Procurar O Leãozinho (no)

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Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.16
E então vinha a baforada do estio como se abrissem uma porta
defronte do ar exaltado. Também se enredava o Outono
nos pulmões das casas. E guardavam-se lentas estrelas
nas arcas, a roupa onde
o brilho se dobra. O inverno fazia
um remoinho nas câmaras, seus buracos expulsavam a espuma
para as ininterruptas paisagens
cinematográficas.
Um dia era redonda a primavera.

E a lua unia a cúspide das artérias
às ventosas mais fundas, às rosas nos tentáculos
desde os abismos da terra. Que acordava, a lua,
as víboras nos alvéolos ou adormecia
os bichos-da-seda nas cápsulas ou punha
os dedos a luzir diante
da boca, abrindo e fechando o poema como um leque
de obsidiana.

Estive agora na memória com seus fulcros de oxigénio
e a energia das patas e as radiações
das flores paradas. Um mês
nodulunar
activo crivando todo o poema ensombrecido pelas veias do mel.

Estive em toda a parte onde pulsa o corpo com as órbitas
de amianto sob a força pensada,
virgem e severa. Desde as águas palpitando entre as bocas
e as guelras, desde o sangue
sorvido através das válvulas. Nas crateras, o fulgor
dos óvulos de faiança.
— E é o tempo, o tempo todo:
o salto dos sóis no corpo arrancado.

— Nesta criança aumenta um arbusto de cálcio.

As sementes graves revolvem-se
como um pranto. E o medo,
este favo cerebral que levo, fermenta debaixo
das radiações como um açúcar vivo
e gelado. A rotação atómica agarra,
entre os frios cabelos e a teia dos ossos e as coxas implacáveis
e o sistema planetário de pés e mãos
delgados, agarra agora
as esponjas rutilando como abelhas nas furnas ou um gás
nas câmaras da morte.

Estou deitado, e os lençóis fluem e refluem nessa ressaca
sob o ar
arqueado. As mãos no poema, o pénis
gravitando
a prumo como um corno de mármore.
A lua mexe nas estações e nas salas.
Passa á mesa sobre um litro de anis, sobre
pequenos jardins de cristal
engarrafados. E o ar gira e explode
no rosto rápido.

Eu iria até ao centro onde flutua a constelação
da dança com as labaredas
a mergulhar
em baixo. Ou á frente, os relâmpagos do corpo culminando.
Toco-lhe as campânulas quando os balcões
se debruçam na atmosfera,
e as colinas irradiam com os astros
cravados e desorientam
os olhos. A minha idade escapa-se de um lado
para o outro, sob os dedos, como um nervo
fulgurante.
Vou morrer.
O ouro está perto.

A força do medo verga a constelação do sexo.
Pelos canais nocturnos entra o mel, sai
o veneno branco.
O sono estrangula as chamas da cabeça nos veios atados.
As costas crepitam numa linha lunar
de clarabóias. Rutila
a flor do alimento, talhada: o ânus.
E brilha rebrilha, uma luva puxada pelo avesso,
o corpo
puxado pelo avesso
com as estrelas desfechadas.
As casas ateiam-se.

Com linha negra a tecedeira lavra a sua flor,
com os martelos
os canteiros trazem do fundo do granito
um meteoro de púrpura afogado.
— A paixão é pura maneira de inteligência.
Deus recompensa o crime com a voracidade e a energia, a cegueira
inspira o cérebro
violento — no plexo solar do espelho.

Uma criança abisma-se no génio analfabeto: o pavor
que a arranca de tudo. Qualquer doçura lhe alimenta os esplendores
da alucinação:
pelas altas águas descontínuas, as vozes,
as frutas tecidas, movimentos, labaredas
parietais, a profundidade dos quartos como pomares
atmosféricos.
- Oh crianças de negros rostos ressurrectos.
Elas adivinham. E tombadas as luas,
No cúmulo dos dias, nuvens de mármore sobem
dos vulcões dos parques. Há crianças paradas nas cavidades
como os olhos das casas.

Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno.
Passo por jardins zodiacais, entre
flores cerâmicas e rostos zoológicos
que fosforescem. Lavra-me uma doença fixa.
Ilumina polarmente os quartos.
Todos os dias faço uma idade
bubónica. Quem vem por fora vê
camisas apoiadas à luz, a doçura, partes
vidradas do corpo. Perto, deslumbra-se com o pénis como um chifre
de coral intacto. Às vezes não sei gritar com a boca
toda luzindo.
E queima-se em mim nervo a nervo
a flor do diamante.

Fulgura o oxigénio na sua caixa de vidro e a cerveja gelada
como uma estrela num copo. Não
falo com ninguém quando o sangue
é arrancado pelas
luas, à porta, o ar sibilante cheio de paisagens.
As víboras sonham no ninho,
turquesas, pedras, mas eu estou
com um braço de ouro sobre a cama.

E vou deixar a terra eléctrica na sua renda concavamente
leve. O mundo — este arrepio concêntrico:
olho fixo por onde toda a matéria contempla o espaço
descentrado. E um jorro desencadeia-se pela coluna
com uma rosa mental arrastada
para o alto. Nenhum lugar
é ouvido nos silêncios que tem
de dentro para fora. Posso
atar um laço em volta de cada coisa, com um sussurro
estreito. Os meus pés resplandecem sepultados nos sapatos.

— Fala-se de um tigre, talvez, um tigre profundo,
sem sonhos,
movendo-se nos aros do seu próprio corpo, um feixe
de chamas de cada lado.
Mudo a floresta, vejo os planetas passar, os cavalos.
E vou deixar o mundo, eu, cometa expulso
dos buracos da pedra. De dedo
para dedo
os anéis luzem, terríveis, de ouro forte, fechados como serpentes
fio a fio.

Pela força dessa ressaca, a limalha salta
entre a boca e o sexo. Abisma-se o mistério
animal até ao centro da caça. Atraio Deus.
Leão vermelho
a brilhar nas clareiras à frente das incessantes
mãos do caçador. Porque eu nunca falo,
de noite,
com ninguém. A minha arte de ser é venenosa, quieta
e aterrada. Mexem no leite, as salas
recuam pela casa, nos alvéolos do corpo desatam-se
os pequenos astros. E o silêncio torrencial da atmosfera
televisionada
irrompe pelos quartos amontoados.

A parede contempla a minha brancura no fundo:
paisagem
resvalada. E com o olhar redondo
de ouro ríspido, da parede me fita
o cometa, entre
as omoplatas,
onde começa o nervo da flor toda unida ao cimo
da labareda. E rola à noite a luz
sobre os lençóis, e os nós
do rosto absorvem
todos os átomos. Porque sobe um soluço dos centros
gravitacionais
de um bicho. Um soluço, um tétano.

A água escoa-se pelas esponjas dos órgãos e dos fatos.
São corpos celestes nos recantos
dos salões engolfados, ressumando
luz própria
— e dos intensos poros da madeira exalam-se
os bosques completos. Ou são estrelas
negras, os corpos, se a noite se chega para diante,
assim depressa, pedra que se desloca
varada pelos astros. E as flores nunca baixam as pálpebras
sobre os olhos.
O umbigo brilha, cego. O púbis brilha,
alto
como talha.

Todo o corpo é um espelho torrencial com as fibras
dentro das grutas. Cobra
que acorda no fundo
de si mesma, o halo
ovovivíparo
levantado anulo a anulo;
ou grande raiz fria sustentando o seu ovo soprado;
ou as guelras de uma rosa ferozmente
em arco.

Pela ciência e a paixão do medo, arranco à parede
esse nó cristalográfico com a luz
estrangulada.
Corpo celeste antípoda.
Os chifres de ouro afloram na treva.
Deus caça-me com uma lança
radiosa. Na selva dos meus quartos húmidos, orbitais, volumosos,
com uma flecha sonora.

As folhas ressumam da luz, os cometas escoam-se
pelos orifícios
vivos das casas. E fundem-se as ramas de ouro
nos músculos vorazes, os dedos
nas massas dos espelhos.
E vibra a bolha expelida da carne curva, um rosto
a que ceifaram o caule.
Não ames roupas, azáleas, água cortada, louça
— a leveza. Ama — digo —
o que é carregado: as frutas, ou a noite
e o calor, e os negros laços atados
dos animais.

E gravava-se o ouro nos centros
ávidos
e o ar no espaço e a seda
no tacto. O sexo brilhava sobre as mãos
no fundo expansivo dos quartos,
crepitando com a lepra.
Senti nas falangetas o leite manso e a madeira alumiada
pelos poros ferozes: o centrípeto feixe das coisas.
Senti o mundo tenso como o halo de um
dióspiro. Vi a serpente concentrada como um nó de cobalto.
— O sonho tão severo e a labareda
dentro e o trabalho dos dedos e dos olhos.

Pulsava o ar nas costas
da pedra
deitada ao dia com as crateras fortes:
— as narinas e a boca e o ânus. Dia vazado
de ponta a ponta branco. Entrava o oxigénio pelas artérias
agravadas, a insónia
pelas aurículas sombriamente do crânio.
A casa cheia tremia vergada pelas
luas frontais e veementes a os sóis astrológicos.

E estas aram as visões, os maus símbolos
Perigosos: a demência, a nudez, o dom,
O hipnotismo, o terror, o transe, a graça terrestre
e hermética.
Sob o choque do ouro estagnado no tórax
com a camélia radial explodindo,
a brancura ameaçava cada morte.

— Violência, claridade, sobressalto.

o espelho é uma chama cortada, um astro.
E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
ás janelas
as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
do espelho de onde salta
uma braçada de luz. Cada lenço que ata,
a própria seda do lenço
o desata. E o rosto que jorra do espelho
volta aos centros
arteriais.

Todos os anos fundos, essa extensa criança
sente brotar da terra como as árvores
do petróleo
a peste bubónica, fina na temperatura, alastrada nos bordados
das paredes ou nas crateras da cama. Os lençóis
nascem do linho que trepida
no abismo da terra, das sementes abraçadas pelas ramas
das nebulosas.

É perfeito o espelho quando apanha
um rosto nuclear.
Morre-se muito mais em cada doença, nesses
apartamentos que as noites sufocam
nos braços de mármore.
A energia das jóias.
O nó do sexo no espelho, as chamas agarradas
entre o umbigo e o ânus.
Esse trabalho da claridade quando as válvulas
se destapam.

Correntes atómicas passam de lado a lado.
E ficam os buracos furiosos por onde o mundo
sopra
um meteoro a jacto, uma cara.
Os jardins deslocam-se através de si próprios
com as centelhas, defronte
das planas constelações dos espelhos.

E então, na assimetria severa, ela amaria
transformar-se, súbita e solar — equinocialmente no espelho o relâmpago
côncavo de um girassol
espacial. Que sai assim do corpo: os filões arrancados
desse mesmo espelho.
E ela imagina na teia de fogo a argila que se transmuda
em porcelana: a curva labareda de uma chávena
expelida dos fornos.
E entre guardanapos, da mesa à boca,
arde em seu anel de estrela metalúrgica
a colher em órbita
— a assombrosa força terrestre da chávena.
E a infância desaparece nas funduras das casas,
nos jardins envoltos em nebulosas. O corpo
com os electrões fechados.

o rosto espera no seu abismo animal.

Vejo agora os estúdios enclavinhados na luz. Depois,
serão aspirados pelas ressacas
das trevas.
E a serpente dorme e fulgura entrançada nos braços.
O génio das coisas é baixo como o ouro
amarrado
em torno do sexo.

E nas cavernas de coral vivente pulsam
os animais dos horóscopos
— andróginos, lunáticos —
de cabeças trepanadas por radiações de urânio, movendo-se
com as lentas sedas dos corpos
pelos sóis à frente e as luas
deitadas. E as pupilas ferozes dos mortos contemplam
o brilho dos meus poros, o pénis
entre as centelhas da minha pele de vitelo
brando.

A voz ascende como um membro das suas tramas de sangue.
Desenvolvem-se nas noites descentradas
estes quartos engrandecidos
pelo jorro incendiário. Tocam o meio do mundo
com os raios.
São opacos, vulcânicos.
De anel para anel, a garganta por onde o corpo
Se arranca de dentro.
Rosas expiram pelo intenso orifício no meio. As massas de cristal dos
quartos
planetários

Ele queria coar na cabeça da mulher aprofundada
uma labareda,
a luz fundida nas clareiras.
Tocava-lhe abismadamente o rosto directo, o sexo
de ouro bivalve, a jóia do ânus aberto
— negra garganta de uma camélia baixando.

Queria que ela absorvesse a radiação dos astros centrais,
o oxigénio a entrelaçar-se no interior das constelações da carne.
E que o membro do corpo inteiro se embrenhasse
no sangue
que a ligava dentro de estrela a estrela
por grandes fibras
vibrantes.

Os sexos fechados pelas bocas claras, que tudo
luzisse anelarmente
— e o poder corresse neles, incessante, num insondável
quarto,
as imagens alinhando-se
num incêndio:
gárgulas, máquinas redondas, os rostos giratórios.
E que em noites soldadas pela respiração nó a nó,
sobre lençóis brilhando no seu arrepio de ouro,
num sítio de toda a idade com seus animais
enredados, estremecessem
as roseiras de onde as rosas sorvem o suspiro
subterrâneo, o intrínseco movimento
atónito.

E então a antiga criança estelar pulsava nele com o oxigénio
No extremo dos cordões maternos, soprada interiormente
pela claridade dos órgãos
afinados
na dor e na paixão —
suas casas astrológicas movidas pelo fogo baixo
e em cima
pelo ar muito alto.

A doçura, a febre e o medo sombriamente agravam
um forte jardim nos limites
da luz olhada. O mel dói, o sangue
assalta, o espelho recua até às costas. Também no interior
do mundo pesa e palpita um punhado
de pérolas. Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio.

Não é doce usar a paixão do medo, esta
maneira de tocar no ouro escurece as mãos.
Há crianças que apanham completamente a maçã
caída no sono: morrem
no coração fotográfico.
Porque as labaredas se despenharam nos espelhos.
O fogo moveu essa fruta fechada, estrelas
congenitais
voltaram-se por dentro
das crisálidas.

Entra uma nuvem se as crianças se afastam,
ou reflui a ofuscante madeira
dos armários, ou são os lençóis que se arrepiam
arrastados
pela voltagem dos astros. De baixo para o alto,
um incêndio artesiano,
um enxame de rosas ferozes.

A infância é central como os ramais da água
circulando na pedra.
Ou a ilha atravessada pela volta
Dos ecos. Ou a primavera escoada. Ou a espuma que rebenta
Na fotografia retendo o mundo
direito.
Através da infância vêem-se os dias botânicos
aumentados
e os planetas de mármore ascendendo nos quartos e os fotões
das abelhas.

É um modo límpido de voltar a cabeça
para as grutas de ouro, ou expor
o ânus branco,
ou aproximar ainda o coração dos ávidos
sorvedouros da noite.

Os mortos reluzem nas cavernas, os nossos mortos
de corpo fechado pela perfeição das lágrimas.
Seus órgãos sustidos têm o peso
das jóias.
Porque a infância é uma visão terrífica, hipnótica.
Um transe, os olhos que se tornam secretos, o extremo lunar da casa
— pedra queimada no centro
da terra.

Tomo o poder nas mãos dos animais — quer dizer:
a força quando se soltam as labaredas
dos abismos dos quartos.
Tudo se agarra no instante em que
a casa
dorme no centro ateado. Chegar
muito lentamente e arrancar a maçã,
a mais limpa chama coada pela árvore.

A energia das lunações reflui nos nervos
do espelho,
e a queimadura brilha
a pique — flor pulmonar moldada, e em baixo
as estrelas pontiagudas
das mãos.

Assim se reserva nos apartamentos agachados,
entre roupas deitadas, o tesouro de um rosto
soberano.
E a claridade evapora-se do cérebro, ao alto
do candelabro:
o olho activo de uma flor sonhada.

Ascendem dos abismos da elegância os mamíferos
arrebatados pela violência
astrológica. Ficam de bruços, entre pressões,
rotativos, poderosos:
fotografias cheias de ar e fogo. E usa-se a morte,
uma lembrança genial ou um absoluto
inquilinato.

- O movimento das casas com os castiçais contínuos como artérias,
Como terríveis ceptros.

Amo este verão negro com as furnas de onde se arrancam
as constelações, um jardim espasmódico
quando
se atravessam as membranas dos quartos.
Resplandeço como um cristal talhado estelarmente
na voragem entre a boca e o ânus, como os arcos de um espelho.
Toco
o nó dos favos — e ferve o mel ao cimo da haste
vertebral. Eu amo o tremor das veias que enxameiam
as tábuas, amo as colinas de aço nas paisagens.

A água sopra nas esponjas que luzem no frio caudal
secreto.
Vibra a roupa aberta ao longo das cavernas
das casas. Com seus passos de pantera
a noite avança e bate as pálpebras.

— Toda a dança atrai a força, toda a caça atrai
os bichos. Deus é atraído pelas canções venosas
com os diamantes inteiros.

Amo as cabeças, esses laços de pedra.

Respira no verão largo a flor com um feixe
de artérias.

Que eu atinja a minha loucura na sua estrela expelida
pela força dos ventrículos
por uma crua boca
animal. Nas salas reflectindo os jardins
a reluzir
com as cadeiras e as mesas sobre as patas de madeira,
nos precipícios das casas.
— E atrás, a queimadura do rosto
repentinamente
selado.

Eu brilho nos corredores,
entre os renques das folhagens e a fogueira de bestas
terrestres. Encandeia-me a fundura dos armários
que se ateiam
pela tensão das roupas encurvadas. Eu amo
o ouro baixo nas chamas do dançarino aberto
entre a boca e o ânus.

As pedras fizeram agora os seus laços.

E as luvas vermelhas do escafandrista explodem nas câmaras.
— Um bicho em lágrimas, a casa atravessada pelas correntes
da paisagem de água, a criança
aurífera
direita nos recantos dos quartos com um olho radial,
um espinho de mármore implantado
na testa sumptuosa.

E sobe a estrela terrestre
com a placenta assente
nos feixes desde o umbigo até aos cornos.
Eu trouxe serpentes de onde a luz mais ferve,
arranquei-as ao mel, eu, criança
de boca truculenta, alumiada, bivalve. Nunca vi água
que não varasse as casas
de lado a lado. Pulsam em mim os fulcros
do sal, os cactos.

Quando a paisagem sopra pelas janelas, durmo
olhando
os centros memoriais. Deu-me a inteligência
aquilo que toquei: o pénis que vem desde os astros das costas,
os ovos no fundo dos alvéolos, as pálpebras
negras. Somente o mundo
é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
aos laços
das constelações. E das cavernas, onde
suas garras se prendem como pólipos,
e através da minha roupa,
fitam
o espelho: sangue e ouro
e cálcio e mel
brilhando. Porque o corpo é uma gruta de onde saltam
os sóis, uma insónia que liga
o dia ao dia,
pelos jardins trespassando os estúdios
ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
astros brancos.

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Detidos: hei-de de partir quando as flores chegarem
a sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a dor que me leva
aos precipícios de agosto, a mansidão
traz-me ás janelas. São únicas as colinas de ar
palpitando fechado no espelho. É a estação dos planetas.
Cada noite é um abismo atómico.

E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Batem em mim as pancadas do pedreiro
que talha no cálcio a rosa congenital.
A carne, sufocam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Tout na manqué que quand tout avait
réussi.
Napoleão em S. Helena (memorial).

Eis aqui o lugar onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o Sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zenite haviam ambos;
Ambos iguais no brilho; ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!

Waterloo! ... Waterloo! ... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.

O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sangüíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo! ... Waterloo! ... dizendo, passam.

Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que coa ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais, ordens ditava!
O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.

Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,

O sibilo das balas que gemiam.
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — Águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo!
Assombrando as Nações coas largas asas,
Por que se nivelou aqui cos homens?

Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo,
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.

Pela última vez coa espada em punho,
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio!...
Mas invencível mão lhe toca o peito!
É a mão do Senhor! barreira ingente;
Basta, guerreiro, Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.
Eram poucos, é certo; mas que importa?

Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.

Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos
Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.

Eram os poucos que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!

Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.

Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte:
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?

Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.

O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!

Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármor,
Onde o raio batia, e recuava!

Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!

Da Liberdade foi o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.

O sagüim é um animalzinho assaz bonito:
é mesmo o mais bonito de todos, pela selva;
anda nas árvores, esconde-se, espia, foge depressa
e há deles, na terra viçosa, número infinito.

Se qualquer rei da Europa o visse, gostaria
de possuí-lo como um brinquedo, vindo de longe, e raro.
Mas é o sagüim animalzinho tão delicado
que a uma viagem tão longa não resistiria.

A cara do sagüim é como a de um leãozinho,
e pode-se conseguir que ele pouse no nosso ombro.
O sagüim mais bonito de todos é o sagüim louro,
que tem uma expressão de inteligência e carinho.

Ele pode descer a comer à nossa mão! Graciosa
é a sua maneira de olhar. Gracioso é o movimento do seu corpo inteiro,
tão leve e breve! Mas os melhores, só no Rio de Janeiro
se encontram: se encontram apenas nesta cidade, a mui formosa.

Trovas

Inedìtas de Bandarra


Natural da Villa de Francoza.

* * * * *

Que exestião em poder de Pacheco Comtemporaneo de Bandarra e que
se lhe achàrão depois de sua morte.

* * * * *

Londres.

MDCCCXV.




Introduçaõ.


Com grande satisfação recebérão, todos os Portuguezes, assas Cinceros,
e prudentes, as trovas de Gonçallo Annes Bandarra, impressas em Barcellona
em 1809 sobre a edìção de Nantes de 1644. Juntandose, a esta edição
outras, trovas que nunca se tinhão impreço pella defficuldade que havia
de se naõ acharem.

Ficando porem ainda o ardente dezejo em muitas pessoas de verem
impresso o resto (de que havia notìcia de sua existencia) de todas as
trovas de Bandarra; porquè como este hia profetizando, em diverços tempos
durante a sua vida; igualmente por este motivo, apareciao em diverços
tempos, e lugares, e em poder de algumas pessoas, como se vio (por exemplo)
na edição de Nantes de 1644 naõ se ímpremírão senão, aquellas trovas, por
que não aparecerão as que se impremirão, em Barcelona em 1809 (que fazem a
2ª e 3ª parte desta obra) as quaes são, as que se achárão em poder do
Cardeal Nuno da Cunha, e as que tinha o Comissário do Santo officio
Domingos Furtado de Mendonça: e agora depois que se fez a edição acima
ditta de 1809, se acharão na livraria do Ex^mo Sñr........ (omito o seo
nome por motivos particulares) em manuscrito muito antigo! todas as
profecias de Bandarra, não só as que se achão jà impressas, nas duas
ediçoens que jà dicemos, mas tãobem as trovas de que havia noticia, que
tinhão ficàdo em poder de Pacheco, amigo, e comtemporaneo de Bandarra, que
mereceo a este tanto conceito, que foi digno de responder aquelle às
perguntas que lhe fazia, cujas respostas que Bandarra fez a Pacheco são as
que se achão na edição de Barcelona de 1809 desde paginas 60, até, 66, e
como esta obra estava imcompleta, e pella sua natureza merece muita
reflexão a todas as pessoas discretas e assas prudentes; a rogos destes
pois hé que me determinei a mandar impremir, as trovas que o dito Pacheco
tinha em seo poder, ficando desta sorte completa a edição desta obra toda,
de que hà noticia que Bandarra profetizou, assim como tãobem, completos os
ardentes dezejos de todos os Portuguezes Fieis, Cinceros, e Honrados, como
eu que me prézo de ser hum.--

Leal Portuguez.




Quarta parte das Trovas de Bandarra.


1.

Os tempos com crueldade
Começar-se hão a mover,
Se me não engana a verdade
Ali perderão seo ser
No meio de certa idade.


2.

Virà gozando de paz
Aquelle pastor valente,
Hum lobo que guerra faz
Moverà toda a gente
Com huma limgua sagaz.


3.

Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomarà,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.


4.

Nelles farà tal destroço
Que serà couza de espanto,
Como bravo Touro em cosso
Logo perde tudo quanto
Tinha como pastor moço.


5.

Jà vejo que se desterra
Este pastor sem ventura,
Da patria rebanho, e terra
A huma larga Sepultura
De huma frondoza serra.


6.

O manço gàdo que em páz
Pella ribeira regia,
Jà desgovernàdo traz
Triste sò sem companhia,
Que hum mào concelho faz.


7.

E logo outro pastor
Do pouco gado que achár,
Serà absoluto Senhor,
E serà em quanto durar
A fortuna, e seo rigor.


8.

Serà pastor estrangeiro
O que reja o manço gado
Que taõ bravo foi primeiro
Mas ai que falta o malhado
Que era o principal Carneiro.


9.

De pois que por tempo largo
Este pastor governar
A este rebanho amargo,
Outra vez hà de tornar
A ter o que tinha o cargo.


10.

Haverà novos sinaes
Da parte deste pastor,
Thé os mesmos anímaes
Por seu natural Senhor
Darão suspiros, e ais.


11.

Tornarà a quebràda linha
No Cábo de serta idade,
A encher-se como pinha,
E descubrirà a verdade
Do que encuberto tinha.


12.

Sem pena que damno faça
Tornarà pella ribeira
Pastar o gado na praça,
Por ultima, e derradeira
Dos fados Supréma traça.


13.

Tornarei a recolher
Esta ovelha perdida
A patria que lhe deu ser,
E porei por ella a vida
Sem nunca desfalecer.


14.

Entaõ não me mudarei
Pois conheceis que sou vosso,
Minha ovelha estimarei
Pois de outro modo naõ posso
Alma, e vida lhe darei.


15.

Haverà em triste Cidade
Grande fome peste, e guerra,
Que a Escritura a não erra
Que em tudo falla verdade,


16.

De longas terras virão
Dois Leoens mui asanhádos
Hum de Cruz, e outro não
Vingarão males paçados.


17.

Serão à força da espada
Destruidas mil provincias,
Na Luzitania assollada
Terão fim roubos, e malicias.


18.

Na era de quarenta, é hum
De Janeiro por diante,
Darà fio ao seo montante
Aparelhece cada hum.


19.

O nosso Christianismo
Nossa grande Obrigação,
Não temos mais de Christão,
Do que o nome do Baptismo.


20.

Fazemos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada qual se faça prestes.


21.

Espantozos movimentos
Havemos cedo dever,
E antes de muitos tempos
Ha de isto de acontecer.


22.

Não haverà em Hespanha
Lugar preveligiado,
Tudo serà assollado
Dessa gente de Alemanha.


23.

Todos os lugares planos
Por terra serão prostrados,
Muitos males, muitos damnos
Haverà pellos peceádos.


24.

As Serras se habitarão
E os Oiteiros mais altos,
Muitas Gentes sahirão
Outros andarão em Saltos.


25.

Andarão como pasmados
Chorando pellos caminhos,
De suas terras lançados
De parentes, e vesinhos.


26.

Então não haverà amigos
Nem pay que por filho seja,
O mais seguro abrigo
Serà acolherse à Igreja.


27.

Nesses tempos os meninos
Ainda que innocentes,
Terão tãobem accidentes
Muito fora dos Caminhos.


28.

Haverà peregrinaçoens
Mortes sem conto de dura,
Males fogos devisoens
Só Deos lhe póde dar cura.


29.

Ha de ser Rey quem fôr
Que em Deos está o saber
O bom, o São, o melhor
Só elle o há de escolher.


30.

Por particular enteresse
Tem chegado o mundo a tanto,
Triste do que lhe parece
Que háde bastar falçomanto.


