algo em mim endurecido
quando chegava na mente
um pensamento atrevido.
Porém só fui descobrir
o prazer que ele traz
ao conhecer Juliana
(era bonita demais)
era mesma uma poltranca
que não esqueço jamais.
É dela que passo agora
a descrever o roteiro
e também do nosso caso
que é todo verdadeiro
muitas vezes repetido
no nordeste brasileiro.
No jardim da mocidade
o mundo tem mais olor
os dias são mais festivos
a noite tem mais primor
a mente é cheia de sonhos
e o peito cheio de amor.
Juliana foi a tara
que eu tive na adolescência
com ela foi que vivi
a primeira experiência
numa tarde de janeiro
na solidão da querência.
Momentos inesquecíveis
com Juliana eu passei
passeando pelos campos
de fazenda onde morei
e desses nossos passeios
eu jamais esquecerei.
Mesmo ficando caduco
agindo como criança
na minha senilidade
(que se não morrer, me alcança)
eu sei que Juliana vai
estar em minha lembrança.
Ela sempre me levava
pros passeios matinais
pelos rios, pelos campos,
por dentro dos matagais
e desses dias tão bons
sinto saudade demais.
E em nossas cavalgadas
vendo aguçado o sentido
fazia versos pra ela
cantando no seu ouvido
tendo o sol por testemunha
de nosso amor proibido.
Uma vez aconselhado
pelo "nego" Nicanor
levei Juliana pro mato
por entre ânsia e pavor
comecei a lhe alisar
mesmo com certo temor.
E ela naquele instante
pareceu compreender
aquilo que eu queria
pois ficou a se mexer
ficando assim, mais arisca
aumentando o meu querer.
Pus as mãos em suas ancas
e engatei na traseira
ela ficava impassível
satisfeita, prazenteira
saciando meus instintos
na bestial brincadeira.
Depois disso muitas vezes
levei pra junto do rio
aonde tinha um barranco
e então nesse baixio
eu pegava a Juliana
quando ela estava no cio.
Foi tão grande a atração
que por ela eu sentia
que me tornei um escravo
daquela égua vadia
cada vez mais penetrando
na sua ardente enchovia.
Nem o canto das sereias
que dizem ser sedutor
me faria desprezar
o prazer e o calor
que Juliana me dava
quando lhe fazia amor.
Foram dezenas de vezes
de conjugação carnal
pois tarei em Juliana
mas eu achava normal
Juliana era uma... égua
que não tinha outra igual.
Não queria nem saber
de almoçar e de jantar
só pensava em Juliana
ia pra todo lugar
que vida boa era aquela
como gosto de lembrar.
E nas horas vespertinas
quando o sol desvanescia
pegava sela e arreios
com Juliana eu saía
só voltava quando a noite
os campos verdes cobria.
O meu pai desconfiou
desse meu procedimento
e num dia de domingo
seguir-me teve o intento
e o fez bem sorrateiro
a tudo ficando atento.
E em flagrante delito
por meu pai fui apanhado
e levei um grande pito
que fiquei acabrunhado
mas o que houve depois
foi o golpe mais pesado.
Meu pai não se conformando
com a minha perversão
vendeu então minha égua
foi grande a decepção
ficou por mais de um mês
tristonho meu coração.
Não tendo mais Juliana
eu não quis substitutas
e passei a paquerar
as mais trigueiras matutas
me saciando nas zonas
com devassas prostitutas.
Mas ainda não achei
nenhuma mulher mundana
que seja bastante escrota
experiente e sacana
pra meu causar os prazeres
que tive com Juliana.
Este caso aqui contado
é um fato bem real
que inda hoje acontece
dentro do meio rural
e passa despercebido
do povo da capital.
Agradeço a todos que
me comprar um exemplar
pois comprando este folheto
ao autor vai ajudar
prestigiando o trabalho
do artista popular.
não tinha televisão
por isso meu passatempo
era bodoque e pião
tomar banho lá no riacho
e pegar "aduvinhão".
No entanto eu fui crescendo
e já estando um rapaz
ajudava o velho Pedro
a cuidar dos animais
e também da plantação
lá do sítio de meus pais.