31.

Os póvos hão de alintar
As culpas dos seos Monarchas,
Que sem nenhum estudar
São Letràdos, e Patriarchas.


32.

Nos Ceos haverà sinaes
Na Terra não faltarão,
Tormentos pennas, e ais
Que aos Ceos penetrarão.


33.

E depois do Leão morto
Não sem falta de mistério,
Aportarà neste porto
Outro com maior Império.


34.

Entrarà com companheiro
Na terra dos Luzitannos,
Cada qual bom Cavalleiro
Destruirão os Arriannos.


35.

Tempos traz tempos virão
Que os Grandes serão baixàdos
Os pequennos exaltádos
Povo, e Rey governarão.


36.

E depois de tantos males
Fomes, pestes devisoens,
Cheios os montes, e Valles
De tristes peregrinaçõens.


37.

Tornarà o Redemptor
A olhar por seo rebanho,
E tello ha com muito amanho
Como bom Rey e Senhor.


38.

Escaparà pouca gente
De tão perigoza dança,
Virà tempo de bonança
Quem viver serà contente.


39.

Vejo vir grandes baleias
Pella costa de Biscaya
Gaia gaia da vezinha praya
Que lhe tingem as areias.


40.

Eis là contra a Norúega
Raios, Cavallos, Golfinhos,
Com que preça que navega
Tanta Cópia de Marinhos.


41.

Vejo milhoens de Relampagos
Trovoens que rompem os ceos
Nuvems de mui grandes véos
Coriscos grandes expantos.


42.

Que mancebo tão formozo
Dà Luz a todo o Emisfério,
Rosto mui digno de Império
Forte, fero, e graciozo.


43.

Iá por força toma a Seora
Cercàdo de Leoens bravos,
Oh que unhas dentes quebrádos
Teme, e treme toda a terra.


44.

Mil rapozas vão dìante
Buscando grutas, e côvàs,
A Lebres, Coelhos dão novas
Que fujão de tal semblante.


45.

Descançame a vista vendo
Hirse o tempo já chegando,
E estarse a Alma alegrando
Com o que vejo, e entendo.


46.

Venha embora o Leão forte
De tantos accompanhádo,
Que affirmão, e tem jurado
Que em que lhe custe a morte
O hão de ver coroado.


47.

Que grandes arribaçoens
São Atums, ou são Sardinhos,
Maiores são que Barquinhas
São Náos, boms Galioens.


48.

Parece que seo caminho
Hé direito a Portugal
Ai se eu mal não advinho
Não vão carregar de Sal.


49.

Que rostos, corpos, e armas,
Quanto fogo, e quanto asso,
No rosto gente do Passo
E Soldados nas Bisarmas.


50.

Ora quero-lhe dizer
Esta cà occupàda a Terra,
Mas poderão responder
Se hé gente de paz, ou guerra.


51.

Hé gente que em si encerra
E aquillo que diz não faz,
Diz guerra, ordena páz
Pergoa paz, e faz guerra.


52.

O Seo Rey quer ser Monarcha
E toda a Terra pertende,
Tudo abrange, e tudo abarca
E do díreito não pende.


53.

Vinde cà Rey Soberanno
Quero vos dezenganar,
Lembro-vos que sois humanno
E que tudo hade acabar.


54.

E que na postreira hora
Quando o mal jà estìver feito,
E não possa ser desfeito
Treme olma, e em vão chora.


55.

Lembre vos o que aconteceo
A Tholedo com o pay
Que já cada hum là vay
E não sei qual pa o ceo.


56.

Quereis vòs a Portugal
Sendo elle nome macho
Ajuda mal por que lhe acho
Muita fémea, e pouco Sal.


57.

Se quizerdes por direito
Deixarse há elle torcer,
Mas forçado hé máo geito
Para se deixar vencer.


58.

Vejo vosso damno perto
Hireis perdendo o reynádo
E tão bem tende por certo
Morrerdes desconsolado


59.

Luzitanna hé chamáda
A Dama que dezejaés,
Ella hé dantes despozada
Perseguilla hé por demais


60.

Ainda que em caza tem
De Ulices tantos povos,
Hir-se hão como os porcos
Ante o Leão que vem.


61.

Esta profecìa hè bella
Mui certa e verdadeira,
Quem tiver boa terceira
Gozarà a Sabia Donzella.


Fim da quarta parte.




Quinta parte das Trovas de Bandarra.


1.

Quando de noite me ponho
A dormir sem me benzer,
Tudo o que háde açuceder
Se me representa em Sonho.


2.

Sempre mandei escrever
Aquillo que me lembrou,
Porque a memoria a postou
De tudo se esquecer.


3.

Nas Trovas que tinha feito
Muito hà que conciderar,
Como o seo tempo chegar
Se vera o meo conceito.


4.

Sempre por thezoiras faço
As minhas contas mui certas,
Portas que hão de estar abertas
Não são boas para o paço.


5.

Eu naõ sou Profeta inteiro
E menos na minha terra,
Mas vejo vir pella Serra
Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.


6.

O Sol pello meio dia
Faz o effeito de Geada,
Vejo partir huma armada
Carregáda de agua fria.


7.

Huma grande tempestade
Com o céo muiclaro, e Serenno,
Farà hum hommem moreno
Com rezão mas sem piedade.


8.

A minha trepeça tem
Trez péz mui bem seguros,
Vejo fabricar hums muros
Mas eu naõ sei para quem.


9.

Quem muitos annos durar
Hade ver couzas indignas.
Tocar-se haõ muitas bozinas
Por hommems peixes do már.


10.

Todo o mundo grita, e berra
Cada qual no seo officio,
Pois antes que hum beneficio,
Querem, peste, fome, e guerra.


11.

Quando furo com a Suvella
Coiro groço, e Macio,
Vejo prender no Rocio
Quaze toda a parentella.


12.

Eu tenho medo da morte
Como couza superior,
O Presbitero maior
Naõ háde tornar à Corte.


13.

Annos hãode vir à terra
Em que por nossos peccados,
Nas cazas fiquem os gados
As gentes vivaõ na Serra.


14.

Sempre como os meos feijoens
Quando vem bem temperados,
Vejo no templo os Copados
No Cural os Cappellaens.


15.

Sou Sapateiro, mas Nobre
Com mui pouco Cabedal,
E tu triste Portugal
Quando mais rico, mais pobre.


16.

O (A) que ponho às avessas
Com a perna atraz levantáda,
Hàde ter a mão armàda
Para degollar Cabeças.


17.

Quando a terra dos Falcoens
Certa erva produzir,
Creio se hàde conceguir
O deitar fóra as Lezoens.


18.

De hum brazeiro mui acezo
Damdolhe o vento ligeiro,
Se hàde formar hum pinheiro
Sem ter medida, nem pezo.


19.

O Carro que vai chiando
Por hir muito carregàdo,
Sim mostra o jugo pezado
Mas naõ tira pezo andando.


20.

A Hortela na Panella
Dizem que lhe dà bom gosto,
Essa mulher de bom rosto
Naõ ouço rusnar bem della.


21.

Hespanha muito medroza
A Europa muito enfadada,
Huma mulher de almofada
Sabe como huma rapoza.


22.

As linhas com que cozia
Jà naõ como as de agora,
Temo que se deite fóra
Quem Souber a Ave Maria.


23.

Na era que eu tenho ditto
Nas Thezoiras levantadas,
Se haõde ver muitas jornàdas
Á custa do Saõ Benito.


24.

Naõ pode haver couza boa
Aonde Habita o mal Francez,
Temo o polho Portuguez
Em poder de huma Leoa.


25.

Quando o Leaõ Hispanhol
Vier quase a Portugal,
Háde ser o nosso mal
Querer luzir como o Sol.


26.

Quando a neve como braza
Todas as plantas queimar,
Dous quintos se haõ de ajuntar
Sem haver jogo na caza.


27.

Em hum lugar mais ameno
Cercados de mares groços,
Vive por peccados nossos
Quem se sustenta com feno.


28.

Sempre vem de monte, a monte
As agoas das enxorradas,
E vejo testas coroadas
Sentadas sobre huma ponte.


29.

Quando tiverem por certo
Perdida toda a esperança,
Portugal terá bonança
Na vinda do Encuberto.


30.

Vejo vir pello mar largo
Como quem vem para dentro,
Hum hommem buscar seo centro
Depois de hum grande lethargo.


31.

Quando me matar S. Jorge
E Marcos me reçuscitar,
Saõ Joaõ me exaltar
Faça todo o mundo alforge.


32.

Os pez da minha trepéça
Conta trez vezes areio,
Ajuntalhe dous, e meio
Dizelhe que apareça.


33.

Naõ podeis fazer queixume
De deixar o vosso lár,
Que se do norte ventar
Do Sul vos virà o lume.


34.

Vejo a grifa parideira
Juntada com huma Serpente,
E vejo que muita gente
Tem disto grande canceira.


35.

Vejo o Leão, e a Serpente
Atraz da gente goleima,
Grita o gallo que ateima
Com o Lobo que tem diante.


36.

Já vejo grande mofina
No porqueiro de Sequem,
Que o gado todo está bem
Com o Ovilheiro de Dina.


37.

Vejo a Lua ensanguentada
Pella virtude do Encuberto,
Se està longe, ou se perto
Assim o diz a toada.


38.

Là vem por sima do már
Hum Cavallo de madeira,
Que farà n'huma poeira
O porco que hàde grunhar.


39.

Vijo pedras ajuntar
Là muito perto da Lua
Vejo subir de huma, e huma
E nellas o Sol entrar.


40.

Vejo pello meo Telhado
No Ceo grande resplendor,
Se hé alegria, ou temer
Esdras o tem declarádo.


41.

Vejo o Almocreve tomar
As Alamanhas antigas,
Vejo nascer das ortigas
A remente là do mar


42.

Là donde o Sol vem nascendo
Hum Dragaõ vejo vir vindo,
A seo Cabo vem correndo
Mais bichos que o vem seguindo.


43.

O primeiro depois do quinto
Filho d'Aguia levantada,
Hade estender sua Espàda
Sobre a Galia faminto.


44.

Vejo sahir as Gaivotas
De dentro do nosso Tejo,
Taõbem parece que vejo
As duas por ellas rotas.


45.

Sonho que rebentaõ fontes
Da terra da Promiçaõ,
E que os Gallos de Siaõ
Vaõ fugindo até os montes.


46.

Naõ canta o Gallo com penna
As aguias charão mofina,
A serpente encrespa a clina
Porque Deos assim o ordenna.


47.

Faremos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada hum se faça prestes.


Fim da quinta parte.




Sexta parte das Trovas de Bandarra.


1.

Sonhei que via hum fumo,
Com grande força sahir,
E deixando de Subir,
Hum altar vi no escuro:
Formava taõ forte muro.
Que estava o Altar cuberto;
Vi a hostia naõ mui perto,
Do tal Altar arredada:
Huma cára sublimáda,
Em ella vi por mais certo.


2.

Pareceme que crescia,
Quem assim o figurava:
Taõbem sonhei me pegava,
Quem mulher me parecia:
E que com voz me dezia,
Anda ver a terra nova,
Pella maõ levou-me à cova,
Levava bello vestido,
Aí nuvems eu fui subido,
Onde vi a gente toda.


3.

Negra, e amolatáda,
Logo à terra baldeando,
A respiraçaõ faltando
Eu daqui já naõ quis nada,
Para a terra de pancada
Me trouxe a tal mulher,
Athé alcancei dizer
Vou segunda vez à terra,
Logo vinha resta era
E tornava a aparecer.


4.

Parecia a meo ver
Nova Igreja figurada,
Por hereges desterráda,
Na quella terra a tremer,
Quem Herege quizer ser
Ficarà negro, ou molato,
E terà todo o máo trato
Por fugir da boa Ley,
No Inferno sua grey
Para tràz darà o Salto.


5.

Taõbem sonhei que a nuvem
Cobria a gram redondeza,
Mui medonha, e espeça
Taõbem raios que destroem,
A quem a falça Ley tem,
E depois vi aclarar
Com hum claraõ singular,
Em dia de huma Senhora
Em fe seguinte boa hora
Seu nascimento sempár.


6.

Em sonhos vi grande armáda
E a Lua, em rosso Tejo,
Ficandolhe o Sol por baixo
De huma Torre armáda,
Moiros tiveraõ entráda
Pella terra de christaõs,
Na Igreja vi estes máos
Hum exercito Francez,
Taõbem entrou desta vez
Accompanhádo dos Máos.


7.

Pella terra veio entrando
Athé se perder de vista,
Com grande préça, e cobiça
Toda a vinhaõ derrotando,
Taõbem os Moiros chegando
Com grande astucia, e préça,
Vinhaõ buscando a Cabeça
A numa Cidade Real
Pouco cuida Portugal,
Em o mal que lhe aconteça.


8.

Parece que estou ouvindo
Nesse mar a gran tormenta
Antes que chegue os Setenta,
Caxas, Ballas, barberinhos
Entaõ hé que virà vindo
O Grande pastor Geral,
Acudir a taõ graõ mal,
Dando às Ovelhas sustento
E taõbem o Sacramento
Viva o nosso Portugal.


9.

Poucos tempos paçaraõ
Segundo as Profecias,
Em os Sinaes destes dias
Outros que cedo viraõ
Huma Gran tribulaçaõ,
Mas ao depois verà
A volta que tudo dà,
Chegando logo a vencer
No mundo todo o poder
Na Igreja ficarà.


10.

Em todas reste tuida
Com maior veneraçaõ,
Só nella tem o Christaõ,
Gloria na eterna vida
Mas ai que a vejo cahida
Que primeiro vem chegando
Os boms largando o mundo,
Outros morrendo à preça
Outros perdem a Cabeça,
Muitos disso vão folgando.


11.

Tanto Sangue pello campo
E tanto morrer na rua,
Tantos deixaõ vida sua
Por guardar o nome Santo,
Nem da mulher o manto
Terà respeito ou favor,
Jà nenhum lhe tem amor
A essa profanna vaidade,
Quando virem a Cidade
Posta no maior horror.


12.

Jà de França serà farto
Quem à França quiz andar
Nunca mais andem trajar,
Tomàra naõ ter o fato:
Paga o povo por ingrato
O desprezo que tem feito,
Da Patria do minho aceito
Dando rédias ao profanno
Teraõ o seo desenganno,
Com o Vestir mais perfeito.


13.

Com Sangue, Boubo, e Deshonra
Com mortes, e Vitupérios,
Fomes doenças, e Guerras,
Querendo acabar a terra
Com mui grande alarido,
Todos ficaraõ com sentido
Com o mal naõ esperado
Serà prezo o Diabo
Porque entaõ tudo hé acabádo
E o morto serà vivo.


14.

Era taõbem logo chega
Que a todos de asento,
Serà fim este tormento,
Quem com bonança navéga
Entaõ armáda mais féra,
Livranos do Inemigo,
Com bom valor, e abrigo
O Beato Saõ Joaõ
Em seo dia nos dà a maõ,
E o Incoberto vivo.


15.

Quem destruir os do Norte
E os Moiros deitar fora,
Matandolhe a gente toda
Em Cacilhas forà côrte
Lá vereis o estandarte
Com as quinas aconado
E emtaõ vereis mostràdo
Em sima o bom Jezus,
E taõbem a Santa Cruz
Para vencer o Diabo.


16.

Veremos o mar vermelho
Sem hir a Jerusalem,
A qui veraõ os que tem
Tomádo o meo concelho,
Em si proprio o espelho,
Muito Sangue em si correndo
Mas quem fôr obedecendo,
Passarà sobre o mar
Sem que precize nadar,
Verà o maior portento.


17.

Em Cassilhas a Bandeira
Com estandarte Real,
Logo Hereges por seo mal,
A morte tem de Carreira
Terà este na Simeira
Hum Christo crucificádo,
Verà o povo malvado
O quaõ cego tem vivido,
Em terem perceguido
E a muitos marterizádo.


18.

O Moiro, Turco, Francez
Naõ poderaõ fugir todos,
Porque muitos seraõ mortos
As maõs do bom portuguez,
Là levarão desta vez
Novas aos seus que contar,
Quando virem em Portugal
O Encuberto declarado,
Castigando todo o estrago
Que elles vieraõ cauzar.


19.

Nenhum remedio lhe sinto
O Naõ vireá melhor fôra,
Venha sem em boa hora
Quem ao lobo faminto,
Lhe ponha em sangue tinto
Por essas ruàs no chaõ,
Bandeiras em confucaõ
Flores, Barretes, e Capas
Deste bom Rey nada escapa,
Viva o Graõ Sebastaõ.


20.

Sonhei que via vencer
As quatro partes do mundo,
E que Portugal a tudo
Hia dando que fazer,
E taõbem fazendo e ver
O Evangelho, e a Cruz
Ao povo falto de luz,
Sacramento eterno dia
Taobem a Virgem Maria
Todos com o bom Jezus.


21.

Sonhei que o Sacramento
Em todo o mundo em redondo,
Já das almas serà dono
Isto maior portento,
Taõbem graõ contentamento,
Em ver os Reys me cauzou
Que na geraçaõ dotou,
Lá de Affonço o primeiro
Thé trinta o derradeiro,
Onde o primeiro acabou.


22.

Por humgrande oppozitor
Depois da linha acabada,
Este farà derrotada,
A Igreja com horror,
Á besta mete pavor
Em trez, e meio de dura
Tanta gente à Sepultura,
O Martir gloríozo
Por fugir do tenebrozo,
A seguir a Virgem pura.


23.

Por mil, e duzentos annos
A Igreja reinarà,
Jà todo o Christaõ serà
Vivendo como irmaõs,
Nem trapaças nem enganos
Debaixo de huma cabeça,
No seo Império, e pastor,
Por Sebastiaõ Senhor
A quem tudo obedeça
Com Zelo, e grande amor.


24.

Este Rey de Deos guardado
Para limpeza do mundo,
De tal sorte porà tudo
Que deos seja venerado,
Em Portugal exaltàdo
De pequeno graõ Senhor,
Os mais todos com Pavor
Logo o haõde coroar,
Por Imperador sempár
Ao depois do Creador.


25.

Sonhei que via descer
Hum Anjo em huma nuvem
Mostrando que jà destroe
Quem Herege quizer ser,
Daqui vem a entender
Pella voz que lhe ouvi
E com furor disse assim,
"Morra o Blasfemador
"De Ley do bom Redemptor,
"O Prencipio desde aqui.


26.

Taõbem a Lua correndo
Sonhei que a via vir
Por trez vezes a cahir,
E Portugal perecendo
A isto o que eu entendo
Que figura muito moiro,
Vindo a buscar o oiro,
E mais riqueza notoria
Fazendo perder a gloria,
A quem delle fez thezoiro.


27.

Quantos destes vaõ roubando
Aì quando virem chegar,
Muitas Náos em este mar
E gente em terra botando
Entaõ ouviraõ o bando,
Mata, fere, e degolla,
Ficando a gente tolla
Tao tolla, como pasmàda
E a terra derrotáda
Perceguida a toda a hora.


28.

Morem, e ficaõ Catholicos,
Hums morrem, outros pelejaõ
Outros depreça despejaõ,
O melhor que guardaõ vivos,
Jà fallaõ Leaes amigos
A imgratidaõ sobeja,
E algums comgrande inveja,
Sò cuidaõ em bem furtar,
Nenhum yuer a tuvar
O Mal que tanto sobeja.


29.

Nenhum vemidio se sente
Sem ter meio de Apellar
Nem na terra, nem no Mar,
Vendo prêza maior gente
O mais alto delinquente,
Naõ ficarà sem castigo
Quem muito prende taobem
Serà prezo, e cativo,
Pezarlhe há de ser vivo
Estando só sem nímguem.


30.

Nas armas pèga a mulher
Taõbem entra em Corcelho,
Entao acode o bom Valho
Sebastiaõ hàde ser,
E tudo em seo poder
Ficarà com graõ limpeza
Ou Magestade, Alteza
Bem livras do Cativeiro
Lobo se torna, em Cordeiro
Em paga da tal Fineza.


31.

Contra graõ Senhor se ergue
Com furia, Asturia, e Manha,
Esparta, forte, Companha,
De seo maior mal lhe serve,
Taõbem quem ajuda perde
Honra, fazenda, e Vida,
Depois de no mar vencida
E na terra maio é risco,
Sepultádo no abismo
De todo serà perdida.


32.

Perde Braga, vence o Porto
E todas seraõ entràdas,
Em o fogo das pancadas
Em Bahia grar dectroço,
De Lagos fica bem pouco
Lisboa já hé Senhora,
De cativa deffençora
Da Ley que haõde guardar,
Os que se querem salvar
E morrer em boa hora.


33.

Viva o grande Portugal
Todos saltaõ de contentes,
Mulheres com seos parentes
Ficaõ livres do graõ mal,
Veja agora cada qual
De que sorte poem a vida,
No levantar da cahida
Tem o vemido na maõ,
Quem cuidar em bom Christaõ
Sua alma serà subida.


34.

E todo o mundo sugeito
A esta naçaõ portugueza,
Por aquella grande Alteza
Que Christo tem em seo peito,
Por lhe ser o mais aceito
Na Fé, Constancia, e Valor,
Peregrimo, e Senhor
Gram trabalhos padecendo,
Em fortaleza padecendo
Em o mundo grão valor.


35.

Em humildade, e esperança
A maior que jà se vio,
Com caridade subio
Ao lugar que logo alcança,
Justiça com temperança
Na prudencia o primeiro,
No castigo o derradeiro
Esperando a Sugeiçaõ,
Logo chega o pagaõ
A ser Christaõ verdadeiro.


36.

Portugal fica mais nobre
Em todo elle o poder,
E taõbem se háde ver
Ficar rico, o que foi pobre,
Aquelle a quem a fé cobre
Firme na Santa Igreja,
Todos lhe teraõ inveja,
Quando virem Portuguezes
Vencendo Turcos, Francezes,
E Moiros, em graõ Peleja.


37.

Dois descendentes que traz
De grande Valor, e Brio,
O Mais velho em Senhoria
Porá a guerra, em Paz,
Veraõ todos o que faz
De boms na Santa Igreja,
A força lhe tem inveja
A Fortuna, e augmento,
Farà pàrto o Sacramento
Onde toda Christaõ seja.


38.

O Pastor mór cedo falta
Seo descendente reinando,
E grande castigo dando
Aos vezinhos de Malta,
Quando Veneza se exalta
De França hé Malográda,
Cauzarà nesta pancáda
Entre os seos naturaes,
Seraõ os castigos taes
Que toda seja arrazáda.


Fim da Sexta Parte.



Homem, da vida as sombras inclementes
Interrogas em vão: — Que céus habita
Deus? Onde essa região de luz bendita,
Paraíso dos justos e dos crentes?...

Em vão tateiam tuas mãos trementes
As entranhas da noite erma, infinita,
Onde a dúvida atroz blasfema e grita,
E onde há só queixas e ranger de dentes...

A essa abóbada escura, em vão elevas
Os braços para o Deus sonhado, e lutas
Por abarcá-lo; é tudo em torno trevas...

Somente o vácuo estreitas em teus braços;
E apenas, pávido, um ruído escutas,
Que é o ruído dos teus próprios passos!...


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.22
A SEU CUNHADO MANUEL MACHADO,
SENHOR DA TERRA
DANTRE HOMEM E CÁVADO

Inda que eu ria e me cale,
que me eu faça surdo e cego,
bem vejo eu porque o da Vale
correu tanto ao meu galego!
Como cum leão fez festa!
Mas inda mal, a la fé,
porque um escrito na testa
não traz cada um de quem é.

Antre craros e escuros,
ladrões de seiscentas cores
andam por aqui seguros,
não lhe saem tais corredores.
Após quem toma por si
e primeiro mata ou morre
não corre o da Vale assi,
que após um tolo assi corre.

Bom matador, bom ladrão
que fugindo arma entretanto,
deixou acolher bastião,
que pica e não rende tanto!
Vive pola tua pena,
outrem prenda, outrem condene,
não me toque no da pena
em que te as barbas depene.

Escreves polo Ribeiro,
anda após o mais proveito.
Hás-de pagar o dinheiro,
ganham a torto ou a dereito.
Deixa andar os encartados,
deixa-os, que tem os caminhos
de palhetos ouriçados,
que andam como porcos espinhos.

Come e bebe, pois te presta.
Não cures das assoadas
que se vem juntas à festa
e vos têm todos em nadas.
Onde vires um coitado
que, em te vendo, perde a cor,
dá após ele, homem ousado!
Não se vá tal malfeitor!

Executores da lei,
havei vergonha algum dia!
Este chama: aqui del-rei!
estoutro chama: a valia!
outro chama: Portugal!
De varas não há i míngua.
Desata a bolsa, que val,
traze sempre atada a língua.

CASAMENTO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS COM A POBREZA (Sasseta)
O amor te escolheu
por seres a mais casta
entre virgens ideais.
A união é do ar
e da água e do pão
em migalhas.

AUTORRETRATO (Soutine)
Sou eu ou não sou eu?
Sou eu ou sou você?
Sou eu ou sou ninguém,
e ninguém me retrata?

MÚSICOS CEGOS (Velázquez)
Violino e guitarra são videntes,
olham pelos olhos dos cantantes.

RETRATO DE MADAME HÉBUTERNE (Modigliani)
Plantada na torre do pescoço,
a cabeça, na altura,
mal percebe nossas inquietações de planície.

O GRITO (Munch)
A natureza grita, apavorante.
Doem os ouvidos, dói o quadro.

LEDA (Da Vinci)
Já gozaste demais, diz Leda ao cisne.
Que venha logo Jove cataclismo.

GENTIL HOMEM BÊBADO (Carrà)
De Baudelaire o conselho:
É preciso estar sempre bêbado.
Além do imaginário e do real
é preciso estar sempre sóbrio
para pintar a bebedeira.

ODALISCA VERMELHA (Matisse)
A indolência da odalisca em rosa rubra
respira paz de lânguido fervor.
A sensualidade se dilui:
pura cor.

A CADEIRA (Van Gogh)
Ninguém está sentado,
mas adivinha-se o homem angustiado.

A CIGANA ADORMECIDA (Henri Rousseau)
Para te acordar
do sono profundo
disfarço-me: leão
que ao te roçar
esquece a missão.

A PONTE DE MANTES (Corot)
Assim quisera eu ser:
ponte árvore canoa água serena
ignorante de tudo mais bem longe.

A ANUNCIAÇÃO (Fra Angelico)
O anjo desprende-se da arquitetura
para dar a notícia
precisamente conforme a traça
de sublime arquiteto.

ALMOÇO SOBRE A RELVA (Manet)
Conversamos placidamente
junto da nudez
que pela primeira vez
não nos alucina.

VÊNUS E O ORGANISTA (Ticiano)
O som envolve a nudez
e chega ao cachorrinho.
O músico esquece a partitura.
As pulseiras de Vênus não escutam.

TIRADENTES (Portinari)
Fez-se a burocrática justiça.
O trono dorme invencível vingado.
Postas de carne do sonhador
referem o caminho das minas.

CAFÉ NOTURNO (Van Gogh)
Alucinação de mesas
que se comportam como fantasmas
reunidos
solitários
glaciais.

TRANSVERBERAÇÃO DE SANTA TERESA (Bernini)
Visão celestial, doce delírio.
Da cabeça aos pés nus
êxtase (orgasmo?) relampeia.

RETRATO DO CASAL ARNOLFINI (Jan van Eyck)
A imagem reproduz-se até o sem-fim.
O casal sem filhos
gera continuamente nos espelhos
a imagem de perpétuo casamento.

SALOMÉ (Giorgione)
Que instinto maternal, que suavidade
embala esta cabeça decepada?

VÊNUS ADORMECIDA (Giorgione)
Acalenta no sono
o púbis acordado.

JARDIM DO MANICÔMIO (Van Gogh)
O jardim onde passeia a ausência de razão
é todo ele ordem natural.
A terra acolhe o desvario
que assimila a verdura e a leveza do ar.

VOLTAIRE (Houdon)
O mundo não merece gargalhada. Basta-lhe
sorriso de descrença e zombaria.

SAPATOS (Van Gogh)
Cansaram-se de caminhar
ou o caminho se cansou?

AUTORRETRATO COM COPO DE VINHO (Chagall)
Seja celebrada a alegria nas alturas
por cima dócil das mulheres.
A cavalo melhor se chega ao céu.

QUADRO I (Mondrian)
Universo passado a limpo.
Linhas tortas ou sensuais desaparecem.
A cor, fruto de álgebra, perdura.

CARNAVAL DE ARLEQUIM (Miró)
Descobri que a vida é bailarina
e que nenhum ponto inerte
anula o viravoltear das coisas.

FUZILAMENTO NA MONCLOA (Goya)
Balé de tiros gritos corpos derrubados.
A lanterna tranquila
acena para a esperança da Ressurreição.

AS TRÊS GRAÇAS (Rubens)
Curvilíneos volumes se consultam
e concluem:
Beleza é redundância.

PIETÀ (Miguel Ângelo)
Dor é incomunicável.
O mármore comunica-se,
acusa-nos a todos.

A DUQUESA DE ALBA (Goya)
Ser o cachorrinho da Duquesa
é de certo modo
ser uma partícula da Duquesa.

GIOCONDA (Da Vinci)
O ardiloso sorriso
alonga-se em silêncio
para contemporâneos e pósteros,
ansiosos, em vão, por decifrá-lo.
Não há decifração. Há o sorriso.

RETRATO DE ERASMO DE ROTTERDAM
(Quentin Metsys)
Santidade de escrever,
insanidade de escrever
equivalem-se. O sábio
equilibra-se no caos.
Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.

Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.

Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.

Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.

No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.

Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...

Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.

Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.

Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.

Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...

Vi moças gritando
numa tempestade.
O que elas diziam
o vento largava,
logo devolvia.
Pávido escutava,
não compreendia.
Talvez avisassem:
mocidade é morta.
Mas a chuva, mas o choro,
mas a cascata caindo,
tudo me atormentava
sob a escureza do dia,
e vendo,
eu pobre de mim não via.

Vi moças dançando
num baile de ar.
Vi os corpos brandos
tornarem-se violentos
e o vento os tangia.
Eu corria ao vento,
era só umidade,
era só passagem
e gosto de sal.

A brisa na boca
me entristecia
como poucos idílios
jamais o lograram;
e passando,
por dentro me desfazia.

Vi o sapo saltando
uma altura de morro;
consigo levava
o que mais me valia.
Era algo hediondo
e meigo: veludo,
na mole algidez
parecia roubar
para devolver-me
já tarde e corrupta,
de tão babujada,
uma velha medalha
em que dorme teu eco.

Vi outros enigmas
à feição de flores
abertas no vácuo.
Vi saias errantes
demandando corpos
que em gás se perdiam,
e assim desprovidas
mais esvoaçavam,
tornando-se roxo,
azul de longa espera,
negro de mar negro.
Ainda se dispersam.
Em calma, longo tempo.
nenhum tempo, não me lembra.

Vi o coração de moça.
esquecido numa jaula.
O excremento de leão,
apenas. E o circo distante.
Vi os tempos defendidos.
Eram de ontem e de sempre,
e em cada país havia
um muro de pedra e espanto,
e nesse muro pousada
uma pomba cega.

Como pois interpretar
o que os heróis não contam?
Como vencer o oceano
se é livre a navegação
mas proibido fazer barcos?
Fazer muros, fazer versos,
cunhar moedas de chuva,
inspecionar os faróis
para evitar que se acendam,
e devolver os cadáveres
ao mar, se acaso protestam,
eu vi; já não quero ver.

E vi minha vida toda
contrair-se num inseto.
Seu complicado instrumento
de vôo e de hibernação,
sua cólera zumbidora,
seu frágil bater de élitros,
seu brilho de pôr de tarde
e suas imundas patas.. .
Joguei tudo no bueiro.
Fragmentos de borracha
e
cheiro de rolha queimada:
eis quanto me liga ao mundo.
Outras riquezas ocultas,
adeus, se despedaçaram.

Depois de tantas visões
já não vale concluir
se o melhor é deitar fora
a um tempo os olhos e os óculos.
E se a vontade de ver
também cabe ser extinta,
se as visões, interceptadas,
e tudo mais abolido.
Pois deixa o mundo existir!
Irredutível ao canto,
superior à poesia,
rola, mundo, rola, mundo,
rola o drama, rola o corpo,
rola o milhão de palavras
na extrema velocidade,
rola-me, rola meu peito,
rola os deuses, os países,
desintegra-te, explode, acaba!
para Naomi Ginsberg193
1894-1956


I
Estranho pensar em você agora que partiu sem espartilhos & olhos, enquanto percorro o calçamento ensolarado de Greenwich Village
na direção do Centro de Manhattan, meio-dia claro de inverno e passei a noite toda acordado, falando, falando, lendo o Kaddish em voz alta, escutando o grito cego dos blues de Ray Charles na vitrola,
o ritmo, o ritmo – e tua lembrança na minha cabeça três anos depois – E li em voz alta, sozinho, os triunfantes versos finais de Adonais194 –
chorei ao perceber o quanto sofremos –
E o quanto a Morte é o lenitivo sonhado, cantado, profetizado por todos os cantores, como no Hino Hebraico ou no Livro Budista das Respostas – e uma folha murcha em minha própria imaginação – ao amanhecer –
Sonhando de novo através da vida, Teu tempo – e o meu acelerando-se rumo ao Apocalipse,
o momento final – a flor queimando no Dia – e o que virá depois,
olhando a mente que por sua vez enxergou uma cidade americana
num relance, e o grande sonho de Mim ou China ou você ou uma Rússia
fantasma ou uma cama desfeita que nunca existiu –
como um poema escuro – que escapou de volta para o Esquecimento –
Mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado, só os seres no Sonho, agarrados ao desaparecerem,
suspirando, berrando, comprando e vendendo pedaços de fantasma, adorando-se uns aos outros,
adorando o Deus incluído nisso tudo – desejo ou fatalidade? – enquanto dura, uma Visão – mais nada?
Salta ao meu redor enquanto saio e caminho pela rua, olho para trás, Sétima Avenida, a muralha de prédios de escritórios com suas janelas, acotovelando-se altos sob a nuvem, altos por um momento como o céu
– e o céu acima – um velho lugar azul.
ou rua abaixo pela Avenida para o Sul, para – enquanto caminho na direção do Baixo East Side – lá onde você caminhou há 50 anos, menina – da Rússia, comendo os primeiros tomates venenosos da América –
amedrontada no cais –
então debatendo-se na multidão de Orchard Street, para onde? – para Newark –
para as confeitarias, primeiras sodas caseiras do século, sorvete batido à mão no quarto dos fundos em mesas de madeira escura mofada –
Para a educação casamento colapso nervoso, operação, escola normal e aprendendo a ser louca, num sonho – que vida é essa?
Para a Chave na Janela195 – E a grande Chave repousa sua cabeça de luz no topo de Manhattan, no assoalho, repousa na calçada – um só raio de luz que se mexe enquanto desço pela Primeira Avenida na direção do Teatro Iídiche – e do lugar da pobreza
que você conheceu e eu conheci, mas sem preocupar-me agora – Estranho
ter passado por Paterson e o Oeste e a Europa e novamente aqui, agora com os gritos dos espanhóis nas soleiras das portas, meninos negros e escadas de emergência tão velhas quanto você
– Embora você não esteja mais velha, agora isso ficou aqui comigo
Eu, de qualquer modo, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez –
Isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dente no final –
Embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro, a alma em nós, Ah! oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança –
pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio pelado, costela quebrada, pele rasgada, Implacabilidade
Ai, ai! cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte a deixou de fora, a Morte teve piedade, você passou por seu século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – Finalmente passou por você mesma – Pura – De volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo –
Lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Sei para onde foi, tudo bem.
Mais nada de flores nos campos estivais de Nova York, agora mais nada da alegria nem do medo de Louis, 196
e mais nada de sua doçura e óculos, suas décadas de escolas, dívidas, casos amorosos, telefonemas amedrontados, leitos de parto, parentes, mãos –
Mais nada da irmã Elanor – ela partiu antes de você – nós não contamos –
você a matou – ou ela se matou por ter que aguentar você – coração artrítico – Porém a Morte as matou, às duas – Tanto faz –
Nem mais nada de lembranças da sua mãe, lágrimas de 1915 em filmes mudos por semanas e semanas seguidas – esquecendo, sofrendo ao assistir Marie Dressler197 dirigir-se à humanidade, Chaplin jovem dançando,
ou Boris Godunov, Chaliapin no Met198 elevando sua voz de Czar choroso em pé no saguão com Elanor & Max – olhando também os capitalistas ocuparem seus lugares na plateia, alvos casacos de pele, diamantes, com os Jovens Socialistas, 199 pegando uma carona pela Pennsylvania, bojudas calças pretas de ginástica, fotografias de 4 garotas cada qual com as mãos na cintura da outra, olhar risonho, tão recatadas, solidão virginal de 1920,
todas essas meninas envelheceram ou já morreram, e suas longas cabeleiras no túmulo – felizes ao arranjarem maridos mais tarde –
Você conseguiu – eu também cheguei! – meu irmão Eugene antes – até hoje se afligindo e se apertando até sua última mão enrijecida enquanto convive com seu câncer – ou se matará – mais tarde talvez – logo pensará –
E este é o último momento do qual me lembro, no qual os vejo todos, agora através de mim – mas não vejo você
Não antevi o que você sentiu – qual abismo mais horrendo desdentado de boca estragada chegou primeiro – para você – e estava você preparada?
Para ir aonde? Para aquela escuridão – aquela – aquele Deus? um clarão?
Um senhor no Vazio? como um olho dentro da nuvem negra no sonho?
Adonais finalmente com você?
Ultrapassa minha lembrança! Incapaz de adivinhar! Não é só o crânio amarelo no túmulo ou uma caixa de pó com vermes e uma tira de pano encardido – Caveira com auréola? Podes crer?
Será apenas o sol que brilha uma única vez para a mente, só o clarão da existência que já foi?
Nada além do que temos – do que você teve – tão pouca coisa – no entanto, Triunfo
por teres estado aqui e te transformado, como árvore caída ou flor – ligada ao solo – mas louca, com suas pétalas coloridas pensando no Grande Universo, abalada, a copa cortada, folha arrancada, escondida num hospital como um caixote vazio de ovos, trouxa de roupas, amarga –
perdida no cérebro lunático da Lua, anulação.
Nenhuma flor igual a essa flor que sabia estar no jardim e que lutou contra a faca – e que perdeu
Decepada pelo alfanje gelado do imbecil Boneco de Neve – e isso na Primavera – estranho pensamento fantasmagórico – que Morte – Afiado gume de gelo na mão – coroado de rosas murchas – um cachorro no lugar dos olhos – uma fábrica de escravos como caralho200 – coração de ferro elétrico.
Todas as acumulações da vida que nos consomem – relógios, corpos, consciência, sapatos, seios – filhos paridos – seu Comunismo –
“paranoia” nos hospitais.
Certa vez você chutou Elanor na perna, mais tarde ela morreu do coração.
Você de derrame. Dormindo? no espaço de um ano, vocês duas, irmãs
na morte. Estará Elanor feliz?
Max padece sozinho num escritório no Baixo Broadway, solitários bigodões sobre relatórios de Contabilidade a noite toda, algo assim. Sua vida passa – como é que ele a vê – e do que duvida agora? Ainda sonhando com ganhar dinheiro ou que poderia ter ganho dinheiro, contratado babá, tido filhos, até mesmo ter achado tua Imortalidade,
Naomi?
Logo o verei. Agora preciso continuar – para conversar com você – assim como eu não o fiz enquanto você tinha boca.
Para sempre. E estamos fadados a isso, Para Sempre – como os cavalos de Emily Dickinson201 – voltados para o Fim.
Eles conhecem o caminho – Esses Corcéis – correm mais rápido do que pensamos – é nossa própria vida que eles cruzam – e carregam consigo.
Magnífica, não mais carpida, golpeada no coração, mente para trás, sonhada casada mortal mudada – Bunda e rosto acabados com assassinato.
No mundo, doada, enlouquecida flor, Utopia que não chegou a ser, encerrada sob o lenho, consolada na Terra, confortada no Ermo, Jeová, aceita.
Inominado, Face Una, Para sempre além de mim, sem começo, sem fim, Pai da Morte. Ainda que eu não esteja preparado para esta Profecia, eu que não me casei, eu sem hinos, eu sem Céu, sem meta na bem-aventurança, ainda assim te adorarei.
A ti, Céu depois da morte, Único abençoado no Vazio, nem luz nem escuridão, Eternidade Sem Dias –
Recebe isto, este salmo, vindo de mim, um dia jorrado da minha mão, alguma coisa do meu Tempo agora entregue ao Nada – para louvar-Te –
Porém a Morte
Este é o fim, a redenção da Selvageria, caminho para o Maravilhado, casa almejada por Todos, lenço negro lavado pelas lágrimas – página para além do Salmo – Última transformação minha e de Naomi – rumo à perfeita Escuridão de Deus – Morte, para teus fantasmas!


II
De volta e de volta – refrão – dos Hospitais – ainda não escrevi tua
história – deixá-la abstrata – umas poucas imagens passam pela cabeça – como o coro de saxofone das casas e dos anos –
lembrança de eletrochoques.
Por aquelas longas noites quando criança no apartamento em Paterson, observando teu nervosismo – você era gorda – seu próximo passo –
Por aquela tarde quando fiquei em casa em vez de ir à escola, para cuidar de você – de uma vez por todas – quando fiz um voto para sempre, já que o homem discordava da minha opinião sobre o cosmos, então eu estava perdido –
Por minha missão mais tarde – promessa de iluminar a humanidade –
isto é, soltar partículas – (louco como você) – (sanidade um truque convencional) –
Mas você olhava pela janela para a esquina da Igreja de Broadway e espreitava um assassino místico de Newark,
Assim, telefonei para o Doutor – “OK, leve-a para repousar” – assim, vesti meu casaco e levei-a rua abaixo – No caminho, um garoto da escola berrou inesperadamente – “Para onde vai, senhora, para a Morte?”
Estremeci –
E você tapou o nariz com a gola de pele comida pelas traças, máscara antigases contra o veneno infiltrado na atmosfera da cidade, espalhado pela Vovó –
E quem seria o motorista da camioneta de queijos, se não um membro da quadrilha? Você teve um sobressalto ao vê-lo, mal podia conduzi-la –
para Nova York, Times Square mesmo, pegar outro ônibus da Greyhound –
– e lá ficamos parados umas 2 horas combatendo insetos invisíveis e doença judaica – brisa venenosa de Roosevelt –
soltos para pegá-la – e eu acompanhando-a, torcendo para que tudo
acabasse bem num quarto sossegado numa casa vitoriana junto a um lago.
3 horas de viagem por túneis passando por toda a indústria americana, Bayonne preparando-se para a Segunda Guerra Mundial, tanques, refinarias, fábricas de soda, refeitórios, rotundas fortificadas das locomotivas – até os pinheirais de índios de Nova Jersey – cidades tranquilas – longas estradas por bosques arenosos –
Pontes atravessando riachos sem cervos, antigos colares de contas enchendo o leito arenoso – lá embaixo, uma machadinha ou osso de Pocahontas – e um milhão de velhas votando em Roosevelt nas suas casinhas pintadas de marrom, estradas saindo da rodovia da loucura –
talvez um gavião numa árvore ou um ermitão procurando um galho cheio de corujas –
O tempo todo reclamando – com medo dos estranhos no banco da frente, roncando descuidadamente – em que viagem de ônibus estarão eles roncando agora?
“Allen, será que você não entende – é que – desde que enfiaram aquelas 3 varas grandes nas minhas costas – fizeram qualquer coisa comigo no Hospital, me envenenaram, querem me ver morta – 3 varas grandes, 3 varas grandes –
“A Puta! Vovó! Semana passada a vi, vestindo calças como um velho, um saco nas costas, subindo no prédio pela parede de tijolos
“Na escada de emergência, com germes de veneno, para jogar em mim
– à noite – talvez Louis a esteja ajudando – está dominado por ela –
“Eu sou sua mãe, leve-me para Lakewood” (perto do lugar onde o Graf Zeppelin havia caído, todo Hitler na Explosão) “onde eu possa me esconder”.
Chegamos lá – a casa de repouso do Dr. Whatzis – ela escondeu-se
atrás de um armário – exigiu transfusão de sangue.
Fomos postos para fora – caminhando com a maleta rumo a
desconhecidas casas com gramados à sombra – anoitecer, penumbra entre os pinheiros – longas ruas mortas cheias de grilos e urtigas –
Então já havia mandado ela calar a boca – casa grande CASA DE
REPOUSO, QUARTOS – deixei o pagamento para a semana com a senhoria – levei a maleta de ferro para dentro – sentei na cama esperando a hora de fugir –
Quarto limpo no sótão com uma colcha acolhedora – cortinas de laçarotes – tapete tecido à mão – Papel de parede manchado tão velho quanto Naomi – Estávamos em casa –
Parti no ônibus seguinte para Nova York – reclinei a cabeça no encosto do último banco, deprimido – o pior ainda por vir – deixando-a, viajei entorpecido – eu só tinha 12 anos.
Iria ela esconder-se no quarto para descer alegremente na hora do café?
Ou trancaria a porta para espreitar pela janela procurando espiões nas esquinas? Escutando o invisível gás Hitleriano pelo buraco da fechadura?
Sonhando numa poltrona – ou divertindo-se às minhas custas – diante de um espelho, só?
Aos 12 anos atravessando Nova Jersey de ônibus à noite, deixando Naomi entregue às Parcas na casa mal-assombrada de Lakewood – eu entregue ao ônibus do meu destino – afundado no assento – todos os violinos partidos – meu coração amargurado entre minhas costelas –
mente vazia – estivesse ela em segurança no seu caixão –
Ou então de volta à Escola Normal de Newark, estudando sobre a América de saia negra – inverno nas ruas sem almoço – um tostão, um pão202 – à noite em casa para cuidar de Elanor no quarto –
Primeiro colapso nervoso em 1919 – ficou em casa deitada no quarto escuro sem ir à escola por três semanas – alguma coisa ruim – nunca disse o que foi – todo ruído machucava – sonhando com as fendas de Wall Street

Antes da depressão cinzenta – mudou-se para o Estado de Nova York –
sarou – Louis tirou uma foto sua de pernas cruzadas na grama – seus longos cabelos com flores – sorrindo – tocando canções de ninar num bandolim – a fumaça das urtigas em colônias de férias de tendências esquerdistas e eu vendo árvores na infância –
ou de novo lecionando, rindo com os idiotas, as turmas mais atrasadas
– sua especialidade russa – idiotas de lábios sonhadores, olhos grandes, pés delgados & dedos doentios, recurvados, raquíticos –
cabeças grandes balançando sobre Alice no País das Maravilhas, um quadro-negro cheio de G A T O.
Naomi lendo pacientemente, histórias tiradas de um livro de contos de fadas comunistas – História da Súbita Doçura do Ditador – Clemência dos Bruxos – Exércitos beijando-se –
Caveiras ao redor da Mesa Verde – O Rei & os Trabalhadores – o Jornal de Paterson os publicou nos anos 30 até ela enlouquecer eles ou eles fecharem ou ambas as coisas.
Ó, Paterson! Cheguei tarde em casa aquela noite. Louis estava preocupado. Como podia eu ser tão – será que não pensava? Não a devia ter largado lá. Louca em Lakewood. Chamar o médico. Telefonar para a casa no pinheiral. Tarde demais.
Fui para a cama exausto, querendo largar o mundo (provavelmente de novo apaixonado por R aquele ano – meu herói do colégio na minha mente, garoto judeu que mais tarde se tornou médico, então um garoto
quieto e fino –
Eu mais tarde dando a vida por ele, mudei-me para Manhattan – segui-o na Faculdade – Rezei na balsa prometendo ajudar a humanidade se entrasse – prometi, o dia que fui fazer o vestibular –
que seria honesto revolucionário advogado trabalhista – me prepararia para isso – inspirado em Sacco Vanzetti, Norman Thomas, Debs, Altgeld, Sandburg, Poe – Brochuras Azuis. 203 Pretendia ser Presidente ou então Senador.
promessa ingênua – depois sonhos de prosternar-me diante dos joelhos escandalizados de R declarando meu amor em 1941 – Que doçura haveria ele de me mostrar, pois, a mim que tanto o desejara e tanto me desesperara
– primeiro amor – um choque –
Mais tarde uma avalanche mortal, montanhas de homossexualismo, Matterhorns de caralho, Grand Canyons de cu – pesando na minha cabeça melancólica –
enquanto isso caminhava pela Broadway imaginando o Infinito como uma bola de borracha sem espaço além dela – e o que existiria fora dela? –
voltando para casa na Graham Avenue ainda melancólico passando pelas solitárias cercas de arbustos ao longo da rua, sonhando depois do cinema –
)
O telefone tocou às 2 da madrugada – Emergência – ficou louca –
Naomi escondendo-se debaixo da cama gritando por causa dos percevejos de Mussolini – Socorro! Louis! Buba! 204 Fascistas! Morte! – a dona da pensão aterrorizada – o empregado bicha velha gritando com ela –
Terror que despertou os vizinhos – velhas do segundo andar recuperando-se da menopausa – todos aqueles trapos entre coxas, lençóis limpos, tristes por bebês perdidos – maridos cinéreos – filhos troçando em
Yale ou passando brilhantina no cabelo na Universidade de Nova York – ou tremendo na Faculdade de Educação de Montclair como Eugene –
Sua perna grossa dobrada até o peito, mão estendida Afastem-se, vestido de lã na altura das coxas, casaco de pele puxado para baixo da cama – entrincheirada com as malas ao pé da cama.
Louis de pijama ao telefone ouvindo apavorado – agora? Quem poderia resolver? – minha culpa, despachando-a para a solidão – sentado no quarto escuro, no sofá, trêmulo, tentando resolver –
Tomou o trem da manhã para Lakewood, Naomi sob a cama – pensou
que ele estivesse trazendo policiais com veneno – Naomi gritando – Louis, o que então aconteceu com seu coração? – Teria ele sido morto pelo êxtase de Naomi?
Arrastou-a para fora, dobrando a esquina, táxi, enfiou-a para dentro com a maleta mas o motorista os largou na frente da drogaria205 – Ponto de ônibus, duas horas de espera.
Eu nervoso, deitado na cama do apartamento de 4 cômodos, a cama grande da sala, junto à escrivaninha de Louis – tremendo – ele chegou tarde da noite em casa, contou-me o que acontecera.
Naomi no balcão dos remédios defendendo-se do inimigo – revoadas de livros infantis, saquinhos de banho de espuma, aspirinas, vidros, sangue