E nesse tempo eu ainda
sem ter mulher conhecido
de vez em quando eu sentia
algo em mim endurecido
quando chegava na mente
um pensamento atrevido.
Porém só fui descobrir
o prazer que ele traz
ao conhecer Juliana
(era bonita demais)
era mesma uma poltranca
que não esqueço jamais.
É dela que passo agora
a descrever o roteiro
e também do nosso caso
que é todo verdadeiro
muitas vezes repetido
no nordeste brasileiro.
No jardim da mocidade
o mundo tem mais olor
os dias são mais festivos
a noite tem mais primor
a mente é cheia de sonhos
e o peito cheio de amor.
Juliana foi a tara
que eu tive na adolescência
com ela foi que vivi
a primeira experiência
numa tarde de janeiro
na solidão da querência.
Momentos inesquecíveis
com Juliana eu passei
passeando pelos campos
de fazenda onde morei
e desses nossos passeios
eu jamais esquecerei.
Mesmo ficando caduco
agindo como criança
na minha senilidade
(que se não morrer, me alcança)
eu sei que Juliana vai
estar em minha lembrança.
Ela sempre me levava
pros passeios matinais
pelos rios, pelos campos,
por dentro dos matagais
e desses dias tão bons
sinto saudade demais.
E em nossas cavalgadas
vendo aguçado o sentido
fazia versos pra ela
cantando no seu ouvido
tendo o sol por testemunha
de nosso amor proibido.
Uma vez aconselhado
pelo "nego" Nicanor
levei Juliana pro mato
por entre ânsia e pavor
comecei a lhe alisar
mesmo com certo temor.
E ela naquele instante
pareceu compreender
aquilo que eu queria
pois ficou a se mexer
ficando assim, mais arisca
aumentando o meu querer.
Pus as mãos em suas ancas
e engatei na traseira
ela ficava impassível
satisfeita, prazenteira
saciando meus instintos
na bestial brincadeira.
Depois disso muitas vezes
levei pra junto do rio
aonde tinha um barranco
e então nesse baixio
eu pegava a Juliana
quando ela estava no cio.
Foi tão grande a atração
que por ela eu sentia
que me tornei um escravo
daquela égua vadia
cada vez mais penetrando
na sua ardente enchovia.
Nem o canto das sereias
que dizem ser sedutor
me faria desprezar
o prazer e o calor
que Juliana me dava
quando lhe fazia amor.
Foram dezenas de vezes
de conjugação carnal
pois tarei em Juliana
mas eu achava normal
Juliana era uma... égua
que não tinha outra igual.
Não queria nem saber
de almoçar e de jantar
só pensava em Juliana
ia pra todo lugar
que vida boa era aquela
como gosto de lembrar.
E nas horas vespertinas
quando o sol desvanescia
pegava sela e arreios
com Juliana eu saía
só voltava quando a noite
os campos verdes cobria.
O meu pai desconfiou
desse meu procedimento
e num dia de domingo
seguir-me teve o intento
e o fez bem sorrateiro
a tudo ficando atento.
E em flagrante delito
por meu pai fui apanhado
e levei um grande pito
que fiquei acabrunhado
mas o que houve depois
foi o golpe mais pesado.
Meu pai não se conformando
com a minha perversão
vendeu então minha égua
foi grande a decepção
ficou por mais de um mês
tristonho meu coração.
Não tendo mais Juliana
eu não quis substitutas
e passei a paquerar
as mais trigueiras matutas
me saciando nas zonas
com devassas prostitutas.
Mas ainda não achei
nenhuma mulher mundana
que seja bastante escrota
experiente e sacana
pra meu causar os prazeres
que tive com Juliana.
Este caso aqui contado
é um fato bem real
que inda hoje acontece
dentro do meio rural
e passa despercebido
do povo da capital.
Agradeço a todos que
me comprar um exemplar
pois comprando este folheto
ao autor vai ajudar
prestigiando o trabalho
do artista popular.
1 210
Sérgio Godinho
Aos amores!
Aos amores!
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vao mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têem de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Aos amores!