Louis aterrorizado junto ao balcão dos refrigerantes – com escoteiras de Lakewood – viciadas em Coca – enfermeiros – motoristas de ônibus esperando seu turno – Policiais da delegacia local, perplexos – e um padre, sonhando com porcos num antigo penhasco?
Farejando o ar – Louis apontando para o vazio? Fregueses vomitando suas Cocas – ou encarando – Louis humilhado – Naomi triunfante – A
Revelação da Conspiração. O ônibus chega, os motoristas não os levarão para Nova York.
Telefonema para o Dr. Whatzis, “ela precisa ser internada”, o Hospital psiquiátrico – Médicos do Estado em Greystone – Traga-a para cá, Mr.
Ginsberg.
Naomi, Naomi – suando, olhos esbugalhados, gorda, o vestido desabotoado de lado – cabelo na testa, meias malignamente caídas nas pernas – gritando que queria transfusão de sangue – uma mão reivindicatória levantada – sapato na mão – descalça na Farmácia –
A chegada dos inimigos – quais venenos? Gravadores? FBI?
Zdanov206 escondido atrás do balcão? Trotsky criando bacilo de rato no fundo da loja? Tio Sam em Newark, preparando mortais perfumes no bairro negro? Tio Ephraim, bêbado de assassinatos no bar dos políticos, tramando algo para Haia? Tia Rose afiando as agulhas da Guerra Civil Espanhola? 207
Até que a ambulância alugada por 35 dólares veio de Red Bank –
Agarraram-na pelos braços – ataram-na à padiola – gemendo, envenenada por coisas imaginárias, vomitando química através de Jersey, pedindo piedade desde Essex Country até Morristown –
E de volta a Greystone onde ficou por três anos – esse foi o ataque final, devolveu-a mais uma vez ao Hospício –
Em que pavilhões – andei por lá mais tarde, muito – velhas senhoras catatônicas? cinzentas como nuvens ou cinza ou paredes – sentadas cantarolando pelo chão – Cadeiras – e as bruxas encarquilhadas, reclamando – implorando por minha misericórdia de 13 anos de idade –
“Leve-me para casa” – Algumas vezes fui sozinho em busca da Naomi
perdida tomando eletrochoques – e eu dizia, “Não, Mamãe você está louca,
– Confie nos Drs.”
E Eugene, meu irmão, seu filho mais velho, estudando direito fora de casa num quarto mobiliado em Newark –
Chegou a Paterson no dia seguinte – sentou-se no sofá cambaio da sala
– “Tivemos de mandá-la de volta a Greystone” –
– sua cara perplexa, tão jovem, então só olhos com lágrimas – então só lágrimas rastejando pelo seu rosto – “Para quê?”, lamento vibrando no seu maxilar, olhos fechados, voz aguda – a cara da dor de Eugene.
Ele longe, refugiado num elevador da Biblioteca de Newark, sua garrafa diária de leite no peitoril da janela do apartamento mobiliado por 5
dólares a semana no Centro dos trilhos do bonde –
Ele trabalhava 5 horas por dia a 20 dólares/semana – durante os anos da Faculdade de Direito – permaneceu só e inocente perto dos prostíbulos dos negros.
Sem trepar, pobre virgem – escrevendo poemas sobre Ideais e cartas políticas para o editor do Pat Eve News208 – (ambos escrevíamos, denunciando o Senador Borah e os Isolacionistas – e sentindo algo de misterioso no Paço Municipal de Paterson –
Esgueirei-me lá dentro uma vez – torre do Moloch local com um pináculo fálico e cimeira ornamentada, estranha Poesia gótica plantada na Market Street – réplica do Hotel de Ville de Lyon –
alas, balcões e portais ornamentados, entrada para o gigantesco relógio da cidade, quarto secreto de mapas cheios de Haworthone209 – escuros Socialistas na comissão de Finanças – Rembrandt fumando na penumbra –
Silenciosas mesas envernizadas na grande sala de reuniões –
Vereadores? Comissão de Finanças? – Mosca, o cabeleireiro, conspirando
– Crapp, o gângster, dando ordens a partir da privada – Briga de loucos por
Zonas, Bombeiros, Tiros & Metafísica de Quartinho dos Fundos – estamos todos mortos – lá fora, no ponto de ônibus, Eugene mirava através da sua infância – na qual o Pastor Evangelista pregou loucamente por 3 décadas, cabelo arrepiado, pirado & fiel à sua Bíblia desprezível – rabiscou Prepara-te para Encontrar Teu Deus na calçada cívica –
Ou Deus é Amor na passarela sobre a ferrovia – delirava como eu deliraria, o solitário Evangelista – morte no Paço Municipal – )
Mas Gene, jovem – na Faculdade de Educação de Montclair por 4 anos
– lecionou por um semestre & largou tudo para seguir em frente na vida –
com medo dos Problemas Disciplinares – estudantes italianas de sexo escuro, garotas rudes dando trepadas, nada de inglês, sonetos deixados de lado – e ele não sabia muita coisa – só o que perdeu –
assim partiu sua vida em duas e entrou em Direito – manuais azuis realmente grandões e conduzindo o velho elevador a 13 milhas de distância em Newark e estudou para valer para o futuro.
acabara de deparar-se com o Grito de Naomi na soleira da porta do seu fracasso, pela última vez, Naomi fora-se, nós sozinhos – em casa – ele sentado lá –
Então tome um pouco de canja de galinha, Eugene. O Homem do Evangelho desespera-se diante do Paço Municipal. E esse ano Louis tem amores poéticos de meia-idade de subúrbio – em segredo – música de seu livro de 1937 – Sincero – ele aspira à beleza –
Nenhum amor desde que Naomi gritou – desde 1923? – agora perdida
no pavilhão de Greystone – novo choque para ela – Eletricidade seguindo a Insulina 40.
E o metrasol a fez engordar.
Eis que alguns anos mais tarde ela voltou de novo para casa –
havíamos antecipado e planejado muita coisa – eu esperava por aquele dia
– minha Mãe de novo para cozinhar & – tocar piano – cantar ao bandolim
– Ensopado de Bofe, & Stenka Razin, 210 & a linha comunista na guerra com a Finlândia – e Louis endividado – suspeita de ser dinheiro envenenado – capitalismos misteriosos
– & percorreu o longo saguão da entrada & olhou a mobília. Ela nunca lembrou de tudo. Alguma amnésia. Examinou as toalhinhas de mesa – e o conjunto da sala de jantar havia sido vendido –
a mesa de Mogno – 20 anos de amor – foi para o brechor – ainda tínhamos o piano – e o livro de Poe – e o Bandolim, empoeirado, precisando de cordas –
Ela foi para o quarto dos fundos deitar-se na cama e ruminar ou tirar uma soneca, esconder-se – Entrei com ela, não deixá-la sozinha – deitei-me a seu lado – venezianas fechadas, penumbra, fim de tarde – Louis na sala da frente, na mesa, esperando – talvez cozinhando galinha para o jantar –
“Não tenha medo de mim só porque estou voltando do Sanatório – Sou sua mãe –”
Pobre amor, perdido – que medo – eu deitado lá – Disse, “Te amo, Naomi”, – duro, junto a seu braço. Teria chorado, era essa a união solitária sem consolo? – Nervosa e logo se levantou.
Estaria ela satisfeita alguma vez? E – veio sentar-se no sofá novo junto à janela da frente, pouco à vontade – queixo apoiado na mão – estreitando os olhos – para qual fatalidade naquele dia –
Palitando seus dentes com a unha, lábios formando um O, suspeita –
velha vagina gasta do pensamento – ausente olhar de soslaio – alguma dívida maligna anotada na parede, a ser paga & os envelhecidos seios de
Newark chegando perto –
Pode ter escutado uma intriga no rádio pelos fios elétricos da sua cabeça controlada pelas 3 grandes varas deixadas nas suas costas por gângsteres da amnésia, durante o hospital – doíam entre os ombros –
Na sua cabeça – Roosevelt devia saber do seu caso, contou-me – com medo de matá-la, agora que o governo conhecia seus nomes – rastreados até Hitler – queria deixar a casa de Louis para sempre.
Uma noite, súbito ataque – seu barulho no banheiro – como se fosse sua alma crocitando – convulsões e vômito vermelho saindo da sua boca –
água de diarreia explodindo do seu traseiro – de quatro diante da privada –
urina escorrendo entre suas pernas – largada vomitando no chão de azulejos lambuzados com suas fezes negras – sem desmaiar –
Aos quarenta, varicosa, nua, gorda, condenada, escondendo-se do lado de fora do apartamento junto ao elevador, chamando a Polícia, gritando para que sua amiga Rose viesse socorrê-la –
Uma vez trancou-se com lâmina de barbear ou iodo – podia ouvi-la tossindo em prantos no lavabo – Louis arrombou a porta pelo vidro pintado de verde, arrastamo-la até o quarto.
Então quieta por meses aquele inverno – passeios sozinha, lá perto na Broadway, lia o Daily Worker. 211 Quebrou o braço, caindo na rua gelada –
Começou a planejar sua fuga das conspirações financeiras cósmicas assassinas – mais tarde fugiu até o Bronx para sua irmã Elanor. E aí está outra saga da finada Naomi em Nova York.
Ou por Elanor ou pela Associação dos Trabalhadores onde trabalhava, endereçando envelopes, ela foi levando – fazia compras de sopa de tomates Campbell’s – economizava o dinheiro que Louis lhe mandava –
Mais tarde arranjou um namorado e era médico – Dr. Isaac trabalhava
para o Sindicato Nacional dos Marítimos – agora uma velha boneca italiana gorda, atarracada e calva – e ele também era órfão – mas o puseram na rua – Velhas crueldades –
Mais desarrumada, sentada na cama ou na cadeira, de combinação, sonhando sozinha – “Estou com calor – Estou ficando gorda – Eu tinha um corpo tão bonito antes de ir para o hospital – Deviam ter me visto em Woodbine –” Isso num quarto mobiliado perto da sede do Sindicato dos Marítimos, 1943.
Olhando as fotos dos bebês nus nas revistas – anúncios de talco para nenê, papinha de cenoura espremida com carne – “Não pensarei em nada a não ser pensamentos belos.”
Virando a cabeça, dando voltas e voltas ao redor do pescoço em hipnose à luz da janela no verão, em recordações de sonho –
“Toco no seu rosto, toco no seu rosto, ele toca meus lábios com sua mão, eu tenho pensamentos belos, o bebê tem uma mão tão bonita.” –
Ou um repelão-Não no seu corpo, repugnância – algum pensamento de
Buchenwald212 – alguma insulina passando por sua cabeça – um sobressalto nervoso de careta do Involuntário – (como o estremecimento quando mijo) – má química da sua córtex – “Não, não pense nisso. Ele é um rato.”
Naomi: “E quando morremos nos transformamos numa cebola, num repolho, numa cenoura, numa abóbora, numa verdura.” Eu cheguei de Columbia para a cidade e concordo. Ela lê a Bíblia, pensa pensamentos belos o dia todo.
“Ontem eu vi Deus. Como ele é? Bem, à tarde subi por uma escada –
ele tem uma casinha modesta no campo, como em Monroe, NY, as granjas de galinhas no bosque. É um velho solitário com uma barba branca.
“Cozinhei o jantar para ele. Fiz um belo jantar – sopa de lentilha, verduras, pão e manteiga, – leite – ele sentou-se à mesa e comeu, estava triste.
“Eu lhe disse, Veja todas essas lutas e matanças acontecendo por aqui, O que há? Por que não dá um jeito nisso?
“Eu tento, disse ele – É tudo que posso fazer, parecia cansado.
Continua solteiro até hoje e gosta de sopa de lentilha.” Servindo-me enquanto isso um prato de peixe frio – repolho cru picado encharcado de água da torneira – tomates mal cheirosos – comida dietética velha de semanas – beterraba & cenoura ralada com molho aguado, morno – mais e mais dessa lamentável comida – às vezes não consigo comê-la de náusea –
a Caridade das suas mãos fedendo a Manhattan, loucura, desejo de agradar-me, peixe frio mal cozido – vermelho pálido junto ao osso. Seus cheiros – e frequentemente nua no quarto, então olho para a frente ou folheio um livro ignorando-a.
Certa vez achei que estava querendo que eu trepasse com ela –
flertando consigo mesma no lavabo – deitada na cama enorme que ocupava a maior parte do quarto, vestido levantado até os quadris, grande talho de pelos, cicatrizes de operação, pâncreas, feridas no ventre, abortos, apêndice, as marcas dos cortes destacando-se na gordura como horríveis zíperes grossos longos lábios esgarçados entre suas pernas – O que, até mesmo cheiro de cu? Fiquei frio – mais tarde um pouco enojado, não muito – pareceu uma boa ideia talvez tentar – conhecer o Monstro do Útero Inicial – talvez – dessa maneira. Iria ela se incomodar? Precisa de um amante.
Yisborach, v’istabach, v’yispoar, v’yisroman, v’yisnaseh, v’yisshador, v’yishalleh, v’yishallol, sh’meh, d’kudsho, b’rich hu213
E Louis recuperando-se no apartamento encardido do bairro negro de Newark – morando em quartos escuros – mas encontrou uma garota com a qual mais tarde se casou, apaixonando-se de novo – embora marcado e tímido – ferido por 20 anos do louco idealismo de Naomi.
Certa vez voltei para casa depois de muito tempo em NY, ele solitário
– sentados no quarto de dormir, ele na cadeira da escrivaninha virada de frente para mim – chorando, lágrimas nos olhos vermelhos sob os óculos –
Que o havíamos deixado – Gene estranhamente entrou no exército – ela vivendo fora por sua conta, quase infantil no seu quarto mobiliado. Assim, Louis caminhava até o centro para buscar a correspondência, dava aulas no colégio – sentava-se à escrivaninha da poesia, desamparado – comeu sofrimento no Bickford’s aqueles anos todos – passados.
Eugene saiu do Exército e voltou para casa, mudado e solitário – cortou fora o nariz na operação judaica – durante anos abordando garotas na Broadway oferecendo-lhes cafezinhos para transar com elas – Entrou na Universidade de Nova York, a sério, para terminar Direito –
E Gene morou com ela, comeu suas tortas vagabundas de peixe enquanto ela ficava cada vez mais louca – Emagreceu ou sentiu-se incapaz, Naomi exibindo poses de 1920 para a Lua, seminua na cama ao lado.
roía as unhas e estudava – era o filho-enfermeiro da louca – Ano seguinte mudou-se para um quarto perto de Columbia – pensara que ela queria viver com os filhos –
“Ouça a súplica da sua mãe, peço-lhe” – Louis ainda lhe mandando cheques – aquele ano eu estive no hospício por 8 meses214 – minhas próprias visões não mencionadas neste Lamento aqui –
Mas então ficou meio doida – Hitler no seu quarto, via seu bigode no
lavabo – agora com medo do Dr. Isaac, desconfiando que ele estivesse na conspiração de Newark – mandou-se para Bronx e foi viver junto ao Coração Reumático de Elanor –
E Tio Max nunca levantava antes do meio-dia, porém Naomi já ligava o rádio às 6 da manhã, procurando espiões – ou vigiando o peitoril da janela,
pois no terreno baldio embaixo rastejava um velho com seu saco, enfiando pacotes de lixo no seu capote preto.
Edie, irmã de Max, trabalha – por 17 anos guarda-livros na Gimbels215 – morava num apartamento embaixo, divorciada – assim, Edie acolheu Naomi na Avenida Rochambeau –
Cemitério de Woodlawn do outro lado da rua, amplo campo de tumbas
onde Poe certa vez – Última parada do metrô de Bronx – monte de comunistas naquela zona.
Que então se matriculou nas aulas noturnas de pintura da Escola para Adultos do Bronx – caminhava sozinha para a aula sob o Elevado Van Courtland – pintava Naomismos –
Seres humanos sentados na grama de alguma Colônia de Férias da Despreocupação dos verões de outrora – santos cabisbaixos com longas calças mal ajambradas, do hospital –
Noivas na frente do Baixo East Side com noivos baixinhos – trens perdidos do Elevado correndo sobre a cobertura da babilônia dos prédios de apartamento do Bronx –
Pinturas tristes – mas ela se expressava. Seu bandolim acabara, todas as cordas partidas na sua cabeça, ela tentava. Em direção à Beleza? ou a alguma velha Mensagem de vida?
Mas começou a chutar Elanor e Elanor tinha um problema de coração –
subia para interrogá-la sobre Espionagem durante horas – Elanor extenuada. Max fora de casa no escritório, fazendo a contabilidade de tabacarias até a noite.
“Eu sou uma grande mulher – e verdadeiramente uma bela alma – por
isso eles (Hitler, Vovó, Hearst, 216 os Capitalistas, Franco, o Daily News, os anos 20, Mussolini, os mortos-vivos) querem silenciar-me. Buba é a chefe de uma rede de espionagem – ”
Chutando as meninas, Edie & Elanor – Despertava Edie à meia-noite para dizer-lhe que ela era uma espiã e Elanor um rato. Edie trabalhava o dia todo e não aguentava – Estava organizando o Sindicato – E Elanor começou a morrer no andar de cima, na cama.
Os parentes me chamam, ela está piorando – Só sobrara eu – Fui de metrô com Eugene para vê-la, comi peixe velho –
“Minha irmã cochicha pelo rádio – Louis deve estar no seu apartamento – sua mãe lhe diz o que falar – MENTIROSOS! – Preparei comida para meus dois filhos – toquei bandolim –”
A noite passada a cotovia me despertou / A noite passada quando tudo estava quieto / cantava na dourada luz da lua / cantava na colina gelada.
Ela fez.
Empurrei-a contra a porta e gritei “NÃO CHUTE ELANOR!” – ela me
olhou – Desprezo – morrer – incrédula, seus filhos tão ingênuos, tão bobos
– “Elanor é o pior dos espiões! Ela está sendo comandada!”
“– Não há fios no quarto!” – Estou gritando com ela – última tentativa, Eugene escutando na cama – o que poderia fazer para fugir dessa Mamãe fatal – “Você separada de Louis faz anos – Vovó velha demais para andar –

De repente estamos todos vivos – até eu & Gene & Naomi num
mitológico quarto primordial – gritando uns com os outros no Para Sempre – Eu de jaqueta de Columbia, ela semidespida.
Eu socando aquela cabeça que via Rádios, Varas, Hitlers – a escala completa das alucinações – de verdade – seu próprio universo – nenhuma estrada levando a outro lugar – nem ao meu – nenhuma América, nem mesmo um mundo –
No qual você vá como todos os homens, como Van Gogh, como Hannah a louca, tudo a mesma coisa – até a sentença final – Trovão, Espíritos, Relâmpago!
Eu vi seu túmulo! Ó, estranha Naomi! Meu próprio – túmulo fendido!
Shema Y’Israel217 – Eu sou Svul Avrum218 – você – na morte?
Sua última noite na escuridão do Bronx – telefonei – por meio do hospital para a polícia secreta.
Que veio, quando você e eu estávamos sós, você berrando com Elanor no meu ouvido – ela que arquejava na sua cama, emagrecera –
Tampouco esquecerei, diante das batidas na porta, seu terror dos espiões, – a Lei que avança, pela minha honra – Eternidade entrando no quarto – você fugindo para o banheiro, nua, escondendo-se num protesto de derradeiro destino heroico –
olhando-me nos meus olhos, traída – os policiais finais da loucura, salvando-me – do seu pé contra o coração partido de Elanor,
sua voz para cima de Edie exausta de Gimbels chegando em casa para o rádio quebrado – e Louis precisando de um divórcio barato, ele quer casar logo – Eugene sonhando, escondendo-se na rua 125, movendo ações contra negros para fazê-los pagarem mobília de segunda mão, defendendo garotas negras –
Protestos no banheiro – Disse que estava sã – vestindo uma roupa de
algodão, seus sapatos então novos, sua bolsa e recortes de jornais – não sua honestidade –
enquanto inutilmente tornava seus lábios mais reais com baton, olhando pelo espelho para ver se a Insanidade era eu ou um carro cheio de policiais
ou Vovó espionando aos 78 – Sua visão – Ela subindo pelas paredes do cemitério com um saco de sequestrador político – ou o que você viu nos muros de Bronx, de camisola cor-de-rosa à meia-noite, olhando o terreno baldio pela janela –
Ah, Avenida Rochambeau – Playground de Fantasmas – último prédio
de apartamentos para espiões no Bronx – último lar para Elanor ou Naomi, foi aqui que essas duas irmãs comunistas perderam sua revolução –
“Está certo – ponha seu casaco, Sra. – vamos – Estamos com o carro embaixo – quer vir com ela até a delegacia?”
Então a viagem até lá – segurei a mão de Naomi e segurei sua cabeça junto do meu peito, sou mais alto – beijei-a e disse que estava fazendo aquilo pelo seu próprio bem – Elanor doente – e Max com problemas cardíacos – Necessidades –
Para mim, – “Por que fez isto?” – “Sim Sra. seu filho terá que deixá-la dentro de uma hora” – A Ambulância
demorou umas poucas horas – partiu às 4 da madrugada rumo a algum
Bellevue dentro da noite no centro da cidade – partiu para o hospital para sempre. Vi-a sendo levada – acenava, lágrimas nos olhos.
Dois anos mais tarde, de volta de uma viagem ao México219 –
desolação da paisagem plana de Brentwood, arbustos mirrados e mato ao longo dos trilhos do ramal não utilizado da ferrovia na direção do hospício

prédio central de tijolos novos com 20 andares – perdido nos amplos gramados da cidade de loucos de Long Island – enorme cidade da Lua.
Asilo estendendo suas asas gigantes sobre o caminho para um buraco negro minúsculo – a porta – entrada pelo escroto –
Entrei – cheiro esquisito – de novo os corredores – pelo elevador – até uma porta de vidro no Pavilhão das Mulheres – até Naomi – Duas rosadas enfermeiras de branco – Elas a trouxeram para fora, Naomi me encarou – e eu ofeguei – Ela havia sofrido um derrame –
Muito pequena, encarquilhada até os ossos – a velhice chegara para Naomi – agora alquebrada em cabelos brancos – vestido solto sobre o esqueleto – rosto encovado, velha! definhava – bochecha de anciã –
Uma mão rígida – o peso dos quarenta anos e menopausa reduzidos a
isso por um ataque cardíaco, agora capenga – rugas – uma cicatriz na cabeça, a lobotomia – ruína, a mão apontando para baixo, para a morte –
Ó rosto de russa, mulher na grama, teu comprido cabelo negro será coroado de flores, o bandolim nos teus joelhos –
Beleza Comunista, sentada aqui desposada no verso entre margaridas, felicidade prometida ao alcance da mão –
mãe santa, agora sorri para o amor, seu mundo renasceu, crianças correm nuas pelo campo recoberto de ranúnculos,
elas comem no pomar de ameixeiras no fim do prado onde encontram
uma cabana na qual um preto velho de cabelos brancos conta os segredos da sua barrica de chuva –
filha abençoada vem à América, anseio ouvir de novo tua voz, lembrando a música da tua mãe, a canção do Front Natural –
Ó musa gloriosa que me carregou no ventre, deu-me para sugar a primeira vida mística & ensinou-me a fala e a música, da tua cabeça
sofredora primeiro recebi a Visão –
Torturada e ferida no crânio – Que alucinações loucas dos malditos levaram-me para fora do meu crânio em busca da Eternidade até que eu encontrasse a paz em Ti, Ó Poesia – e em todo o chamamento da humanidade pela Origem,
Morte que és a mãe do universo! – Agora veste tua nudez para sempre, alvas flores no cabelo, teu casamento lacrado atrás do céu – revolução alguma destruirá essa virgindade –
Ó, bela Garbo do meu Carma – todas as fotografias de 1920 na Colônia de Férias Nicht-Gedeiget220 aqui intocadas – com todos os professores de Newark – Elanor não partiu, Max não espera seu espectro – nem Louis se aposentou do Colégio –
De volta! Você! Naomi! Quebranto em você! Imortalidade descarnada
e revolução chegaram – mulher mirrada e alquebrada – aos cinéreos olhares intramuros dos hospitais, cinzento dos pavilhões na pele –
“Você é um espião?” Eu sentado na mesa do amargor, olhos enchendo-
se de lágrimas – “Quem é você? Louis o mandou? Os fios –”
em seu cabelo enquanto batia na cabeça – “Não sou uma menina má –
não me mate! – eu ouço o teto – eu criei dois filhos –”
Dois anos desde que lá estive – comecei a chorar – Ela me encarou – a enfermeira interrompeu o encontro por um momento – entrei no banheiro para esconder-me atrás das brancas paredes do toalete
“O Horror” eu chorando – vê-la de novo – “O Horror” – como se ela
estivesse morta e com a podridão do funeral – “O Horror!”
Voltei, ela gritou mais ainda – levaram-na embora – “Você não é Allen
– ” observei seu rosto – mas ela passou por mim, sem olhar –
Abriu a porta do pavilhão – cruzou-a sem uma olhada para trás,
subitamente sossegada – olhei mais uma vez – ela parecia velha – à beira do túmulo – “Todo o Horror!”
Mais um ano, deixei NY – no chalé da Costa Oeste em Berkeley221
sonhei com sua alma – a qual, através da vida, de que maneira se mantivera naquele corpo, em cinzas ou maníaco, além da alegria –
próxima de sua morte – com olhos – era meu próprio amor em sua forma, Naomi, ainda minha mãe na terra – mandei-lhe uma longa carta –
& escrevi hinos aos loucos – Obra do misericordioso Senhor da Poesia que faz com que a erva arrancada permaneça verde ou que a rocha se abra em ervas – ou que o Sol seja constante para a terra – Sol de todos os girassóis e dias em claras pontes de ferro – que brilha nos velhos hospitais
– assim como em meu jardim –
Voltando certa noite de San Francisco, Orlovsky no meu quarto –
Whalen em sua calma cadeira – um telegrama de Gene, Naomi morta –
Lá fora inclinei minha cabeça até o chão sob os arbustos junto à garagem – sabia que ela estava melhor –
finalmente – não mais deixada para olhar sozinha pela Terra – 2 anos de solidão – ninguém, perto dos 60 anos – velha mulher descarnada –
outrora Naomi de longas tranças da Bíblia –
Ou Ruth que chorou na América – Rebeca envelhecida em Newark –
Davi recordando-se de sua harpa, agora advogado em Yale
ou Svul Avrum – Israel Abraham – eu mesmo – para cantar na selva em louvor a Deus – Ó Elohim! – e assim até o fim – 2 dias depois da morte recebi sua carta –
Estranhas profecias, de novo! Ela escreveu – “A chave está na janela, a chave está na luz do sol na janela – Eu tenho a chave – Case-se Allen não tome drogas – a chave está entre as barras, na luz do sol na janela.
Com amor,
sua mãe”
a qual é Naomi –
HINO
No mundo que Ele criou de acordo com sua vontade Bendito Louvado
Glorificado Celebrado Exaltado o Nome do Santificado Bendito é Ele!
Na casa de Newark Bendito é Ele! Na casa dos loucos Bendito é Ele! Na casa da Morte Bendito é Ele!
Bendito seja Ele na homossexualidade! Bendito seja Ele na Paranoia!
Bendito seja Ele na cidade! Bendito seja Ele no Livro!
Bendito seja Ele que mora na sombra! Bendito seja Ele! Bendito seja Ele!
Bendita seja você Naomi em lágrimas! Bendita seja você Naomi nos medos!
Bendita Bendita Bendita na doença!
Bendita seja você Naomi nos Hospitais! Bendita seja você Naomi na solidão! Bendito seja seu triunfo! Benditas sejam tuas grades! Bendita seja a solidão dos teus últimos anos!
Bendito seja teu fracasso! Bendito seja teu ataque! Bendito seja o fechar dos teus olhos! Bendito seja o encovado da tua face! Benditas sejam tuas coxas murchas!
Bendita sejas tu Naomi na Morte! Bendita seja a Morte! Bendita seja a Morte!
Bendito seja Ele Quem leva todo sofrimento para o céu! Bendito seja Ele no final!
Bendito seja Ele que constrói o Céu na escuridão! Bendito Bendito Bendito seja Ele! Bendito seja Ele! Bendita seja a Morte de Todos nós!


III
Só por não esquecer o começo quando ela bebeu refrigerantes baratos nos necrotérios de Newark,
só por tê-la visto chorar nas mesas cinzentas dos longos pavilhões do seu universo
só por ter conhecido suas ideias malucas de Hitler na porta, os fios na sua cabeça, as três grandes varas
marretadas nas suas costas, as vozes do forro berrando por causa das suas feias trepadas cedo por 30 anos,
só por ter visto os saltos no tempo, a memória apagar-se, o troar das guerras, o rugido e o silêncio de um imenso choque elétrico,
só por tê-la visto pintar grosseiros quadros de trens correndo por cima dos telhados do Bronx
seus irmãos mortos em Riverside ou Rússia, sua solidão em Long Island escrevendo uma carta perdida – e sua imagem na luz do sol na janela
“A chave está na luz do sol na janela nas grades a chave está na luz do sol”,
só por ter chegado até aquela noite escura do ataque numa cama de ferro enquanto o sol se punha em Long Island
e lá fora o vasto Atlântico rugia o grande clamor do Ser para si
mesmo para retornar ao Pesadelo – criação dividida – com sua cabeça pousada num travesseiro de hospital para morrer
– num último relance – toda a Terra uma Luz perene na familiar escuridão
– nada de lágrimas por causa dessa visão –
Mas a chave devia ser deixada para trás – na janela – a chave na luz do sol
– para os vivos – que podem receber
essa fatia de luz nas mãos – e abrir a porta – e olhar para trás enxergando a
Criação que resplandece de volta ao mesmo túmulo, do tamanho do universo,
do tamanho do tique-taque do relógio do hospital no arco sobre a porta branca –


IV
Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de
Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey222 morrendo numa ambulância com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs223
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de
Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo
corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa
ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores


V
Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol224
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có

Senhor NY, 1959
Recitada pelo aluno Antônio de Castro Alves
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;

E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:

Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.

Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;

Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;

Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.

II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.

Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!

Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:

"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;

"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.

"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!

E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.

Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.

Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.

Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.

Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.

Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.

Aqui jaz uma pulga
chamada Cida.
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
Era uma pulga suiCida.

Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!

Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
tinha tanta fome,
que comeu-se a si próprio.
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Hermengarda! ousei amá-la
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!

Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.

O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!

Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.

Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!

Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!

Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.

E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.

Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.

Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.

Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.

Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.

Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.

E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?

Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?

Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.

Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.

E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!

Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!

Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...

Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
O corpo feminino revelado
em sua linha virginal e eterna
(cada manhã, surpresa e novo encontro
a cada novo olhar que nele pouse):
são de Carlos Leão estas figuras
fruto de sua mão ou se criaram
por si mesmas, à luz dos movimentos
que a mulher vai fazendo e desfazendo
no simples existir da intimidade?
A melodia corporal expande-se,
contrai-se, tudo é música no gesto
ou no repouso. O sono, esse escultor,
modela raras formas e aparências.
Carlos Leão, que tudo vê e sente,
recolhe-as no seu traço, com amor.
09/06/1970
I
Chegam pelas ilhas (1493)

Os carniceiros desolaram as ilhas.

Guanahaní foi a primeira
nesta história de martírios.

Os filhos da argila viram partido
seu sorriso, ferida
sua frágil estatura de gamos,
e nem mesmo na morte entendiam.

Foram amarrados c feridos,
foram queimados e abrasados,
foram mordidos e enterrados.

E quando o tempo deu sua volta de valsa
dançando nas palmeiras,
o salão verde estava vazio.


Só ficavam ossos
rigidamente colocados
em forma de cruz, para maior
glória de Deus e dos homens.


Das gredas ancestrais
e da ramagem de sotavento
até as agrupadas coralinas
foi cortando a faca de Narváez.

Aqui a cruz, ali o rosário,
aqui a Virgem do Garrote.

A jóia de Colombo, Cuba fosfórica,
recebeu o estandarte e os joelhos
em sua areia molhada.




II Agora é Cuba

E foi logo o sangue e a cinza.


Depois ficaram as palmeiras sozinhas.


Cuba, meu amor, te amarraram ao potro,
te cortaram a cara,
te apartaram as pernas de ouro pálido,
te partiram o sexo de romã,
te atravessaram de facas,
te dividiram, te queimaram.


Pelos vales da doçura
desceram os exterminadores,
e nos altos montes a cimeira
de teus filhos se perdeu na névoa,
mas ali foram atingidos
um por um até a morte,
despedaçados no tormento
sem sua terra tépida de flores
que fugia sob os seus pés.


Cuba, meu amor, que calafrio
te sacudiu de espuma a espuma,
até que te fizeste pureza,
solidão, silêncio, mato,
e os ossinhos de teus filhos
fossem disputados pelos caranguejos.




III
Chegam ao Mar do México (1519)

A Veracruz vai o vento assassino.

Em Veracruz desembarcaram os cavalos.

As barcas vão atochadas de garras
e barbas vermelhas de Castela.

São Arias, Reyes, Rojas, Maldonados,

filhos do desamparo castelhano,
conhecedores da fome no inverno
e dos piolhos nos albergues.


Que olham debruçados nos navios?
Quanto do que vem e do perdido
passado, do errante
vento feudal na pátria açoitada?

Não deixaram os portos do sul
para colocar as mãos do povo
no saque e na morte:
eles enxergam terras verdes, liberdades,
cadeias rompidas, construções,
e do alto do navio as ondas que se extinguem
sobre as costas do compacto mistério.

Iriam morrer ou reviver atrás
das palmeiras no ar quente
que, como um forno estranho, a total baforada
para eles dirigem as terras abrasadoras?
Eram povo, cabeças hirsutas de Montiel,
mãos duras e quebradas de Ocaña e Piedrahita,
braços de ferreiros, olhos de meninos
a mirar o sol terrível e as palmeiras.


A fome antiga da Europa, fome como a cauda
dum planeta mortal, povoava o brigue,
a fome lá estava, desmantelada,
errante machado frio, madrasta
dos povos, a fome lança os dados
na navegação, sopra as velas:
“Mais além, senão te como, mais além,
senão regressas
à mãe, ao irmão, ao juiz e ao cura,
aos inquisidores, ao inferno, à peste.

Mais além, mais além, longe do piolho
do chicote feudal, do calabouço,
das galeras cheias de excremento”.


E os olhos de Núñez e Bernales
fixavam na ilimitada
luz o repouso,
uma vida, outra vida,
a inumerável e castigada
família dos pobres do mundo.




IV
Cortés

Cortés não tem povo, é raio frio,
coração morto na armadura.

“Ferazes terras, meu Senhor e Rei,
templos em que o ouro, coalhado
está por mãos de índio.


E avança mergulhando punhais, ferindo
as terras baixas, as escarvantes
cordilheiras dos perfumes,
parando a sua tropa entre orquídeas
e coroações de pinheiros,
atropelando os jasmins,
até as portas de Tlaxcala.


(Irmão aterrado, não tomes
por amigo o abutre cor-de-rosa:
do musgo te falo, das
raízes de nosso reino.

Vai chover sangue amanhã,
as lágrimas serão capazes
de formar névoa, vapor, rios,
até derreteres os teus olhos.
)

Cortés recebe uma pomba,
recebe um faisão, uma cítara
dos músicos do monarca
mas quer a câmara do ouro,
quer mais um passo e tudo cai
nas arcas dos vorazes.

O rei assoma aos balcões:

“É meu irmão”, diz.
As pedras
do povo voam respondendo,
e Cortés afia punhais
sobre os beijos traídos.

Volta a Tlaxcala, o vento trouxe
um surdo rumor de dores.




V
Cholula

Em Cholula os jovens vestem
seu melhor tecido, ouro e plumagens,
e calçados para o festival
interrogam o invasor.


A morte lhes deu resposta.


Lá estão milhares de mortos.

Corações assassinados
que ali palpitam estendidos
e que, na úmida furna que abriram,
guardam o fio daquele dia.

(Entraram matando a cavalo,
cortaram a mão que fazia
a homenagem de ouro e flores,
fecharam a praça, cansaram
os braços até o arrocho,
matando a flor do reinado,
metidos até os cotovelos no sangue
de meus irmãos surpreendidos.
)



VI
Alvarado

Alvarado, com garras e facas,
caiu sobre as choupanas, arrasou
o patrimônio do ourives,
raptou a rosa nupcial da tribo,
agrediu raças, prédios, religiões,
foi a caixa caudal dos ladrões,
o falcão clandestino da morte.

Até o grande rio verde, o Papaloapan,
rio das Borboletas, foi mais tarde
levando sangue em seu estandarte.


O grave rio viu os seus filhos
morrerem ou sobreviverem escravos,
viu arder nas fogueiras perto d'água
raça e razão, cabeças juvenis.

Mas não se esgotaram as dores
como à sua passagem endurecida
para novas capitanias.




VII
Guatemala

Guatemala, a doce, cada laje
de tua mansão leva uma gota
de sangue antigo devorado
pelo focinho dos tigres.

Alvarado massacrou tua estirpe,
violou as estrelas austrais,
espojou-se em seus martírios.


Em Yucatán entrou o bispo
atrás dos pálidos tigres.

Reuniu a sabedoria
mais profunda ouvida no ar
do primeiro dia do mundo,
quando o primeiro maia escreveu
anotando o tremor do rio,
a ciência do pólen, a ira
dos Deuses do Envoltório,
as migrações através
dos primeiros universos,
as leis da colméia,
o segredo da ave verde,
o idioma das estrelas,
segredos do dia e da noite
colhidos nas margens
da evolução terrestre!



VIII
Um bispo

O bispo ergueu o braço,
queimou os livros na praça
em nome de seu Deus pequeno
tornando em fumaça as velhas folhas
gastas pelo tempo escuro.


E a fumaça não volta do céu.




IX
A cabeça num pau

Balboa, morte e garra
levaste aos rincões da doce
terra central, e entre os cães
caçadores, o teu era a tua alma:
leãozinho de beiço sangrento
apanhou o escravo que fugia,
enfiou caninos espanhóis
nas gargantas palpitantes,
e das, unhas dos cachorros
saía a carne para o martírio
e a jóia caía na bolsa.


Malditos sejam cão e homem,
o uivo infame na selva
original, a desafiante
passagem de ferro do bandido.

Maldita seja a espinhenta
Coroa da sarça agreste
que não saltou como um ouriço
para defender o berço invadido.


Mas entre os capitães
sangüinários se ergueu na sombra
a justiça dos punhais,
o acerbo ramo da inveja.


No regresso estava a meio
de teu caminho o apelido
de Pedrarias qual uma corda.


Te julgaram entre os latidos
de cães matadores de índios.

Agora que morres, ouves
o silêncio puro, partido
por teus lebréus açulados?
Agora que morres nas mãos
dos torvos chefes,
sentes o aroma dourado
do reino destruído?

Quando cortaram a cabeça
de Balboa, ficou enfiada
num pau.
Seus olhos mortos
decompuseram seu relâmpago
e rolaram pela lança
numa grande gota de imundice
que desapareceu na terra.




X
Homenagem a Balboa

Descobridor, o vasto mar, minha espuma,
latitude da lua, império da água,
depois de séculos te fala pela minha boca.

Tua plenitude chegou antes da morte.

Ergueste até o céu a fadiga,
e da noite dura das árvores
conduziu-te o suor até a beira
da soma do mar, do grande oceano.

Em teu olhar se fez o matrimônio
da luz estendida e do pequeno
coração do homem, encheu-se a taça
jamais antes erguida, uma semente
de relâmpagos chegou contigo
e um trovão torrencial encheu a terra.

Balboa, capitão, quão diminuta
a tua mão na viseira, misterioso
boneco do sal descobridor,
noivo da oceânica doçura,
filho do novo útero do mundo.


Por teus olhos entrou como um galope
de flores de laranjeira o aroma escuro
da roubada majestade marinha,
caiu em teu sangue uma aurora arrogante
até povoar-te a alma, possesso!
Quando voltaste às terras rudes,
sonâmbulo do mar, capitão verde,
eras um morto que esperava
a terra para receber os teus ossos.


Noivo mortal, a traição cumpria-se.


Não em vão pela história
entrava o crime espezinhado, o falcão devorava
seu ninho e se juntavam as serpentes
que se atacavam com línguas de ouro.


Entraste no crepúsculo frenético
e os passos perdidos que levavas,
ainda empapado de profundidades,
vestido de fulgor e desposado
pela maior espuma, te traziam
às praias de outro mar: a morte.




XI
Dorme um soldado
Extraviado nas fronteiras espessas
chegou o soldado.
Era total fadiga
e caiu entre os cipós e as folhas
ao pé do grande deus emplumado:
este
estava só com o seu mundo mal
surgido da selva.

Olhou o soldado,
estranho nascido do oceano.

Olhou seus olhos, sua barba sangrenta,
sua espada, o brilho negro
da armadura, o cansaço tombado
como bruma sobre essa cabeça
de menino carniceiro.


Quantas zonas
de obscuridade para que o Deus de Pluma
nascesse e enroscasse seu volume
sobre os bosques, na pedra rosada,
quanta desordem de águas loucas
e de noite selvagem, o transbordado
leito da luz sem nascer, o fermento raivoso
das vicias, a destruição, a farinha
da fertilidade e logo a ordem.

a ordem da planta e da seita,
a elevação das rochas cortadas.

a fumaça das lâmpadas rituais,
a firmeza do solo para o homem,
a fundação das tribos,
o tribunal dos deuses terrestres.


Palpitou cada escama da pedra,
Sentiu o pavor que tombou
Como uma invasão de insetos,
Recolheu todo o seu poderio,
fez chegar a chuva às raízes,
falou com as correntezas da terra,
escuro em sua vestimenta
de pedra cósmica imobilizada,
e não pôde mover nem garras nem dentes,
nem rios, nem tremores.

nem meteoros que silvaram
na abóbada do reinado,

e ali ficam, pedra imóvel, silêncio,

enquanto Beltrán de Córdoba dormia.




XII
Ximénez de Quesada (1536)

Tá vão, já vão, já chegam,
coração meu, olha as naus,
as naus pelo Magdalena,
as naus de Gonzalo Jiménez
já chegam, já chegam as naus,
detém-nas, rio, fecha
tuas margens devoradoras,
submerge-as em teu palpitar,
arrebata-lhes a cobiça,
lança-lhes tua trompa de fogo,
teus vertebrados sanguinários,
tuas enguias comedoras de olhos,
atravessa o jacaré espesso
com os seus dentes cor de lodo
c sua primitiva armadura,
estende-o como ponte
sobre tuas águas arenosas,
dispara o fogo do jaguar
do alto das árvores, nascidas
de tuas sementes, rio mãe,
atira-lhes moscas de sangue,
cega-os com estercos negro,
afunda-os em teu hemisfério,
submete-os entre as raízes
na escuridão de teu leito,
apodrece-lhes o sangue todo
devorando-lhes os pulmões
e os lábios com teus caranguejos.


Já entraram na floresta:
já roubam, já mordem, já matam.

Ó Colômbia! Defende o véu
de tua secreta selva rubra.


Já ergueram o punhal
sobre o oratório de Iraka,
agora agarram o cacique,
agora o amarram.
“Entrega
as jóias do deus antigo”,
e brincavam com o orvalho
da manhã da Colômbia.


Agora atormentam o príncipe.

Degolaram-no, sua cabeça
me espia com olhos que ninguém
pode fechar, olhos amados
de minha pátria verde e nua.

Agora queimam a casa solene,
agora seguem os cavalos,
os tormentos, as espadas,
agora restam umas brasas
e entre as cinzas os olhos
do príncipe que não se fecharam.




XIII
Encontro de corvos

No Panamá uniram-se os demônios.

Foi aí o pacto dos furões.

Uma vela apenas iluminava
quando os três chegaram por um.

Primeiro chegou Almagro antigo e torto,
Pizarro, o velho porcino
e o frade Luque, cônego entendido
em trevas.
Cada um
escondia o punhal para as costas
do associado, cada um
com ensebado olhar nas escuras
paredes adivinhava sangue,
e o ouro do longínquo império os atraía
como a lua às pedras malditas.

Quando pactuaram, Luque ergueu
a hóstia na eucaristia,
os três ladrões amassaram
a obréia com torvo sorriso.

“Deus foi dividido, irmãos,
entre nós”, garantiu o cônego,
e os carniceiros de dentes
roxos disseram “Amém”.

Bateram na mesa cuspindo.

Como não sabiam de letras
encheram de cruzes a mesa,
o papel, os bancos, os muros.


O Peru, escuro, submerso,
estava marcado de cruzes,
pequenas, negras, negras cruzes
pelo sul saíram navegando:
cruzes para as agonias,
cruzes peludas e afiadas,
cruzes com ganchos de réptil,
cruzes salpicadas de pústulas,
cruzes como pernas de aranha,
sombrias cruzes caçadoras.




XIV
As agonias

Em Cajamarca começou a agonia.


O jovem Atahualpa, estame azul,
árvore insigne, ouviu o vento
trazer rumor de aço.

Era um confuso
brilho e tremor desde a costa,
um incrível galope
- patear e poderio -
de ferro e ferro entre a relva.

Chegaram os capitães.


O Inca saiu da música
rodeado pelos senhores.


As visitas
de outro planeta suadas e barbudas,
iam prestar reverência.

O capelão
Valverde, coração traidor, chacal podre,
avança um estranho objeto, um pedaço
de cesto, um fruto
talvez daquele planeta
de onde vieram os cavalos.

Atahualpa o segura.
Não sabe
de que se trata: não brilha, não soa,
e o deixa cair sorrindo.


“Morte,
vingança, matai, que vos absolvo”,
grita o chacal da cruz assassina.

O trovão acode aos bandoleiros.

Nosso sangue em seu berço é derramado.

Os príncipes rodeiam como um coro
o Inca, na hora agonizante.


Dez mil peruanos caem
debaixo de cruzes e espadas, o sangue
molha as vestimentas de Atahualpa.

Pizarro, o porco cruel de Extremadura,
faz amarrar os delicados braços
do Inca.
A noite desceu
sobre o Peru como brasa negra.




XV
A linha avermelhada

Mais tarde ergueu a fatigada
mão o monarca, e acima
das caras dos bandidos,
tocou os muros.

Aí traçaram
a linha avermelhada.

Três câmaras
era preciso encher de ouro e prata,
até essa linha de seu sangue.

Rodou a roda de ouro, noite e noite.

A roda do martírio dia e noite.


Arranharam a terra, retiraram
jóias feitas com amor e espuma,
arrancaram o bracelete da noiva,
desampararam os seus deuses.

O lavrador entregou a sua medalha,
o pescador sua gota de ouro,
e as relhas tremeram respondendo
enquanto voz e mensagem nas alturas
ia a roda de ouro rodando.

Aí tigre e tigre se juntaram
e repartiram o sangue e as lágrimas.


Atahualpa esperava levemente
triste no escarpado dia andino.

Não se abriram as portas.
Até a última
jóia os abutres dividiram:
as turquesas rituais, salpicadas
pela carnificina, o vestido
laminado de prata: as unhas bandoleiras
iam medindo e a gargalhada
do frade entre os verdugos
o rei escutava com tristeza.


Era seu coração um vaso cheio
de uma angústia amarga como
a essência amarga da quina.

Pensou em suas fruteiras, no alto Cuzco,
nas princesas, em sua idade,
no calafrio de seu reino.

Maduro estava por dentro, sua paz
desesperada era tristeza.
Pensou em Huáscar.

Viriam dele os estrangeiros?
Tudo era enigma, tudo era faca.

Tudo era solidão, só a linha rubra
palpitava vivente,
tragando as entranhas amarelas
do reino emudecido que morria.


Entrou Valverde então com a morte.

“Te chamarás Juan”, lhe disse
enquanto preparavam a fogueira.

Gravemente respondeu: “Juan,
Juan me chamo até morrer”,
já sem compreender nem mesmo a morte.


Ataram-lhe o pescoço e um gancho

penetrou na alma do Peru.




XVI
Elegia

Só, nas soledades
quero chorar como os rios, quero
escurecer, dormir
como tua antiga noite mineral.

Por que chegaram as chaves radiantes
até às mãos do bandido? Levanta-te,
materna Oello, descansa teu segredo
na fadiga longa desta noite
e deita em minhas veias teu conselho.

Não te peço ainda o sol do Yupanquis.

Te falo adormecido, chamando
de terra a terra, mãe
peruana, matriz, cordilheira.

Como entrou em teu arenoso recinto
a avalanche dos punhais?

Imóvel em tuas mãos,
sinto estenderem-se os metais
nos canais do subsolo.


Estou feito de tuas raízes,
mas não entendo, não me entrega
a terra a sua sabedoria.

Vejo apenas noite e noite
sob as terras estreladas.


Que sonho sem sentido, de serpente,
arrastou-se até a linha avermelhada?
Olhos do luto, planta tenebrosa.

Como chegaste a este vento vinagre,
como entre os penhascos da ira
não ergueu Capac a sua tiara
de argila deslumbrante?

Deixai-me sob os pavilhões
padecer e afundar-me como
a raiz curta que não dará esplendor.

Sob a dura noite dura
descerei pela terra até chegar
à boca do ouro.


Quero estender-me na pedra noturna.


Quero chegar aí com a desgraça.




XVII
As guerras

Mais tarde ao Relógio de Granito
chegou uma chama incendiária.

Almagros e Pizarros e Valverdes,
Castillos e Urías e Beltranes
se apunhalaram repartindo
as traições adquiridas,
se roubavam a mulher e o ouro,
disputavam a dinastia.

Enforcavam-se nos currais,
debulhavam-se na praça,
agarravam-se aos Cabildos.

Tombava a árvore do saque
entre estocadas e gangrena.


Desse galope de Pizarros
nos territórios linhosos
nasceu um silêncio estupefato.


Estava tudo cheio de morte
e sobre a agonia arrasada
de seus filhos desventurados,
no território (roído
até os ossos pelas ratazanas),
sujeitavam-se as entranhas
antes de matar e se matarem.


Magarefes de cólera e força,
centauros tombados na lama
da cobiça, ídolos
partidos pela luz do ouro,
exterminastes vossa própria
estirpe de unhas sanguinárias
e junto às rochas murais
do alto Cuzco coroado.

diante do sol de espigas mais altas,
representastes no pó
dourado do Inca, o teatro
dos infernos imperiais:
a Rapina de focinho verde,
a Luxúria azeitada em sangue,
a Cobiça de unhas de ouro,
a Traição, avessa dentadura,
a Cruz como um réptil rapace,
a Forca mm fundo de neve,

e a Morte fina como o ar

imóvel em sua armadura.




XVIII Descobridores do Chile

Do norte trouxe Almagro sua rugosa centelha.

E sobre o território, entre explosão e ocaso,
inclinou-se dia e noite como sobre uma carta
Sombra de espinhos, sombra de cardo e cera,
o espanhol reunido com a sua seca figura,
mirando as sombrias estratégias do solo.


Noite, neve e areia fazem a forma
de minha pátria delgada,
todo o silêncio está em sua longa linha,
toda a espuma sai de sua barba marinha,
todo o carvão a enche de beijos misteriosos.

Como brasa o ouro arde em seus dedos
e a prata ilumina como lua verde
sua endurecida forma de tétrico planeta.

O espanhol sentado junto à rosa um dia,
junto ao azeite, junto ao vinho, junto ao antigo céu,
não imaginou este ponto de colérica pedra
nascer sob o esterco da águia marinha.




XIX
A terra combatente
Primeiro resistiu a terra.


A neve araucana queimou
como uma fogueira de brancura
a marcha dos invasores.

Caíam de frio os dedos,
as mãos, os pés de Almagro
e as garras que devoraram
e sepultaram monarquias
eram na neve um ponto
de carne gelada, eram silêncio.

Foi no mar das cordilheiras.


O ar chileno chicoteava
marcando estrelas, derrubando
cobiças e cavalarias.


Cedo, a fome andou atrás
de Almagro como invisível
mandíbula que atacava.

Os cavalos eram comidos
naquela festa glacial.


E a morte do sul debulhou
o galope dos Almagros,
até que voltou seu cavalo
para o Peru, onde esperava
o descobridor rechaçado,
a morte do norte, sentada
no caminho, com um machado.




XX
Unem-se a Terra e o Homem

Araucania ramo de carvalhos torrenciais,
c5 Pátria despiedosa, amada escura,
solitária em teu reino chuvoso:
eras apenas gargantas minerais,
mãos de frio, punhos
acostumados a cortar penhascos,
eras, Pátria, a paz da dureza
e teus homens eram rumor,
áspera aparição, vento bravio.


Não tiveram os meus pais araucanos
elmos de plumagem luminosa,
não descansaram em flores nupciais,
não fiaram ouro para o sacerdote:
eram pedra e árvore, raízes
dos matagais sacudidos,
folhas com forma de lança,
cabeças de metal guerreiro.

Pais, apenas levantastes
a orelha ao galope, apenas no cimo
dos montes, cruzou
o raio de Araucania.

Tornaram-se sombra os pais de pedra,
ataram-se ao bosque, às trevas
naturais, tornaram-se luz de gelo,
asperezas de terras e espinhos,
e assim esperaram nas profundezas
da solidão indomável:
um era uma árvore vermelha que olhava,
outro um fragmento de metal que ouvia,
outro uma lufada de vento e verruma,
outro tinha a cor do caminho.

Pátria, nave de neve,
folhagem endurecida:
aí nasceste, quando o homem teu
pediu à terra o seu estandarte,
e quando terra e ar e pedra e chuva,
folha, raiz, uivo, perfume,
cobriram como um manto o filho
que amaram e defenderam.

Assim nasceu a pátria unânime:
a unidade antes do combate.




XXI
Valdivia (1544)

Mas voltaram (Pedro se chamava).

Valdivia, o capitão intruso,
cortou minha terra com a espada
entre ladrões: “Isto é teu,
isto é teu.
Valdés, Montero,
isto é teu, Inés, este lugar
é o cabido”.

Dividiram minha pátria
como sé fosse um asno morto.

“Leva
este pedaço de lua e arvoredo,
devora este rio com crepúsculo”,
enquanto a grande cordilheira
erguia bronze e brancura.


Assomou Arauco.
Adobes, torres,
ruas, o silencioso
dono da casa levantou sorrindo.

Trabalhou com as mãos empapadas
de sua água e de seu barro, trouxe
a greda e verteu a água andina:
mas não pôde ser escravo.

Então Valdivia, o verdugo,
atacou a fogo e morte.

Assim começou o sangue,
o sangue de três séculos, o sangue oceano,
o sangue atmosfera que cobriu a minha terra
e o tempo imenso, como guerra nenhuma.

Saiu o abutre iracundo
da armadura enlutada
e mordeu o chefe, rompeu
o pacto escrito no silêncio
de Huelén, no ar andino.


Arauco começou a ferver seu prato
De sangue e pedras.

Sete príncipes
vieram para lamentar.

Foram presos.

Diante dos olhos da Araucania,
cortaram as cabeças dos caciques.

Animavam-se os verdugos.
Toda
empapada de vísceras, uivando,
Inés Suárez, a mercenária,
subjugava os pescoços imperiais
com os seus joelhos de infernal harpia.

E as lançou sobre a paliçada,
banhando-se de sangue nobre,
cobrindo-se de barro escarlate.

Acreditaram assim dominar Arauco.

Porém aqui a unidade sombria
de árvore e pedra, lança e rosto,
transmitiu o crime ao vento.

Soube disso a árvore da fronteira,
o pescador, o rei, o mago,
soube disso o lavrador antártico,
souberam-no as águas mães
do Bío-Bío.

Assim nasceu a guerra pátria.

Valdivia enfiou a lança gotejante
nas entranhas pedregosas
de Arauco, meteu a mão
no palpitar, apertou os dedos
no coração araucano,
derramou as veias silvestres
dos labregos,
exterminou
o amanhecer pastoril,
ordenou martírio
ao rei do bosque, incendiou
a casa do dono do bosque,
cortou as mãos do cacique,
devolveu os prisioneiros
com orelhas e narizes cortados,
empalou o toqui, assassinou
a moça guerrilheira
e com a sua luva ensangüentada
marcou as pedras da pátria,
deixando-a cheia de mortos
e solidão e cicatrizes.




XXII
Ercilla


Pedras de Arauco e desatadas rosas
fluviais, territórios de raízes,
encontraram-se com o homem que chegou de Espanha.

Invadem a sua armadura com gigantesco líquen.

Atropelam a sua espada as sombras do feto.

A hera original põe mãos azuis
no recém-chegado silêncio do planeta.

Homem, Ercilla sonoro, ouço o pulso da água
de teu primeiro amanhecer, um frenesi de pássaros
e um trovão na folhagem.

Deixa, deixa a tua pegada
de águia rubra, destroça
a tua face contra o milho silvestre,
tudo será na terra devorado.

Sonoro, somente tu não beberás a taça
de sangue, sonoro, só ao rápido
fulgor de ti nascido
cm vão chegará a boca secreta do tempo
para dizer-te: em vão.

Em vão, em vão
sangue pelas ramagens de cristal salpicado,
em vão pelas noites do puma
o desafiador passo do soldado,
as ordens,
os passos
do ferido.

Tudo torna ao silêncio coroado de plumas
onde um rei remoto devora trepadeiras.




XXIII
Enterram-se as lanças

Assim ficou repartido o patrimônio.

O sangue dividiu a pátria inteira.

(Contarei em outras linhas
a luta do meu povo.
)
Mas foi cortada a terra
pelas facas invasoras.

Depois vieram povoar a herança
usurário de Euzkadi, netos
de Loyola.
Da cordilheira
do oceano
dividiram com árvores e corpos
a sombra recostada do planeta.

As comendas sobre a terra
sacudida, ferida, incendiada,
o reparte de selva e água
nos bolsos, os Errázuriz
que chegam com seu escudo de armas:
um chicote e uma alpargata.




XXIV
O coração magalhânico (1519)

De onde sou, às vezes me pergunto, de que diabos
venho, que dia é hoje, que acontece,
ronco, no meio do sonho, da árvore, da noite,
e uma onda se levanta como pálpebra, um dia
dela nasce, um relâmpago com focinho de tigre.



Desperto de repente na noite pensando no extremo sul
Vem o dia e me diz: “Ouves
a água lenta, a água
sobre a Patagônia?”
E eu respondo: “Sim, senhor, escuto”.

Vem o dia e me diz: “Uma ovelha selvagem,
longe, na região, lambe a cor gelada
duma pedra.
Não escutas o balido, não reconheces
o vendaval azul em cujas mãos
a lua é uma taça, não vês a tropa, o dedo
rancoroso do vento
tocar a onda e a vida com o seu anel vazio?”


Recordo a solidão do estreito
A longa noite, o pinheiro, vêm aonde vou.

E se transtorna o ácido surdo, a fadiga,
a tampa do tonel, quanto tenho na vida.

Uma gota de neve chora e chora à minha porta
mostrando o seu vestido claro e desatado
de pequeno cometa que me procura e soluça.

Ninguém olha a lufada, a extensão, o uivo
do ar nas pradarias.