No convento as noviças cantam as madrugadas
e a bela monja escreve cartas arrebatadas
"é por virtude tua que tu és o meu vício
por ti eu lanço os ventos ao precipício"
O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
sopra na franja, maneira de se pentear
vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
foi uma bela monja que nunca conheceu
Aos amores!
(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes
verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores)
A Marta, quinze anos, vê na televisão
um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão
faz baby-sitting à espera de parecer mulher
quando é que o amor lhe explica o que dela quer?
Depois da dor, como conservar a inocência?
leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
e parta o vidro em caso de necessidade
deixe o seu coração ir em liberdade
Aos amores!
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vao mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têem de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Aos amores!
No convento as noviças cantam as madrugadas
e a bela monja escreve cartas arrebatadas
"é por virtude tua que tu és o meu vício
por ti eu lanço os ventos ao precipício"
O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
sopra na franja, maneira de se pentear
vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
foi uma bela monja que nunca conheceu
Aos amores!
(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes
verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores)
A Marta, quinze anos, vê na televisão
um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão
faz baby-sitting à espera de parecer mulher
quando é que o amor lhe explica o que dela quer?
Depois da dor, como conservar a inocência?
leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
e parta o vidro em caso de necessidade
deixe o seu coração ir em liberdade
Aos amores!
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José Tolentino Mendonça
Compaixão
Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
2 603
Gustavo Luz
Vamos Torcer
O amor é palavra doentia.
É isso mesmo doentia!
Que enlouquece os jovens
Jovens ficam doentes de amor.
É um mal sem cura.
Mas quem quer ser curado?
Quem nunca enlouqueceu,
Nunca viveu de verdade!
Como são bons esses momentos.
Eu tô maluco!
É engraçado,
Esse verso faz parte de uma melodia.
É de outro poeta.
Mas que diz tudo.
Resume a minha dor,
Os meus pensamentos.
Como não pensei nisso antes?
Estou louco!
Louco de amor.
Estou confuso!
Confuso por estar louco.
Estou inseguro!
Inseguro por estar confuso.
Estou com medo!
Medo que um dia tudo acabe.
E agora?
Será que um dia vai tudo acabar?
Será que um dia vou me curar?
Quantas perguntas.
Não, não quero mais pensar nisso.
Vou deixar acontecer.
E torcer para que Deus,
Não tenha se esquecido,
Como se escreve certo,
Pelas linhas tortas.
Tomara que não!!!
É isso mesmo doentia!
Que enlouquece os jovens
Jovens ficam doentes de amor.
É um mal sem cura.
Mas quem quer ser curado?
Quem nunca enlouqueceu,
Nunca viveu de verdade!
Como são bons esses momentos.
Eu tô maluco!
É engraçado,
Esse verso faz parte de uma melodia.
É de outro poeta.
Mas que diz tudo.
Resume a minha dor,
Os meus pensamentos.
Como não pensei nisso antes?
Estou louco!
Louco de amor.
Estou confuso!
Confuso por estar louco.
Estou inseguro!
Inseguro por estar confuso.
Estou com medo!
Medo que um dia tudo acabe.
E agora?
Será que um dia vai tudo acabar?
Será que um dia vou me curar?
Quantas perguntas.
Não, não quero mais pensar nisso.
Vou deixar acontecer.
E torcer para que Deus,
Não tenha se esquecido,
Como se escreve certo,
Pelas linhas tortas.
Tomara que não!!!
942
Carlos Figueiredo
Terramarear
No convés
o vento batendo no meu rosto,
eu pensava nas coisas que aconteciam
e acreditava
que a vida no mar é saudável.
A mão estendida para o mastro,
o barco cruzando o oceano.
Tinha treze anos e partia
em busca de glória e aventura.
o vento batendo no meu rosto,
eu pensava nas coisas que aconteciam
e acreditava
que a vida no mar é saudável.
A mão estendida para o mastro,
o barco cruzando o oceano.
Tinha treze anos e partia
em busca de glória e aventura.
907
António Carlos Belchior
Como Nossos Pais
Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tou por fora ou então que eu tou inventando
Mas é você que ama o passado é que não vê
Mas é você que ama o passado é que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tou por fora ou então que eu tou inventando
Mas é você que ama o passado é que não vê
Mas é você que ama o passado é que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais
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