Me aproximo e digo: vamos.
Toco o sul, desemboco
na areia, vejo a planta seca e negra, toda raiz e rocha,
as ilhas arranhadas pela água e pelo céu,
o Rio da Fome, o Coração de Cinza,
o Pátio do Mar Lúgubre, e onde assovia
a solitária serpente, onde cava
o último zorro ferido e esconde seu tesouro sangrento
encontro a tempestade e sua voz de ruptura,
sua voz de velho livro, sua boca de cem lábios,
algo me diz, algo que o ar devora cada dia.



Os descobridores da América aparecem e deles nada fica
Recorda a água quanto aconteceu ao navio.

A dura terra estranha guarda as suas caveiras
que soam no pânico austral como cornetas
e olhos de homem e de boi dão ao dia o seu vazio,
o seu anel, o seu ressoar de implacável sulco.

O velho céu busca a vela, ninguém
já sobrevive: o brigue destruído
vive com a cinza do marinheiro amargo,
e dos entrepostos de ouro, das casas de couro
do trigo pestilento, e da
chama fria das navegações
(quanto golpe noite [rocha e baixel] no casa,)
fica apenas o domínio queimado e sem cadáveres,
a incessante intempérie apenas partida
por um negro fragmento
de fogo falecido.



Só se impõe a desolação
Esfera que destroça lentamente a noite, a água, o gelo,
extensão combatida pelo tempo e pelo fim,
com sua marca violeta, com o final azul
do arco-íris selvagem
se afogam os pés de minha pátria em tua sombra
e uiva e agoniza a rosa triturada.

Recordo o velho descobridor
Pelo canal navega novamente
o cereal gelado, a barca do combate,
0 outono glacial, o transitório ferido.

Com ele, com o antigo, com o morto,
com o destituído pela água raivosa,
com ele em sua tormenta, com seu rosto.

Ainda o segue o albatroz c a soga de couro
comida, com os olhos fora do olhar
e o rato devorado cegamente olhando
entre paus partidos o esplendor iracundo,
enquanto no vazio o anel e o osso
caem, resvalam pela vaca-marinha.



Magalhães
Qual é o deus que passa? Olhai sua barba cheia de vermes
e seus calções aos quais a espessa atmosfera
se agarra e morde como um cão náufrago:
e tem peso de âncora maldita a sua estatura,
e silva o pélago e o aquilão acorre
até seus pés molhados.
Caracol da escura
sombra do tempo, espora
carcomida, velho senhor de luto litoral, caçador
sem estirpe, manchado manancial, o esterco
do estreiro te manda,
e de cruz tem o seu peito só um grito
do mar, um grito branco, de luz marinha,
e de tenaz, de tombo em tombo, de aguilhão demolido.



Chega ao Pacífico
Porque o sinistro dia do mar termina um dia,
e a mão noturna corta seus dedos um a um
até não ser, até que o homem nasce
e o capitão descobre dentro de si o aço
e a América sobe a soa borbulha
e a costa levanta o seu pálido arrecife
sujo de aurora, turvo de nascimento
até que da nau sai um grito e se afoga
e outro grito e a alba que nasce da espuma.



Todos morreram
Irmãos de água e piolho, de planeta carnívoro:
vistes, enfim, a árvore do mastro encolhida
pela tormenta? Vistes a pedra esmagada
sob a louca neve brusca da lufada?
Enfim, já tendes o vosso paraíso perdido,
enfim, tendes a vossa guarnição maldizente,
enfim, vossos fantasmas atravessados pelo ar
beijam sobre a areia o rasto da foca.


Enfim, a vossos dedos sem anel
chega o pequeno sal do páramo, o dia morto,
tremendo, em seu hospital de ondas e pedras.




XXV
Apesar da ira

Roídos elmos, ferraduras mortas!

Mas através do fogo e da ferradura
como de um manancial iluminado
pelo sangue sombrio,
com o metal fundido no tormento
derramou-se uma luz sobre a terra:
número, nome, linha e estrutura.


Página de água, claro poderio
de idiomas rumorosos, doces gotas
elaboradas como cachos de uvas,
sílabas de platina na ternura
de uns peitos puros aljofarados,
e uma clássica boca de diamantes
deu seu fulgor nevado ao território.


Já longe a estátua depunha
seu mármore morto, e na primavera
do mundo, amanheceu a maquinaria.


A técnica elevava o seu domínio
e o tempo foi velocidade e lufada
na bandeira dos mercadores.


Lua de geografia
que descobriu a planta e o planeta
estendendo geométrica formosura
em seu desenvolvido movimento.


Ásia entregou o seu virginal aroma.

A inteligência com um fio gelado
foi atrás do sangue a fiar o dia.


O papel repartiu a pele nua
guardada nas trevas.


Um vôo
de pombal saiu da pintura
com arrebol e azul ultramarino.


E as línguas do homem se juntaram
na primeira ira, antes do canto.


Assim, com o sangrento
titã de pedra,
falcão encarniçado,
não só chegou o sangue mas o trigo.


A luz veio apesar dos punhais.
Por que nego o maná para os outros?
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.

1956
Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras

Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando

Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la

Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar

E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos

Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado

Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens

Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas

Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido

Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada

Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
Esta é minha canção: canção poderosa.
Unaija-unaija.
Desde o outono deito-me aqui,
desamparado e doente,
como se fosse filho de mim mesmo.
Em angústia, desejaria que minha mulher
tivesse outra cabana,
outro homem por refúgio,
firme e seguro como o gelo do inverno.
Unaija-unaija.
E desejaria que minha mulher
encontrasse protetor melhor,
agora que me faltam as forças
para erguer-me da cama.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Estirado e débil sobre meu banco,
minha única força está em minha memória.
Unaija-unaija.
Caça! Grande caça,
correndo adiante de mim,
permita-me reviver aquilo.
Deixe-me esquecer minha fraqueza
remembrando o passado.
Unaija-unaija.
Eu trago à memória aquele grande branco,
o urso polar,
aproximando-se com patas erguidas,
seu focinho na neve -
convencido, enquanto me atacava,
que entre nós dois
ele era o único macho.
Unaija-unaija.
Lançou-me ao solo repetidamente:
mas exausto por fim,
sentou-se sobre um banco de gelo,
e lá descansaria
insciente de que eu o terminaria.
Ele pensava ser o único macho em redor.
Mas eu estava ali,
Unaija-unaija.
Nem hei de esquecer o grande oleoso,
o leão-marinho que matei
em uma placa de gelo antes da aurora,
enquanto meus amigos em casa
deitavam-se como com os mortos,
frágeis com a fome,
famintos na má sorte.
Apressei-me para casa,
carregado de carne e óleo,
como se estivesse correndo sobre o gelo
em busca de uma fenda para respirar.
Era porém leão-marinho experiente
que me cheirara imediatamente -
mas antes que pudesse fugir
minha lança enterrava-se
em sua garganta.
É como foi.
Agora deito-me em meu banco,
doente demais para sequer
conseguir óleo para a lâmpada de minha mulher.
O tempo, o tempo mal parece passar,
mesmo que aurora siga aurora,
e a primavera aproxime-se da vila.
Unaija-unaija.
Quanto tempo mais devo deitar-me aqui?
Quanto tempo? Quanto tempo ela terá
que implorar por óleo para sua lâmpada,
peles de rena para seu corpo,
e carne para sua comida?
Eu, desastre débil:
ela, mulher indefesa.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Aurora segue aurora,
e a primavera aproxima-se da vila.
Unaija-unaija.
.
.
.
Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos
Nem música nem cantaria.
Foi-se ver no livro: de um certo ponto de vista de:
terror sentido beleza
acontecera sempre o mesmo — quebram-se os selos aparecem
os prodígios
a puta escarlate ao meio dos cornos da besta
máquinas fatais, abismos, multiplicação de luas
— o inferno! alguém disse: afastem de mim a inocência
eu falo o idioma demoníaco.
Há imagens que se percebem: a do leão às escuras bebendo água
gelada, a imagem de uma pessoa com a mão gloriosa nas chamas
não pára de gritar mas não tira a mão do fogo
compreende-se? como se compreende!
é uma espécie de força absoluta. Há quem pinte cavaleiros luminosos
montados em cavalos azuis. Vão para a guerra, vão matar,
roubar, violar, Deus olha.
Sangue. Quais os problemas? Vermelho e azul, distribuição de formas, a beleza
e os seus segredos — o número, a razão do número
que tudo seja perfeito em coral e cobalto.
O caos nunca impediu nada, foi sempre um alimento inebriante.
O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus
porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.
A mão sobre as coisas com vida sua, com essa mão reunir as coisas,
refazer as coisas — cada coisa tem a sua aura, cada animal tem
a sua aura, como se pastoreiam as auras!
em transe: eu sou a coisa. Acabou.
Sento-me a conversar com Deus: palavra, música, martelo
uma equação: conversa de ida e volta.
Depois há gente que fala entre si, depois é o medo, depois é o delírio.
Escuta a breve canção dentro de ti. Que diz ela?
Não move as coisas com as suas auras, nem tu nem a tua canção
pertencem ao mundo cheio, alma que sopra.
Nada se liga entre si, Deus não se debruça na canção; destroça
a cadência
— o demoníaco. Já se não vê um degrau
arrancar de outro degrau pelas lentas escadarias de mármore ao fundo.
A canção abandonou o seu espaço contínuo.
Que se pode fazer? — Apenas um encontro de objectos; um degrau, outro
e outro degraus onde ninguém assenta o pé
e depois o outro pé — por onde se não sobe para assistir ao braço que
torcendo
laçasse o corpo todo num umbigo incandescente, por onde ninguém
sobe para sentar-se ao órgão
e discutir em música as proporções? Aquele que disse:
eu tenho a temperatura de Deus — era um louco meteorológico.
Mas se afinal se entende que numa resposta
se oculta uma pergunta do mundo, mas
se afinal a substância
de alguém que pôs a mão no fogo é igual à substância do fogo
enquanto grita. A substância de um homem e de uma estrela; a mesma.
O poder de criar a canção, isso.
Bato na rosácea com o martelo
o rosto onde bate a rosácea roda voltado para cima —
I
Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?
II
Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão
Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos
Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares
Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição
III
Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte
IV
Por compaixão jogam-nos palavras no colo
:
Die Zeit danach:/ I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss
.
.
.
Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.

Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.

A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
I
Saudação (1949)

De arames oxidados pela água salobre?
É Pisagua também teu rosto agora?
Quem te fez mal, como atravessaram
com um punhal o teu mel despido?

Antes de ninguém, para eles minha saudação,
para os homens, para o plinto de dores,
para as mulheres, ramos de mañio,
para as crianças, escolas transparentes,
que sobre as areias de Pisagua
foram a pátria perseguida, foram
toda a honra da terra que amo.

Será a honra sagrada de amanhã
ter sido arrojado a tuas areias,
Pisagua: ter sido de repente
recolhido à noite do terror
por ordem de um traidor envilecido
e ter chegado a teu calcário inferno
para defender a dignidade do homem.




II Os homens de Pisagua
Não esquecerei as tuas costas mortas onde
do mar hostil a suja dentada
ataca as paredes do tormento
e a pique se levantam os baluartes
dos pelados cerros infernais:
não esquecerei como olhais as águas,
para o mundo que esquece os vossos rostos,
não esquecerei quando de olhos cheios
de interrogante luz, voltais
o rosto às terras pálidas do Chile
dominadas por lobos e ladrões.


Sei como vos lançaram a comida,
como a cães sarnentos, no chão,
até que fizestes de pequenas latas
vazias os vossos pratos:
sei como vos lançaram para dormir
e como em fila recebestes,
carrancudos e valentes,
os imundos feijões
que tantas vezes às areias lançastes.

Sei como, quando recebíeis
roupa, alimentos que de toda
a extensão da pátria se juntaram,
sentistes com orgulho
que talvez, que talvez não estáveis sós.

Valentes, temperados compatriotas
que dais um novo sentido à terra:
fostes os escolhidos na caçada,
para que por vós todo o povo
sofresse em desterrados areais.

E escolheram inferno examinando
o mapa, até que acharam
este salobre cárcere, estes muros
de solidão, de surpreendedora
angústia, para que golpeareis a cabeça
sob os pés do ínfimo tirano.


Mas não acharam sua própria matéria:
não sois feitos de esterco como o pútrido,
vermiforme traidor: mentiram
seus informes, acharam
a firmeza metálica do povo,
o coração do cobre e seu silêncio.


É o metal que fundará a pátria
quando o vento do povo areento
expulsar o capitão da imundície.

Firmes, firmes irmãos,
firmes quando em caminhões, agredidos
à noite nas cabanas, empurrados,
amarrados os braços com arame,
sem despertar, apenas surpreendidos
e atropelados, fostes para Pisagua,
levados por armados carcereiros.


Depois voltaram eles
e encheram caminhões com famílias
desamparadas, batendo nas crianças.

E um pranto de filhos doces aparece
ainda na noite do deserto, um pranto
de milhares de bocas infantis,
como um coro que busca o duro vento
para que escutemos, para que não nos esqueçamos.




III
Os heróis

Félix Morales, Ángel Vcas,
assassinados em Pisagua,
feliz ano-novo, irmãos,
sob a dura terra que amastes,
que defendestes.
Hoje estais
sob as salinas que rangem
dizendo os vossos nomes puros,
sob as rosas estendidas
do salitre, sob a areia
cruel do deserto ilimitado.


Feliz ano-novo, irmãos
meus, quanto amor
me ensinastes, quanto
domínio sobre a ternura
abarcastes na morte!

Sois como as ilhas que nascem
de repente no meio do oceano,
sustentadas pelo espaço
e pela firmeza marinha.


Aprendi o mundo de vós:
a pureza, o pão infinito.

Me mostrastes a vida, a área
do sal, a cruz dos pobres.

Cruzei as vidas do deserto
como um barco num mar escuro
e me mostráveis a meu lado
os trabalhos do homem, o solo,
a casa andrajosa, o silvo
da miséria nas planuras.


Félix Morales, te recordo
pintando um retrato alto, fino
esbelto e jovem como uma nova
algarobeira, nas extensões
sedentas do pampa.


Tuas melenas bravias batiam
em teu rosto pálido, pintavas
o retrato de um demagogo
para as próximas eleições.


Te recordo dando a vida
em tua pintura, encarapitado
na escada, resumindo
toda a sua doce juventude.


Ias fazendo o sorriso
de teu verdugo na tela,
agregando branco, medindo,
acrescentando luz na boca
que ordenou depois tua agonia.


Ángel, Ángel, Ángel Veas,
operário do pampa, puro
como o metal desenterrado,
já te assassinaram, já estás
onde quiseram que estivesses
os amos do chão do Chile:
debaixo das pedras devoradoras
que com as tuas mãos tantas vezes
levantaste para a grandeza.


Nada mais puro que a tua vida.


Só as pálpebras dos ares.


Só as águas mananciais.


Só o metal inacessível.


Levarei pela vida inteira
a honra de ter estreitado
tua nobre mão combatente.


Eras tranqüilo, eras madeira
educada no sofrimento
até ser ferramenta pura.

Te recordo quando se honrava
a intendência de Iquique contigo,
trabalhador, asceta, irmão.


Faltava pão, farinha.
Então
levantavas antes da aurora
e com as tuas mãos repartias
o pão para todos.
Nunca
te vi tão grande, eras o pão,
eras o pão do povo, aberto
com o teu coração na terra.


E quando tarde na jornada
voltavas carregando o volume
do dia de luta terrível,
sorrias como a farinha,
entravas em tua paz de pão,
e te repartias de novo,
até que o sonho reunia
teu debulhado coração.




IV
González Videla

Quem foi? Quem é? onde estou, me perguntam,
em outras terras onde vou errante.

No Chile não perguntam, os punhos contra o vento,
os olbos nas minas se dirigcm a um ponto,
a um vicíoso traidor que com eles chorava
quando pediu seus votos para trepar ao trono.

Viram-no estes homens de Pisagua, os bravos
titãs do carvão: derramava as lágrimas,
arrancava os dentes prometendo,
abraçava e beijava as crianças que agora
limpam com areia a marca de sua pústula.

Fm minha cidade, em minha terra o conhecemos.
Dorme
o lavrador pensando quando suas duras mãos
poderão cercar seu pescoço de cão mentiroso,
e o mineiro na sombra de sua cova intranqüila
estira o pé sonhando que esmagou com a sola
este piolho maligno, degradado insaciável.


Sabe quem é o que fala atrás duma cortina
de baionetas, ou atrás de animais de feira,
ou atrás dos novos mercadores,
mas nunca atrás do povo que o procura
para falar uma hora com ele, sua última hora.


A meu povo arrancou a esperança, sorrindo,
vendeu-a nas trevas a seu melhor licitador,
e em vez de casas frescas e liberdades, feriram-no,
espancaram-no na garganta da mina,
lhe decretaram o salário atrás duma coronha,
enquanto uma tertúlia governava dançando
com dentes afiados de jacarés noturnos.




V
Eu não sofri

Mas não sofreste tu? Eu não sofri.
Eu sofro
só os sofrimentos do meu povo.
Eu vivo
por dentro, por dentro de minha pátria, célula
de seu infinito e abrasado sangue.

Não tenho tempo para as minhas dores.

Nada me faz sofrer além destas vidas
que a mim deram sua confiança pura,
e que um traidor fez rolar para o fundo
do buraco morto, de onde
é preciso de novo erguer-se a rosa.


Quando o verdugo pressionou os juízes
para que condenassem
o meu coração, meu enxame decidido,
o povo abriu seu labirinto imenso,
o porão em que dormem os seus amores,
e lá me sustentaram, vigiando
até a entrada da luz e do ar.

Me disseram: “Somos teus credores,
és o que há de pôr a marca fria
sobre os sujos nomes do perverso”.

E só sofri de não ter sofrido.

Só de não ter percorrido os escuros
cárceres de meu irmão e de meu irmão,
com toda a minha paixão como uma ferida,
e cada passo falso a mim rolava.

cada golpe nas tuas costas me machucava,
cada gota de sangue do martírio
resvalou até meu canto que sangrava.




VI
Neste tempo

Feliz ano.
.
.
Hoje que tens
minha terra a teus dois lados, és feliz, irmão.

Eu sou errante filho do que amo.

Responde-me, pensa que estou contigo
a perguntar-te, pensa que sou o vento de janeiro,
vento puelche, vento velho das montanhas
que quando abres a porta te visita
sem entrar, ventilando suas rápidas perguntas.

Dize-me, entraste por um campo de trigo ou de cevada,
estão dourados? Fala-me de um dia de cerejas.

Longe do Chile penso num dia redondo,
cor de amora, transparente, de açúcar em cachos,
e de grãos espessos e azuis que gotejam
em minha boca as suas taças carregadas de delícia.

Dize-me, mordeste hoje a anca pura
de um pêssego, e enchendo-te de imortal ambrosia,
até que também foste fonte da terra,
fruto c fruto entregues ao esplendor do mundo?



VII
Antes me falaram

Por estas mesmas terras forasteiras andei
eu outro tempo: o nome de minha pátria brilhava
como os constelados segredos de seu céu.


O perseguido de todas as latitudes, cego,
oprimido pela ameaça e pela ignomínia,
me tocava as mãos, me dizia “chileno”
com uma voz manchada pela esperança.
Então
a tua voz tinha o eco de um hino, eram pequenas
as tuas mãos arenosas, pátria, mas cobriram
mais de uma ferida, resgataram
mais de uma primavera desolada.

Levas guardada toda essa esperança,
reprimida em tua paz, sob a terra,
vasta semente para todo homem,
ressurreição segura da estrela.




VIII
As vozes do Chile

Antes a voz do Chile foi metálica
voz da liberdade, de vento e prata,
antes ressoou nas alturas
do planeta recém-cicatrizado,
de nossa América agredida
por matagais e centauros.

Até à neve intacta subiu, no desvelo,
subiu o teu coro de folhas honoráveis,
o canto de águas livres de teus rios,
a majestade azul de teu decoro.

Era Isidoro Errázuriz vertendo
sua combatente estrela cristalina,
sobre cidades obscuras e amarradas,
era Bilbao com sua cara
de pequeno planeta tumultuoso,
foi Vicuña Mackenna transportando
sua inumerável e germinal folhagem
prenhe de indícios e sementes
por outras cidades em que a janela
foi fechada á luz.
Eles entraram
e acenderam a lâmpada na noite,
e no amargo do dia de outras cidades
foram a luz mais alta da neve.




IX
Os mentirosos

Hoje se chamam Gajardo, Manuel Trucco,
Hernán Santa Cruz, Enrique Berstein,
Germán Vergara, os que - pagamento adiantado -
dizem falar, ó Pátria, em teu sagrado
nome e pretendem defender-te afundando
a tua herança de leão na imundície.

Anões amassados como pílulas
na botica do traidor, ratazanas
do pressuposto, mínimos
mentirosos, esporeadores
de nossa força, pobres
mercenários de mãos estendidas
e línguas de coelhos caluniadores.

Não são minha pátria, eu o declaro
a quem me queira ouvir por estas terras,
não são o homem grande do salitre,
não são o sal do povo transparente,
não são as lentas mãos que constroem
o monumento da agricultura,
não são, não existem, mentem e arrazoam
para continuar, sem existir, cobrando.




X
Serão nomeados

Enquanto escrevo minha mão esquerda me reprova.

Me diz: por que os nomeias, que são, que valem?
Por que não os deixaste em seu anônimo lodo
de inverno, nesse lodo em que urinam os cavalos?
E minha mão direita lhe responde: “Nasci
para bater nas portas, para brandir os golpes,
para acender as últimas retiradas sombras
nas quais se alimenta a aranha venenosa”.

Serão nomeados.
Não me entregaste, pátria,
o doce privilégio de nomear-te
apenas em teus alhelies e tua espuma,
não me deste palavras, pátria, para chamar-te
apenas com nomes de ouro, de pólen, de fragrância,
para esparzir semeando as gotas de orvalho
que caem de tua negra cabeleira imperiosa:
me deste com o leite e a carne as sílabas
que nomearão também os pálidos vermes
que viajam no teu ventre,
os que acossam o teu sangue, saqueando-te a vida.




XI
Os vermes do bosque

Algo do bosque antigo caiu, foi a tormenta
talvez, purificando crescimentos e camadas,
e nos troncos caídos fermentaram os fungos,
as lesmas cruzaram seus fios nauseabundos,
e a madeira morta que caiu das alturas
encheu-se de buracos e de larvas espantosas.

Assim está o teu costado, pátria, a desditada
governação de insetos que povoam tuas feridas,
os grossos traficantes que mastigam arame,
os que desde palácio negociam com o ouro,
os vermes que juntam micros e pescarias,
os que te roem algo cobertos pelo manto
do traidor que dança sua zamba excitada,
o jornalista que encarcera seus companheiros,
o sujo delator que faz governo,
o pedante que se apodera duma revista pedante
com o ouro roubado dos yaganes,
o almirante tonto como um tomate, o gringo
que cospe a seus vassalos uma bolsa com dólares



XII
Pátria, querem te repartir

“Chamavam-no de chileno”, dizem de mim estas larvas.

Querem tirar-me a pátria sob os pés, desejam
corrar-te para eles como um baralho sujo
e repartir-te entre eles como uma carne gordurosa.

Não os amo.
Crêem eles que já te têm morta,
esquartejada, e na orgia de seus desígnios sujos
te gastam como donos.
Não os amo.
A mim deixa-me
amar-te em terra e povo, deixa-me perseguir
o meu sonho em tuas fronteiras marinhas e nevadas,
deixa-me recolher todo o perfume amargo
teu que numa taça levo pelos caminhos,
mas não posso estar com eles, não me peças
quando sacudires os ombros e tombem no chão
com suas germinações de animais apodrecidos,
não me peças que acredite que sejam teus filhos.
É outra
a madeira sagrada de meu povo.


Amanhã
serás na estreitem da tua embarcação cingida,
entre as duas marés de oceano e de neve,
a mais amada, o pão, a terra, o filho.

De dia o nobre rito do tempo libertado,
de noite a entidade estrelada do céu.




XIII
Recebem ordens contra o Chile

Mas atrás de todos eles há que buscar, há algo
atrás dos traidores e dos ratos que roem,
há um império que põe a mesa,
que serve a comida e as balas.

Querem fazer de ti o que logram na Grécia.

Os señoritos gregos no banquete, c balas
ao povo nas montanhas: há que extirpar o vôo
da nova Vitória de Samotrácia, há que enforcar,
matar, perder, mergulhar o punhal assassino
empunhado em Nova York, há que romper com fogo
o orgulho do homem que assomava
por todas as partes como se nascesse
da terra regada pelo sangue.

Há que armar Chianga e o ínfimo Videla,
há que dar-lhes dinheiro para cárceres, asas
para que bombardeiem compatriotas, há que dar-lhes
um pão velho, alguns dólares, fazem eles o resto,
eles mentem, corrompem, dançam sobre os mortos
e suas esposas reluzem os visões mais caros.

Não importa a agonia do povo, deste martírio
necessitam os amos donos do cobre: há fatos:
os generais deixam o exército e servem
de assistentes no staff de Chuquicamata,
e no salitre o general “chileno”
ordena com sua espada quanto devem pedir
como aumento de salário os filhos do pampa.

Assim ordenam de cima, da bolsa com dólares,
assim recebe a ordem o anão traidor,
assim os generais se fazem de polícias,
assim apodrece o tronco da árvore da pátria.




XIV
Recordo o mar

Chileno, tens ido ao mar neste tempo?
Vai em meu nome, molha tuas mãos e levanta-as
e eu de outras terras adorarei essas gotas
que caem da água infinita em teu rosto.

Eu conheço, vivi toda a minha costa,
o grosso mar do norte, dos páramos, até
o peso tempestuoso da espuma nas ilhas.

Recordo o mar, as costas gretadas e férreas
de Coquimbo, as águas altaneiras de Tralca,
as solitárias ondas do sul, que me criaram.

Recordo em Puerto Montt e nas ilhas, à noite,
ao voltar pela praia, a embarcação que espera,
e nossos pés deixavam em suas marcas o fogo,
as chamas misteriosas de um deus fosforescente.


Cada pisada era um regueiro de fósforo.

Íamos escrevendo com estrelas a terra.

E no mar resvalando a barca sacudia
uma ramagem de fogo marinho, de vaga-lumes,
uma onda inumerável de olhos que despertavam
uma vez c tornavam a dormir em seu abismo.




XV
Não há perdão

Eu quero terra, fogo, pão, açúcar, farinha,
mar, livros, pátria para todos, por isso
ando errante: os juízes do traidor me perseguem
e seus turiferários tratam, como os micos
amestrados, de encharcar minha lembrança.

Fui eu com ele, com esse que preside, à boca
da mina, ao deserto da aurora esquecida,
eu fui com ele e disse a meus pobres irmãos:
“Não guardareis os fios da roupa esfarrapada,
não tereis este dia sem pão, sereis tratados
como se fôsseis filhos da pátria”.
“Agora
vamos repartir a beleza, e os olhos
das mulheres não chorarão por seus filhos.

E quando em vez de amor repartido, na noite
à fome e ao martírio lançaram a esse mesmo,
a esse que o escutou, a esse que sua força
e sua ternura de árvore poderosa entregara,
então eu não estive com o pequeno sátrapa,
mas com aquele homem sem nome, com meu povo.

Eu quem a minha pátria para os meus, quero
a luz igual sobre a cabeleira
de minha pátria acesa,
quero o amor do dia e do arado,
quero apagar a linha que com ódio
fazem para apartar o pão do povo,
e ao que desviou a linha da pátria
até entregá-la como carcereiro,
atada, aos que pagam para feri-la,
eu não vou cantá-lo nem calá-lo,
vou deixar seu número e seu nome
cravado na parede da desonra.




XVI
Tu lutarás

Este ano-novo, compatriota, é teu.

Nasceu mais de ti do que do tempo, escolhe
o melhor de tua vida e o entrega ao combate.

Este ano que caiu como morto em seu túmulo
não pode repousar com amor e com medo.

Este ano morto é ano de dores que acusam.

E quando suas raízes amargas, na hora
da festa, à noite, se desprenderem e caírem
e subir outro cristal ignorado até o vazio
de um ano que a tua vida encherá pouco a pouco,
dá-lhe a dignidade que requer a minha pátria,
a tua, esta estreiteza de vulcões e vinhos.

Eu não sou cidadão de meu país: me escrevem
que o clown indecoroso que governa apagou
com outros milhares de nomes o meu
das listas que eram as leis da República.

Meu nome está apagado para que eu não exista,
para que o torvo abutre da masmorra vote
e votem os bestiais encarregados que dão
pancadas e o tormento nos porões
do governo, para que votem bem garantidos
os mordomos, caporais, sócios
do negociante que entregou a Pátria.

Eu estou errante, vivo a angústia de estar longe
do preso e da flor, do homem e da terra,
porém tu lutarás para apagar a mancha
de esterco sobre o mapa, tu lutarás sem dúvida
para que a vergonha deste tempo termine
e se abram as prisões do povo e se levantem
as asas da vitória traída.




XVII
Feliz ano-novo para minha pátria em trevas

Feliz ano este ano, para ti, para todos
os homens, e as terras, Araucania amada.

Entre ti e minha existência há esta noite nova
que nos separa, e bosques e rios e caminhos.

Porém até a ti, pequena pátria minha,
como um cavalo escuro meu coração galopa:
entro por seus desertos de pura geografia,
passo pelos vales verdes onde a uva acumula
seus verdes álcoois, o mar de seus cachos.

Entro em tuas aldeias de jardim fechado,
brancas como camélias, no acre
odor de tuas adegas, e penetro
como um madeiro a água dos rios que tremem
trepidando e cantando com lábios transbordados.


Recordo, nos caminhos, talvez neste tempo,
ou melhor no outono, sobre as casas deixam
as espigas douradas do milho secando,
e quantas vezes fui como um menino extasiado
a ver o ouro nos retos dos pobres.


Te abraço, devo agora
retornar a meu lugar escondido.
Te abraço
sem conhecer-te: dize-me quem és, reconheces
a minha voz no coro do que está nascendo?
Entre todas as coisas que te rodeiam, ouves
minha voz, não sentes como te cerca meu acento
emanado como água natural da terra?

Sou eu que abraço toda a superfície doce,
a cintura florida de minha pátria e te chamo
para que falemos quando se apague a alegria
e entregar-te esta hora como uma flor fechada.

Feliz ano-novo para minha pátria em trevas.

Vamos juntos, está o mundo coroado de trigo,
o alto céu corre deslizando e rompendo
suas altas pedras puras contra a noite: apenas
se encheu a nova taça com um minuto
que há de juntar-se ao rio do tempo que nos leva.

Este tempo, esta taça, esta terra são teus:
conquista-os e escuta como nasce a aurora.

já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma


Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).

A verdade é como um leão; você não precisa defendê-la. Deixe-a solta, e ela se defenderá a si mesma.

 

Ouso aqui divergir da estória infantil intitulada -  Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau [MAU, o contrário de bom, é adjetivo – portanto sempre acompanha um substantivo –  e tem o feminino má  (plural: maus e más] - sob vários aspectos  sobretudo por ser um grande mal [MAL tem por antônimo a palavra bem e pode ser: [1] advérbio de modo; neste caso fica invariável e no mais das vezes acompanha um verbo ou um adjetivo; [2] substantivo; [3] conjunção] exemplo para todos nós que logo aos primeiros passos do entendimento e do ater-se ao mundo, isto é, aos primeiros raios do processo cognitivo e de assimilação escutamos dos nossos pais, seja na escola, nas pracinhas, nas rodinhas de amiguinhos e por ai afora.

Personagem de ficha policial de longa e vasta quilometragem, o denominado "clínico geral” inconteste, o - psicopata vampiresco - por tantos crimes praticados impunemente no contexto das estórias infantis. A periculosidade deste bandido não poupa ninguém, vai da Vovozinha ao Chapeuzinho Vermelho até chegar nos Três Porquinhos. 


Em primeiro lugar, ao contrário do que possa parecer, a fábula nada tem de inocente tanto no seu conteúdo, como no seu aspecto jurídico e moral, mormente, no que diz respeito aos valores que despertam nas crianças, além de um enredo, em versões mais antigas da história da Chapeuzinho Vermelho, em que a figura do lobo era substituída por seres humanos. Omitia-se, assim, a metáfora do animal para fazer uma alusão direta à perversidade de algumas pessoas.e principais personagens envolvidos no mundo da fantasia. Portanto,  embora pareça apenas a história de uma menina inocente que atravessa a floresta para visitar levando doces e guloseimas a vovozinha e acaba por escapar da armadilha de um lobo malvado, Chapeuzinho Vermelho é uma história infantil que transmite o que lhe parece mais não é exatamente o que lhe parece, senão vejamos:.


O PEDIDO DA MÃE DO CHAPEUZINHO VERMELHO.

Um certo dia, a mãe da menina preparara algumas guloseimas das quais a avó gostava muito, porém, quando acabara de prepará-las, estava tão cansada que não tinha mais sequer ânimo ou forças para andar pela floresta e levá-las para a vovozinha.
Então, chamou a filha:
— Chapeuzinho Vermelho, vá levar estas broinhas e guloseimas para a vovó, ela gostará muito. Disseram-me que há alguns dias ela não passa bem e, com certeza, não tem vontade para os afazeres domésticos. 
— Vou agora mesmo, mamãe.
— Tome cuidado, não pare para conversar com ninguém e vá direitinho, sem desviar do caminho certo. Há muitos perigos na floresta!
— Tomarei cuidada, mamãe, não se preocupe. A mãe arrumou os doces e guloseimas em um cesto e colocou também um pote de geléia e um tablete de manteiga. A vovó gosta de comer guloseimas e  broinhas com manteiga fresquinha e geléia.

DA ANAMNESE DOS FATOS

Chapeuzinho Vermelho pegou o cesto e foi embora estrada afora. A mata era cerrada e escura. No meio das árvores somente se ouvia o chilrear de alguns pássaros e, ao longe, o ruído dos machados dos lenhadores.

A  menina sem ater-se ao perigo que lhe espreitava seguia firme no seu caminho quando, de repente, aparecera-lhe na frente um lobo enorme, de pêlo escuro e olhos brilhantes, assediando-a e perseguindo-a  em face da atração sexual que sentia por menores com o intuito de molestá-la, praticando atos libidinosos de toda natureza na presença do Chapéuzinho. A figura do lobo, nessa fábula, representa o papel de um ser perverso, selvagem e com más intenções. Hoje em dia, seria representado por delinquentes e criminosos que se aproximam buscando uma chance para cometer um crime. Para tanto, em síntese, trata-se a história já bastante conhecida de todos: uma menina vai visitar a avó doente e precisa, para isso, atravessar uma floresta perigosa. No caminho, ela encontra o lobo mau, que lhe pergunta aonde vai e a convence a apostar uma corrida até a casa da avó. Em algumas versões, entretanto, o lobo recorre à beleza da paisagem e às flores para desviar a menina do caminho original. O lobo, tão mal intencionado quanto esperto, ensina Chapeuzinho Vermelho um “atalho” que, na verdade, é o caminho mais longo. Ele consegue, então, chegar antes, devorar a avó de uma só vez e se disfarçar com suas roupas para enganar o Chapeuzinho, e assim, também, devorá-la.

DA RESPONSABILIDADE DOS PAIS

Em primeiro lugar, a questão intrigante que nos vem à baila a ser argüida é por que os pais do Chapeuzinho Vermelho haveriam de forma desidiosa e irresponsável permiti-la, sendo uma infante impúbere, frágil absolutamente só, desacompanhada de uma pessoa adulta que pudesse dá-lhe a devida proteção, completamente refém do acaso e dos perigos inerentes que habitam uma floresta de mata densa, cheia de armadilhas e embustes tivesse acesso apenas para levar à sua querida vovozinha guloseimas e docinhos?

Logo de pronto determina o artigo segundo da Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências que: “Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre 12 e 18 anos de idade”

Na norma consagrada pelo sistema pátrio vislumbra-se no artigo quarto da supra citada lei que:

“É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegura com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária".

O artigo 5º do mesmo diploma legal, garante que:

“Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”.

Ora é evidente que de acordo com o comando normativo supra citado e transcrito em vigência os pais do Chapeuzinho negligenciaram na proteção e segurança da menor a partir do momento que permitiram de forma propositada que a infante cumprisse o desiderato da mãe, tudo com a mais absoluta anuência do pai, enfim, relaxaram com a segurança, com a vigilância e nos cuidados básicos e indispensáveis a que estão sujeitas e a que tem direito todas as crianças,  portanto, devendo ambos responderem por tal na forma da lei.

Aqui cabe aos pais, o seguinte: Não descuidar das crianças por mais segura que uma situação possa parecer. Por mais que a mãe tenha dado claras advertências à menina, isso não evitou que a vida dela ficasse em perigo. É importante destacar, então, que os pais não devem nunca tomar como certa a segurança dos filhos, por mais responsáveis e independentes que eles possam parecer. “Os pais não devem, em circunstância alguma, tomar como certa a segurança dos filhos”

DO ASSÉDIO E DA TRAPAÇA DO SR. LOBO MAU PARA COM O CHAPÉUZINHO 

É fato notório de que esse elemento de promíscuo a perversão entre uma e outra psicopatia, transita livremente no universo das fábulas. Primeiro foi o assédio de pedofilia [pedofilia - substantivo feminino - perversão que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por crianças] à Chapeuzinho Vermelho.

Com efeito, dêsse episódio, só por si, prontamente, a caracterização por conta do comportamento nefando do Sr. Lobo Mau a tipificação de acordo com o artigo segundo da Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências de ilicitos praticados pelo mesmo, senão vejamos, que: no âmbito estritamente jurídico, a pedofilia é comumente conceituada como o abuso sexual de crianças e adolescentes, ensejando inúmeros crimes previstos tanto no ECA, quanto no CP.
 
Assim, temos no CP os crimes contra a dignidade sexual, possuindo capítulo específico acerca dos crimes sexuais contra vulneráveis:
 
Art. 217-A do CP – estupro de vulnerável;
 
Art. 218 do CP – mediação de menor de 14 anos para satisfazer a lascívia de outrem;
 
Art. 218-A do CP – satisfação da lascívia mediante a presença de menor de 14 anos;
 
218-B do CP – favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou vulnerável.
 
O ECA também trata de crimes envolvendo a pedofilia:
 
Art. 240 do ECA – utilização de criança ou adolescente em cena pornográfica ou de sexo explícito;
 
Art. 241 do ECA – comércio de material pedófilo;
 
Art. 241-A do ECA – difusão de pedofilia;
 
Art. 241-B do ECA – posse de material pornográfico;
 
Art. 241-C do ECA – simulacro de pedofilia;
 
Art. 241-D do ECA – aliciamento de menores.
 
O art. 241-E do ECA trata-se de norma explicativa dos crimes previstos no art. 240, art. 241, art. 241-A a art. 241-D do ECA.
 
Art. 241-E. Para efeito dos crimes previstos nesta Lei, a expressão “cena de sexo explícito ou pornográfica” compreende qualquer situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais.
 
DO ATAQUE GERONTOFILICO DO SR. LOBO MAU PARA COM A VOVOZINHA

Depois do grave assédio de pedófilia com cena de sexo explícito diante da infantil menina, vem o ataque gerontofilico à vovozinha, donde se conclui claramente a toda evidência a personalidade deste meliante ao invadir a residência da mesma e sobretudo por tentar manter realaçoes sexuais contra a votade da anciã indefesa, e que aos berros anunciava-lhe que caso não conseguisse o seu intento, não pouparia a vida da pobre da vovozinha,  senão vejamos:

A gerontofilia refere-se à atração sexual dos não-idosos pelos idosos. Pode ser a atração sexual de um homem jovem por uma mulher madura (graofilia ou anililagnia), ou de uma mulher jovem por um homem maduro. Pode ser uma atração sexual e erótica hétero ou homosexual. Muitas vezes se observa que tal relação, mais que uma imposição libidinosa, tem outras motivações, como interesse econômico, busca de proteção, carência afetiva, complexo de Édipo ou complexo de Electra etc.O interesse amoroso exclusivo por pessoas em média 40 anos mais velhas e o desejo sexual por características físicas próprias da velhice --como cabelos brancos e pele flácida e enrugada-- podem ser sinais de gerontofilia. A atração patológica é uma parafilia --categoria de distúrbios psíquicos que se caracterizam pela preferência por práticas sexuais incomuns, como o sadomasoquismo e o voyeurismo. "A diferença de idade por si só não caracteriza o transtorno. A gerontofilia é diagnosticada quando existe uma discrepância vulgar --como no desejo por crianças--, e o indivíduo não consegue ter relações com pessoas de faixa etária próxima à sua", afirma Ricardo Barcelos, da ABP (Associa... - Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2015/11/13/desejo-sexual-por-idosos-pode-ser-um-problema-entenda-a-gerontofilia.htm?cmpid=copiaecola

A LEI.
Diferentemente do desejo sexual por crianças, a simples atração por pessoas da terceira idade não configura crime. Porém, a violência sexual contra pessoas com mais de 60 anos é um agravante de qualquer ato criminoso. Qualquer ato contra a integridade do idoso resulta em um acréscimo de um terço sobre a pena original. Para denúncias, o Estatuto do Idoso, juntamente com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, disponibiliza o canal Disque 100 --além das delegacias especializadas. Segundo dados do Disque 100, cerca de cem casos foram registrados no Brasil, em 2015.... - Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2015/11/13/desejo-sexual-por-idosos-pode-ser-um-problema-entenda-a-gerontofilia.htm?cmpid=copiaecola

Nota bene:

I - À atracção sexual que um adulto dirige primariamente para crianças púberes ou pré-púberes ou perto da puberdade apelida-se de pedofilia, uma variedade de parafilia, estado psicológico que se queda, na esmagadora maioria dos casos, por um desvio da vida sexual normal, sem atingir o grau de verdadeira psicopatia sexual.

II - O abusador sexual só desce ao mundo da psicopatia quando a conduta é praticada com requintes de malvadez, sendo-lhe absolutamente indiferente o mal causado, experimentando prazer com o sofrimento alheio, mostrando-se carente de escrúpulos, apresentando-se imune à crítica e à recomendação de atitudes correctas.

III - As estatísticas revelam que o perfil psicológico do contraventor sexual numa percentagem entre 80% a 90% não apresenta qualquer sinal de alienação mental, sendo penalmente imputável; desse grupo cerca de 30% nem sequer apresenta qualquer transtorno psicopatológico de personalidade, denotando uma conduta sexual no quotidiano aparentemente normal e perfeitamente adequada; só um grupo minoritário de 10 a 20% padece de graves perturbações psicológicas com características alienantes - cf. Ballone, GJ, Delitos Sexuais (Parafilias).

Personagem de longa e vasta “ficha” policial, o  chamado "clínico geral" inconteste, o - serial - por tantos crimes praticados impunemente no contexto das estórias infantis.
 
A altíssima periculosidade deste bandido não poupa ninguém,  vai da vovozinha ao chapeuzinho até chegar aos Três Porquinhos.

Um verdadeiro maníaco e psicopata. Um facínora nocivo, um gângster que há muito é figurinha carimbada perambulando livremente pela magia encantadora do mundo das fábulas.
 
Para quem não sabe, a fábula é uma história narrativa que surgiu no Oriente, mas foi particularmente desenvolvido por um escravo chamado Esopo, que viveu no século VI a.C., na Grécia antiga. Esopo inventava histórias em que os animais eram os personagens. Por meio dos diálogos entre os bichos e das situações que os envolviam, ele procurava transmitir sabedoria de carácter moral ao homem. Assim, os animais, nas fábulas, tornam-se exemplos para o ser humano. Cada bicho simboliza algum aspecto ou qualidade do homem como, por exemplo, o leão representa a força; a raposa, a astúcia; a formiga, o trabalho etc. É uma narrativa inverossímil, com fundo didático. Quando os personagens são seres inanimados, objetos, a fábula recebe o nome de apólogo. A temática é variada e contempla tópicos como a vitória da fraqueza sobre a força, da bondade sobre a astúcia e a derrota de preguiçosos.
 
A fábula já era cultivada entre assírios e babilônios, no entanto foi o grego Esopo quem consagrou o gênero. La Fontaine foi outro grande fabulista, imprimindo à fábula grande refinamento. George Orwell, com sua "Revolução dos Bichos" (Animal Farm), compôs uma fábula (embora em um sentido mais amplo e de sátira política).
 
Por cá Monteiro Lobato habitou o mercado brasileiro de literatura infantil com tipos de fábulas tropicais, misturou cultura nacional à universal, salpicou moralidades menos caretas e injetou doses cavalares de fantasia à fórmula. Foi contra a corrente dos textos para criança de seu tempo, marcados pela  linguagem complicada e pelos personagens estrangeiros em ambientes estranhos à cultura brasileira. Numa recente manifestação, a psicanalista Betty Milan deu a chave do tamanho da vitalidade e atemporalidade do Sítio do Pica-pau Amarelo em nosso imaginário: “À criança européia o adulto ensina com Chapeuzinho Vermelho a não desobedecer e com Pinóquio a não mentir, à brasileira ensinamos com Emília, personagem de Monteiro Lobato, a fazer de conta”.
 
Que murmurem os descontentes! Mas sob o ponto de vista  jurídico e moral não há como resistir o conto sob comento mesmo a uma descuidada e superficial observação, bastando, para tanto, apenas uma leitura focada sob a luz do direito para logo de prima facie subtrairmos do exame do texto hostilizado uma enorme gama de delitos praticados, isto é, crimes previstos e atualmente tipificados no Código Penal Brasileiro e demais normas jurídicas que regulamentam a matéria. Inaceitável a espécie.

DA INVASÃO DO DOMÍCILIO DA VOVOZINHA PELO SR. LOBO MAU [INVASÃO DE RESIDÊNCIA]

Por outro lado ainda mais nefanda é a conduta do meliante Lobo Mau pela enorme gama dos crimes praticados pelo mesmo no malfadado conto. Destacamos o fato de o facínora além de assediar a Chapeuzinho, invadir, adentrar o lar, violando assim a casa, e, portanto, a residência da vovozinha, cometendo a ilicitude tipificada e com previsão legal inclusa no artigo 150 do Código Penal Brasileiro, que assim reza:

“Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências: pena: detenção, de um a três meses, ou multa”.

Atenção! O local onde a vovozinha morava era um bosque, uma floresta, portanto, local de acordo com a norma considerado ermo, e neste caso de acordo com o parágrafo primeiro do art. 150 do CPB assegura que:

“Se o crime é cometido durante a noite, ou em lugar ermo, ou com o emprego de violência ou de arma, ou por duas ou mais pessoas: pena: detenção, de seis meses a dois anos, além da pena correspondente a violência”.

Também violou o inciso XI, do art. 5º [quinto] da Constituição Federal, que determina:

“a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial".
 
É de se atentar que de acordo com a legislação supra transcrito o Senhor Lobo Mau violou normas de elementar cumprimento, in casu, a que garante ser o abrigo, o lar um local inviolável, assim, como também violou a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, que Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências.

DO CRIME DE TENTATIVA DE HOMICIDIO DO SR. LOBO MAU PARA COM A VOVOZINHA

Não bastasse o delito supra apontado, o Senhor Lobo Mau também violou o comando normativo do inciso II artigo 14 do Código Penal Brasileiro ao tentar comer a vovozinha, pois ao iniciar a execução do crime, este não se consumou por circunstâncias alheias à vontade do agente, já que o calhorda, o facínora do Lobo Mau foi flagrado no ato pelos caçadores que intervieram salvando a pobre idosa das garras do meliante. Sendo assim, a pena para o caso tipificado é a mesma pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços.

DO DANO MORAL E DANO MATERIAL

Alfin, a morte em si é medo. Medo da finitude do ser, medo da exigüidade de tempo de uma vida causa profundo trauma imposto abruptamente à grei humana.

O dano moral, espécie de dano extrapatrimonial, é comumente definido como a lesão a um dos direitos da personalidade, como a honra, imagem, nome ou identidade. Em outras palavras, pode ser compreendido como o abalo no estado anímico do indivíduo, capaz de incutir sentimentos como dor profunda, vergonha, vexame, constrangimento e humilhação.


A tutela jurídica sobre o dano moral não é antiga em nosso Ordenamento Jurídico. No Brasil, foi apenas com a Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, incisos L e X, que a proteção finalmente encontrou abrigo, preenchendo tardiamente uma lacuna que já gozava de ampla disciplina no Direito Comparado.


O dano moral, espécie de dano extrapatrimonial, é comumente definido como a lesão a um dos direitos da personalidade, como a honra, imagem, nome ou identidade. Em outras palavras, pode ser compreendido como o abalo no estado anímico do indivíduo, capaz de incutir sentimentos como dor profunda, vergonha, vexame, constrangimento e humilhação.


A tutela jurídica sobre o dano moral não é antiga em nosso Ordenamento Jurídico. No Brasil, foi apenas com a Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, incisos L e X, que a proteção finalmente encontrou abrigo, preenchendo tardiamente uma lacuna que já gozava de ampla disciplina no Direito Comparado.


Destarte, cabe à vítima vovozinha buscar socorro na esfera do Direito Civil para ter assegurada à reparação do constrangimento a que foi submetida através de uma ação de indenização pelo dano moral sofrido, e até mesmo, uma indenização por dano material se algum prejuízo ocorreu em decorrência dos atos praticados pelo autor [Lobo Mau] se comprovada a existência de algum dano à bem material.


Acompanhando a inovação constitucional, de suma importância o tratamento dispensado ao dano moral pelo Código Civil em vigor hoje, que traz em seu artigo 186 o reconhecimento expresso da existência de dano moral ao dispor, ver bis: "Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito" [grifo nosso]. O supracitado artigo, em conjunto com o artigo 927 do referido diploma legal encerra qualquer argüição existente sobre a não reparabilidade de dano reputado como moral, constituindo-se em verdadeira inovação em nosso ordenamento.

 
A propósito, conforme ressalta o Professor José Afonso Da Silva: “A vida humana, que é o objeto do direito assegurado no art. 5o, caput, integra-se de elementos materiais (físicos e psíquicos) e imateriais (espirituais). [...] No conteúdo de seu conceito se envolvem o direito à dignidade da pessoa humana [...], o direito à privacidade [...], o direito à integridade físico-corporal, o direito à integridade moral e, especialmente, o direito à existência.”
 
E continua o Mestre:
 
“A vida humana não é apenas um conjunto de elementos materiais. Integram-na, igualmente, valores imateriais, como os morais. A Constituição empresta muita importância à moral como valor ético-social da pessoa e da família, que se impõe ao respeito dos meios de comunicação social (art. 221, IV). Ela, mais que as outras, realçaram o valor da moral individual, tornando-a mesmo um bem indenizável (art. 5o, V e X). A moral individual sintetiza a honra da pessoa, o bom nome, a boa fama, a reputação que integram a vida humana como dimensão imaterial. Ela e seus componentes são atributos sem os quais a pessoa fica reduzida a uma condição animal de pequena significação. Daí por que o respeito à integridade moral do indivíduo assume feição de direito fundamental.” [sem grifo no original].
 
Portanto, enraizada, a reparabilidade do dano moral no sistema normativo brasileiro e na própria Carta Política, têm-se como certa a sua aplicabilidade em face de qualquer “lesão injusta as componentes do complexo de valores protegidos pelo Direito”, como necessidade natural da vida em sociedade, conferindo guarida ao desenvolvimento normal de todas as potencialidades de cada ente personalizado.

DO DANO MATERIAL

Por dano material deve-se entender aquele perceptível pelos sentidos, ou seja, que se pode ver e tocar. É qualquer lesão causada aos interesses de outrem e que venha a causar diminuição patrimonial a esse outrem.

Como pode ser comprovado, o Sr. Lobo Mau causara grandes preju[izos de ordem material ao patrimônio da Vovozinha, conforme consta do apurado e respectivos comprovantes de avaliação, portanto, deve o autor indenizar a vítima.

DOS CAÇADORES - DO PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO DE USO PERMITIDO - ART. 14 LEI nº 10.826 de 22 de Dezembro de 2003.

De acordo com a versão dos irmãos Grimm, menos cruel e explícita que as anteriores, a menina quase teve o mesmo fim que a avó, se não fosse os caçadores que salvam ambas, tirando a avó de dentro da barriga do lobo.

Igualmente na esfera penal devem ser punidos também os lenhadores e caçadores por infrigência à lei que regulamento o porte de armas, pois mesmo figurando como heróis na mencionada fábula todos portavam armas de fogo sem qualquer adequação ao rol enumerado que poderia autorizá-los a portá-las, configurando assim no caso ora em tela o uso do porte ilegal de arma, devendo responde de acordo com o Artigo 14 da Lei nº 10.826 de 22 de Dezembro de 2003.

Art. 14. Portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.
Parágrafo único. O crime previsto neste artigo é inafiançável, salvo quando a arma de fogo estiver registrada em nome do agente. (Vide Adin 3.112-1)
Disparo de arma de fogo.

Do exposto não bastasse o aspecto de ordem legal há também o aspecto de formação moral.

Inadmissível que uma historieta aparentemente inocente contenha elementos de altíssima negatividade, tanto para o crime como para o mau exemplo, induzindo à violência, a astúcia, a mentira, a perspicácia, a falta de respeito, a negligência e sentimentos contrários ao altruísmo humano, já que é comum a prática de adultos, pais, etc., locupletarem-se abusando e explorando crianças inocentes e desprotegidas, e o que é mais grave, em muitos casos chegam as mesmas a pagarem com a própria vida.

Com tantos Lobos Maus por aí, prevenir é melhor do que remediar, pois caldo e canja de galinha não faz mal a ninguém.

Em estrita obediência às normas jurídicas que regem os direitos autorais, peço vênia para a transcrição ipsis litteris do texto abaixo, extraído da página - Contos de Fadas - origem Wikipédia - a enciclopédia livre e bibliografia, senão vejamos:

Diferentemente do que se poderia pensar, os contos de fadas não foram escritos para crianças, muito menos para transmitir ensinamentos morais (ao contrário das fábulas de Esopo). Em sua forma original, os textos traziam doses fortes de adultério, incesto, canibalismo e mortes hediondas. Segundo registra Cashdan (2000, p. 20):

““ Originalmente concebidos como entretenimento para adultos, os contos de fadas eram contados em reuniões sociais, nas salas de fiar, nos campos e em outros ambientes onde os adultos se reuniam - não nas creches. ““

Mais adiante, Cashdan (2000, p. 20) exemplifica:

“ É por isso que muitos dos primeiros contos de fada incluíam exibicionismo, estupro e voyeurismo. Em uma das versões de Chapeuzinho Vermelho, a heroína faz um strip-tease para o lobo, antes de pular na cama com ele. Numa das primeiras interpretações de A bela adormecida, o príncipe abusa da princesa em seu sono e depois parte, deixando-a grávida. E no conto A Princesa que não conseguia rir, a heroína é condenada a uma vida de solidão porque, inadvertidamente, viu determinadas partes do corpo de uma bruxa”.

Ainda conforme afirma Cashdan (2000, p. 23), "alguns folcloristas acreditam que os contos de fada transmitem 'lições' sobre comportamento correto e, assim, ensinam aos jovens como ter sucesso na vida, por meio de conselhos. (...) A crença de que os contos de fada contêm lições pode ser em parte, creditada a Perrault, cujas histórias vêm acompanhadas de divertidas 'morais', muitas das quais inclusive rimadas". E ele conclui: "os contos de fada possuem muitos atrativos, mas transmitir lições não é um deles" (2000, p.24).

São Luis [MA], 16 de outubro de 2019.
 
Manoel Serrão da Silveira Lacerda.
[Advogado - Poeta e Professor de Direito]

ANSEIO POR UM AVIVAMENTO

Reconheço que a palavra "avivamento" está desgastada no meio evangélico brasileiro. Sei que em muitos redutos, o avivamento tornou-se sinônimo de esquisitice. Há aqueles que confundem avivamento com toda sorte de sincretismo religioso. Há outros que associam avivamento com as últimas novidades no mercado da fé. Porém, os desvios de muitos e a apatia ou a oposição de outros, não abafam no meu peito o anseio por um genuíno e poderoso avivamento espiritual. Por que devemos esperar ainda um avivamento?

Em primeiro lugar, porque Deus prometeu (Is 44.3). Deus prometeu derramar do seu Espírito sobre sua igreja. Essa promessa é segura, pois não é feita pelo homem, mas pelo Deus Todo-poderoso, que fala e cumpre o que diz; faz e ninguém pode impedir sua mão de fazê-lo. Nenhuma força na terra pode deter o braço de Deus nem impedir a igreja de avançar. Essa promessa é, também, abundante. O texto fala de um derramamento e de torrentes. Deus tem para nós uma vida maiúscula e abundante. Ele não nos dá o seu Espírito por medida. Ao contrário, prometeu-nos torrentes!

Em segundo lugar, porque nós precisamos (Is 44.3). A igreja está como uma vinha murcha. Falta-lhe vigor e entusiasmo. Está como uma figueira com folhas, mas desprovida de frutos. Em muitos redutos falta a sã doutrina; noutros falta fervor. Em muitas igrejas há ortodoxia, mas não existe poder; noutras há muita trovoada, mas nenhuma chuva. Há igrejas que, lamentavelmente, sucumbiram ao liberalismo teológico e abandonaram sua fidelidade à palavra de Deus. Essas igrejas estão desidratando e entrando por um caminho tenebroso de apostasia. Há outras igrejas que, governadas pelo pragmatismo, renderam-se ao sincretismo religioso, abraçaram as últimas novidades do mercado da fé e sucumbiram ao antropocentrismo idolátrico. No texto em tela, o Espírito é simbolizado pela água. O que isso nos ensina? Primeiro, não há vida sem água. Podemos ter a melhor terra, a melhor semente, os melhores insumos e a melhor tecnologia. Sem água, a semente morre mirrada no ventre da terra. Podemos ter templos modernos, tecnologia sofisticada, pregadores cultos, músicos excelentes, mas sem o poder do Espírito Santo, não há vida na igreja. Como disse Charles Spurgeon: "É mais fácil um leão tornar-se vegetariano, do que uma alma sequer ser salva sem a obra do Espírito Santo".

Em terceiro lugar, porque quando a igreja tem sede de Deus, ele derrama sobre ela as torrentes do seu Espírito (Is 44.3). Deus derrama água sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca. Não podemos ser cheios de Deus até que estejamos vazios de nós mesmos. Não seremos saciados com as chuvas benditas do céu, a não ser que estejamos com sede de Deus. É por essa causa que os avivamentos sempre foram precedidos por oração. Avivamento não é sede de bênçãos, mas sede de Deus. Avivamento vem como resposta à oração de uma igreja sedenta pela presença de Deus. Hoje, as pessoas buscam prosperidade e saúde. Querem os milagres. Querem as bênçãos. Mas, a vida gira em torno delas mesmas. O centro de tudo é a vontade do homem. Em tempos de avivamento a igreja anseia por Deus mais do que pelas bênçãos de Deus!

Em quarto lugar, porque uma igreja cheia do Espírito Santo colhe resultados extraordinários (Is 44.4,5). O primeiro resultado de uma igreja cheia do Espírito é um crescimento numérico explosivo. Os descendentes de Abraão brotam como ervas, como salgueiros junto às correntes das águas. Pecadores endurecidos são quebrantados. Multidões, aos borbotões, correm para a igreja, com pressa para acertar a vida com Deus. Igrejas vazias ficam cheias. Igrejas fracas ficam robustas e cheias do poder do Espírito. O segundo resultado é que os crentes tornam-se ousados no testemunho. Cada um diz ao seu próximo: "Eu sou do Senhor". Uma igreja cheia do Espírito não cala a sua voz. Não se acovarda nem sonega ao mundo a mensagem do evangelho. Finalmente, uma igreja cheia do Espírito confirma com a vida aquilo que prega com os lábios. Não há abismo entre o que igreja prega e o que ela vive. Os crentes escrevem na própria mão: "Eu sou do Senhor". Oh, que Deus derrame sobre nós as torrentes do seu Espírito! Que venha sobre nós as chuvas benditas do céu, trazendo-nos restauração e vida!


Lá na UPA, bem nos CONFINS da CIPA já não CEI se a ALCA CUT o IGP ou se o ITBI dá para o IPC, quanto mais se a NASA, o PENTÁGONO e o MST invadirão a RFFSA, a Amazônia ou a EMBRAER. Wells há mais sigla entre o CEO e a terra do que supõe nosso Van filosofia [só para não dizer que não falei de siglas].

Só SANSEI é que se UNE o CTN ao Leão [do] IMPOSTO [R]; o ERÁRIO o FISCO DEFICIT ao ECONOMÊS de mestre ERG [UE-se] imposto [s] a todo [s] num dial D sol para a CND só RIR perversa. Assim entorpe sob a umbra fiscal, dominados e subsumidos por singelas siglas e signos de aparência neutral serve o fisco maître no cardápio da Mesa de Renda o fel amaro da tributação, um purée, um AGU pra CEAS na DATAPREV's. Quando não é INSS, ICMS, IR, ISS? É IPI, IPTU, ITBI? É IRRF, IPV?

Potassa cáustica confisca do MERCOSUL e ainda cobram do POP assalariado a PIB DE ILUMINAÇÃO.

Ó Lady SELIC! Ó Sir. DOW JONES! Ó Inhá CONFAZ! Isso não SENFAZ!
Por que tanta usura jurássica? Tantos juros no purgo de Hades se nada fazem e nos dão DAIS?

Olha que até o Código de Hamurábi limitou a cobrança de juros nos empréstimos? Olha que até o Pentateuco fez a primeira condenação ética à cobrança de juros? Além de Aristóteles, o Antigo Testamento, a homilia de S. Basílio Magno, São Thomas de Aquino e o Condex normativo pátrio proíbe e pune a tal prática do "aluguel sobre o dinheiro"? Não vê que por cá tem que ter a CUT para dizer? Que para tanto imposto a pagar tem que ser Deus?

Junte-se a nós. Você pode. Vão pra PQP? Como diria Sartre: O inferno não são os outros, o inferno são os impostos!

Desde a.D e a.C batiza o Cristo o mesmo FOB.

É CEMPRE a idiossincrasia do reduzir a pó a nomenclatura toda CEMANA.

Se não for o repetitivo e o mal educado do CEO CIAC sem LER o ABC com o CPU do PC tarado molestando a UFIR da TR ou o DORT distúrbio [nado] osteomuscular a mandando há anos pegar na RAIS e por no DAT a seco sem DNOCS no IOF no MP no TCU lá onde o TIPI e o TFE tomam no CONTU? D'outro é o data show digital sem OFFSETT emendando uns fatos e fotos extra para as arquibancadas no COSPY DESK.

Triste é vê a BR na TPM rodada entulhada de pau e pedra, cheia de pó e lama no fim da estrada mal sinalizada KM da vida mandando o DNIT tomar lá nos buracos e nas curvas onde a BR-3 toma só pra vê a PRF nos por a nu pelado no RABECÃO do IML, enquanto o $ cínico do PEDÁGIO manda eu, manda tu, manda ele, manda nos e vos, manda você tomar nu... E soprar no BAFÔMETRO com a cara cheia de ALCA lá do DPVAT da SUSEP, no IPVA do CETRAN, do DETRAN, da CIRETRAN no CBT do CONTRAN bem fundo FED do DENATRAN?

Caracas! Quando não fora o HAMMAS, fora o HESBOLLAR do Bin Laden, agora é o Estado Islâmico jogando Boston no Tio SAM?

É a ASFARC ou a MIS U.S. A num ABREV [iar] do de cujus Hugo Chávez? Sin., pero non mutcho Maduro!

É o FBI com a Cia, a SUAT e a FAB no CPOR do DAC?
É o GATTE do DEIC no CTA da ROTA socando a MÁFIA e o SENAD na COSA NOSTRA!

INRI Cristo DIU? O Ministério da Saúde ANVISA: É só a KS por no PET a Vênus para conter o HIV da AIDS que a invejosa BCG mal curando o KOCH chega logo sem bacilo com a DENGUE de picadura para a ZICA da SUCAM?

Sou NERD. Sou Nerd mesmo? Como é que por "livre e espontânea vontade" fui obrigado a contribui com a CPMF e agora no K.O infecto de IMPI GIA com FEB e FAQ tonto sem CAL [oria] e KV de potência não há um só DOUTOR do CRM e leito no CTI da UTI? Não há uma AMBU COPOM da AMB nem o DDT da CEME na "gaiola" das UCAS? Ó OMS! AI que SUS!

Não! Não! Não sou OTAN!

Sem SUNAB, sem Inmetro e sem PROCON?

Sem ST, sem STM, sem TJ, TST, TSE, TRT, TRF, TCM, TCE e TCU? UA?
Goethe ou não Goethe [m] vão todos para o CNPq?
Ou vão parar na USP, na UnB. Parar na PUC e na UFMA?
Ou vão parar no CAPES, no SESU, no ITA? Lá terão Sophia e Sofos?

Sou do prozac, mas não vivo sem DP.
Sou da CF pra viver sem ter PF, sem ter CIVIL, sem ter PM, mas não chupar DOPS no xadrez!

Tenho CI e CPF do MF sim!

Tenho DOC - CRACHÁ - CEF - COMPROVANTE DE ENDEREÇO e fator RH.

Tenho no escorregado: HABEAS-CORPUS, SALVO CONDUTO meu ADV. e ALVARÁ.

DOU o DARF pago pontual em cash ou via TED o IRPF.
DOU o CNPJ? DOU no CNPJ ou IRPJ imposto recolhido sem sonegar

DOU a CTPS assinada e guia do FGTS autenticada.

Olha vê se não enche DIEESE?

O IBGE acusa o IGP de sabotar o PIB, mas jura o IPE e a OIT que o IDH é baixo.

Confessou a SEF e a INEPE, a FUNBEC, a FUNDEF, a SBPC e ao diretor do MEC que sem o finado MOBRAL o IDEB da Escola Pública que não ANDES sabendo, tomou um ZERO!
Deu nas ondas moduladas da RADIOBRÁS que nem a ONU a FEBEM suporta mais, e que a OEA com o UNICEF já não seguram as verdejantes parreiras do ENEM.

Ora, porque não aproveita então e vai de SUFRAMA dizer ao INPA falar ao SINRED denunciar ao sistema pátrio cuidar bem da FUNAI e do IBAMA sem parar de olhar para as florestas que aos poucos vão morrendo sem chorar na UTI vitimadas pelo lucro voraz da BOVESPA; do BM&F; do BID e o BIRD; do BCB; da FEBRABAN; das MADEREIRAS; do CAPITAL ESTRANGEIRO e da OMISSÃO do próprio gov.com. br.

Mayday... Mayday.

DDD, DDI, LBV, LBA.

Ligue já! Bela importa a PESTALOZZI e a saga boa da APAE!

Quanto mais tem ÍBIS no futebol, CRE, CRB? Dá FLA e FLU? Tem FIFA, FISA, FITE COE?

Quanto mais tem CBF, CBM, CBV, CBT, CBB, CBJ, CBA, CBAT? Tem CONMENBOL e COI?

Quanto mais tem FIPE, FINEP, FUNDEB, FESESP e FIESP?
Mutilam o Portinari, o Aldemir e a Tarsila do Amaral.
Bel. -art. [Belas-artes] ó PÍNEL?

Acaso querem o IPHAN no UHDF?

Que sandeus de nós meu Deus!

OXÊNTE! Não pare lá na sig [L] a? Não pare? Signos!
Siglonimizar? Siglonimização? O ato de criar siglônimos?

UÉ! Até o infixo afixo no interior das palavras, o DIS em indispor e o do por Z em florzinha já o conhece?

BAH! Inté o tê é té do até da aférese aparece?

Hein, hem! Assim não dá! Assim não dá inhô Zé?
UAI! Ou vai pra DF de JK ou segue pra MG de JF e BH?
Quando não é o PAC, é o PIB, é o PIS e o PASEP.
Quando não é o SEST, é o SEBRAE, é o SENAI e o SESC.
Quando não é o SENAT, é o SESI, é o SENAC e o SERPRO.

É o IBOPE inábil opinando ao INCRA que não há a sós "sem terras"?
Ó CREA! Não ABRAS boca IBOPE.

É o FUNRURAL fuçando na bengala do tio SERASA.
É o FIM! O MST no PNDH denuncia levar pau do TFP e sal da UDR.
É a INFRAERO de VARIG e o GOV. de VASP indo Pro G9 impressionar com o PRÉ-SAL a OLP e a OPEP.

É o SPU cobrando um mar de dunas e o domínio do mar azul para si.
É o SPC cagando na me e o cartório do ócio negócio carimbando os ossos do protesto.
É o ABECEDÁRIO do AA, AAA, AABB, BB, ABC, ABCD, AACD querendo a CEF... FUI!

Ora... Ora... Vão-se pro MAM ou pro MASP que os carregue.
Vou surtar. Vou surfar.
Vou sentar. Vou mesmo é [a] fundar uma ONG no sofá.
Vou pedir um empréstimo à SUDAM e um "papagaio" junto do BNDES.

Uni-duni-tê salame míngüe!
Para o PV que não vê? A mídia da TV?
Misericórdia D'us. Um PT saudação.
Vou é deitar e rolar.
Ainda bem que no THE END me resta a FUNARTE, a ABI, a OAB e a ABL.
A CNBB? A CNBB é só a voz roca de Deus no Brasil.
Ciranda cirandinha... Vamos todos cirandar...
Quem gostar de mim sem ANEL? Sou Eu ANATEL!




Leia o COMENTÁRIO DE: João Batista do Lago [Articulista e analista político, poeta e escritor, foi editor de vários jornais e tem livros publicados]. ["João Batista do lago, maranhense, pode ser considerado, atualmente, um dos mais completos poetas e cronistas do Brasil, haja vista a consciência plural e significativa de sua intuição cultural, fato que o faz passear entre musgos históricos gregos e o modernismo clariciano, espargindo o pensamento poético alemão, americano ou inglês, sem esquecer das taças saboreantes dos vinhos que enebriaram o cismar dos poetas franceses como BAUDELAIRE (Charles Baudelaire), MALLARMÉ (Stéphane Mallarmé), FRANÇOIS COPÉE (François Édouard Joaquim Copée) e MUSSET (Louis Alfred de Musset) - o poeta do amor. Como eu, o Maranhão e o Brasil também, creio, se orgulham de João Batista do Lago, uma das maiores expressões literárias do mundo moderno. Fato que, realmente não deixa a desejar se comparado a nenhum dos franceses acima citados". Marconi Caldas Poeta, escritor e advogado São Luís - Maranhão - Brasil 2007].

Esta poesia do poeta Serrão Manoel, aos meus olhos, é de uma modernidade gritante. Percebam que falo de modernidade e não de modernismo! Faço questão de acentuar esta diferenciação para, assim, poder fixar-me na nucleação primeira, fundamental e fundaste deste poema.

O poeta constrói o poema a partir do campo siglonômico, uma ferramenta indispensável à modernidade do tempo do aqui e agora. E ele o faz com mestria: humor, sarcasmo, sátira, denúncia...

E vai mais além quando nos aprofundamos numa análise de conteúdo: de forma ímpar presentifica sinais que se nos remetem aos campos da Política, da Economia, da Filosofia, da Sociologia, da Psicologia...

Ao ler e reler este poema teve a nídita sensação de encontrar, na alma de cada verso, o espírito do "valor duplo, contraditório e indecidível" aventados pelo francês Jacques Derrida, isto é, Serão Manoel evidenciam nesta sua poética "posições" dos signos nos convocando a constantes e continuadas releituras do texto que vai construindo e desconstruindo valores desenhados no campo da mente de cada qual que toma conhecimento desta obra.

A siglomatização, como ele a infere a partir do título, é, ao mesmo tempo, uma convocação para a revolta, a partir do instante em que o campo siglonômico nos retorna ao ventre da nação como imbecis humanos destinados a obedecer ao status que letargia dos pela inocente incompetência de entender tantas siglas, mas ao mesmo tempo condenados à obediência de suas regras se não quisermos apodrecer no fundo de uma vida acivílica.

Ainda assim, o poeta, numa tentativa desesperada de desconstrução desse mundo real... Mais que real: surreal, oferece-nos sua indignidade como obra da mais pura razão de luta contra todas essas iniqüidades que são geradas no ventre o Poder, ao seu bel prazer, pois sabe que ao povo condenado resta apenas obediência insofismável da sua desconstrução diária:

"Ora... Ora... Vão pro MAM ou pro MASP que os carregue.

Vou surtar. Vou surfar.
Vou sentar. Vou mesmo é [a] fundar uma ONG no sofá.
Vou pedir um empréstimo à SUDAM e um "papagaio" junto do BNDES...".

Quem dera pudéssemos agir assim... Noutras palavras, palavras do tamanho do povo que fala: "Ò, aqui, banana pra vocês...".

Parabéns, poeta João Batista do Lago.

Delírio floreado sobre o tempo.

Canto I

É-me possível sonhar durante a insônia
E transpor as pontes, quiçá, foram construídas
Tal como peregrino astuto de odisseias e ilíadas
A perambular entre eunucos pelos portos da Jônia

Passo por alexandrias de Tolentino
E desato a percorrer romas e atenas
E vou desbravando as ruelas do destino
Cheias de concubinas, meretrizes e mescenas.

Banho-me no sol de vento, que ao relento
Jorra do alto, chovendo e emanando luz
Durmo nos trigais dourados dos campos plenos
Sorvendo o sangue de Baco, o milagre vínico de Jesus.

A aura que envolve este sonho febril
É tão forte e colorida, tanto que,
Parece o brilho do próprio sol, se
Refletido em cristal numa tarde de Abril

Vejo, daqui, Sócrates, solene, carcomido pela cicuta
Moral e sólido até o último ato da ópera
Pelos cantos, fanhos, arrotam os rotos birutas
Os olhos farfalham, os canalhas gargalham, hipócritas.

Zaratustra já velho e só, falando sozinho, sábio
O sol dourando-lhe as rugas do corpo que esvai
Estreito, cambaleante, demasiadamente magro
Todavia, eis que ele se levanta enquanto cai.

Em Creta não se fala senão que
Poderá haver invasão dos miscênios
E que isto, nos próximos milênios
Será História, Academia, Livro que se lê.

O ar, saturado de pó de canela e tabaco
As rosas vibrando enquanto o chão estremece
As centúrias marcham sobre o charco
E no franco solo dominarão Malbec.

Em Venorona, Montechinos e Capuletos
Fazem o mesmo que os unos e os romanos
Escudos, gritos, lanças, espadas e amuletos
Os sonhos difusos, africanos, confusos, urrando

E sonho a Hélade aristotélica
O império Inca, os mitos germânicos, alvas túnicas
Fantasmas que bailam em danças estéricas
Santas, suas contas e suas súplicas

Passo pela China antiga e sua astrologia
Pelos dragões da chuva, pelas liras, por castelos
Ouço o abrir das rosas tão forte quanto durante o dia
Ouvira com poesia as batidas de um martelo.

Vejo, do céu, uma única gota de chuva desabar
Desce veloz como míssil órfão e preciso
Não sei se é lágrima de choro ou sorriso
Mas no centímetro de chão que cair, a vida renascerá.

Canto II

Seremos os guerreiros de Esparta
Generais, ou os que lutaram contra os mouros
Com elmos, até os de Avalon, de espadas
Ou de sandálias, os romanos com seus louros.

Ao som da harpa brindaremos, e violino e flauta
Tocaremos pelos campos, ao fundo, o fole escocês
Atirar-se-ão todos nas fontes e depois nas saunas
E dormirão um sono profundo, imundo, de embriaguês.

Fontes inesgotáveis de pedras ametistas
Sândalo e gérberas, nenúfares nos rios
Como no qual João, o Batista
Banhou o nazareno entre tantos meninos.

Enquanto pela manhã passeava por um Nilo ou Danúbio
Ou qualquer grande rio, não me lembro ao certo
Reparei num louco ao longe, lutando contra o castelo
Já lutara contra moinhos, havia sua loucura em dilúvio.

Vestia-se com tampas de panelas de argila
Aos passos errantes, em frases de delírio
Pensei avistar o cavaleiro de Cervantes
E isto, eu cá, à beira do Tejo e seu beijo de rio.

Quando repentinamente emergindo em minha vista
Vi os deuses do olimpo ressuscitados e os titãs
Afrodite e Zeus bailavam em raios pela pista
De fogo, de onde cantavam doze loucas fadas anãs.

Seria o ópio? Mas não era óbvio? Cogumelos?
Ou vapores de transe, tal qual os do Óraculo de Delfos?

E ao lado disso tudo, surdo, e mudo e cego e só
Uma semi estátua de coisa alguma, uma quase nada
Não sei se de sal, tal qual a mulher de Ló,
Ou se sábio como Jó, ou se louca, salamandra irada

Bem ali, parado, o vulto espectral da possível pedra
Boquiaberta, entorpecida, sentada em lótus
Talvez fosse o tétrico espírito da métrica
Que sendo eu Velásquez, com pincel tirava-lhe foto.

E atrás de mim, para imenso e justo espanto
Flutuava em jardim suspenso, babilônico
E tanto era, também, o meu encanto
Ante tal sonho amoníaco e messiânico

Que, como Werther, antes de adormecer no bosque
Ponte que como a Fausto, levar-me-ia por tantas cenas
Embebedara-me no lusco-fusco de lambruscos, e torpe
Sonhei loucuras, fantasias e sandices, apenas.

Lá, no tal sonho, do tal rio de qual estátua
O caveleiro errante permanecia lutando, a vassoura à mão
Minha cabeça rodopiava indecisa: ora leve como uma pluma
Densa como uma bruma, ora pesada como um brasão.

Aos poucos fui voltando a mim
Ou ao menos a ideia de mim que tenho eu
Pois quem saberá depois de tudo enfim
Se tal ideia de mim, contém de fato o que é meu?

Canto III

Observei, refletido, disforme no lago
Uma imagem febril, que ao que me parece
Poderia ser tanto como a de Mérlim, um mago
Ou de um magro alucinado de Dostoievsky.

Trazia na feição litros inexatos de dor
Tanto e qual um santo de Caravaggio
De uma dor sublime, bonita, dor de amor
Larga e profunda como a dor de um velho sábio.

Fitava-me com seus olhos de mistério
E falava línguas estranhas, esquecidas, proibidas.
Segurava nas mãos um globo preso em cetro
E nos pés calçava a saudosa Alexandria.

Trazia no manto, todo espanto e toda glória
E do meu sonho ofegantemente acordei
Quando ouvi bradar como um Rei
- Boa noite! Chamo-me História!

Então, ali, naquele algo insondável, no Ser História
Vi que seus olhos eram celtas, suas mãos foram Napoleão.
Seus pés César, seu sorriso fora Tróia
E no seu peito batia Ricardo, um coração de leão.

A Sistina sua alma, a Nona de Beethoven sua voz
Em tropel orbitavam-na ciências, artes e letras
Em suas mãos, sangue, pólvora, baionetas, e de sua Foz
Jorravam Estados, vilas, continentes e Igrejas.

A História fitou-me fundo nos olhos meus
E mais sobre ela compreendi que não poderia saber
Pois sobre o futuro, senão Deus
Quem saberá o quanto ainda há por acontecer?

Seria o ópio? Mas não era óbvio? Cogumelos?
Ou vapores de transe, tal qual os do Óraculo de Delfos?

Numa noite de estrelas, o Hipnos tocou minha alma melancólica
Já sabemos que o sonho são imagens da mente e consciência simbólica
É tal matéria-prima da imaginação, tem como lapidar
E quem guia o coração, a paixão e a razão tem que se equilibrar
Que seja ouro ou diamante, o último será o primeiro, eis o amor
Luz da vida, transcende qualquer seja a forma, até mesmo o seu autor

Como deves saber, este é o meu monólogo com as estrelas
"Ora, ouvir estrelas?" O poeta sabia! E só é triste não vê-las
Mas em sonhos estou entre elas, pois de lá que veio a minha essência
Compõem meu corpo sólido, e atravessou o tempo em sua fluência
Pois veja o que sou agora, uma coisa do mundo de certa maneira
Quão tão longe estou, que produto afinal reflete a mesma inteira?

Deito-me eternamente em seu berço esplêndido por sua natura
E peço o teu consolo, ó mãe desconhecida me tire a tristura,
Um grão filho, um rei sem coroa, ainda menino, o velho peregrino
Entoa a canção dos bardos, e dos trovadores o perdido hino
Nem tão longe da vossa graça, nem tão perto de vossa beleza
Apresentou-a de si mesma, amada Sofia, sua própria natureza

Fiz da minha alma a tua morada o seu castelo, o nosso lar poético
Então que seja idílico ou seja punk, natural ou sintético
Aqui já não jaz morto, som de magia e jazz é valsa, ou de boleros
Tal noite negra Orfeu tocou um blues, e fez a bossa nova de Eros
Porém, já muitos sóis eram passados, hoje então navegaremos
Por sonhos nunca antes devaneados, sobre as númens passaremos

O teu mundo é tão grande, e o meu tão pequeno, Sofia o que somos?
Por isso fui a Pasárgada, infeliz estava eu preso sob os domos
Pois voltei de lá rei, depois que descobri o paraíso inventado
Reflexo do jardim criado por estética e mito passado
Para o alto Parnaso depois eu parti, e as musas visitei
Que inspiraram as virgens, tal como Apolo criei um jardim que fitei

Da fonte de Castália bebi, e de ouvir apenas me inspirei
Mergulhei em tuas águas, e olvidei das mágoas as marcas que deixei
Com a lira de Apolo um legado pra Orfeu, pois quem canta compõem
Quem compõem há de ter um espírito poético assim como Poe
Assim como o sol se põe, do outro lado ele nasce, do oriente ao poente
Pois rio que nasce ouro, pela noite à luz do poeta é latente

Ouro e boro de igual ao de mercúrio doce também já tomei
Sobre a lua argentada lucífera torna a si com lauras rei
Da taça dionisíaca o louco se faz torto dentro dos espelhos
Sangra ao vinho o alquímico processo real de tons azuis vermelhos
De sua força a coragem de um leão que do ruge o céu fora azulado
Serpenteia o destino da orbe amarelada com véu esverdeado

A chegada da noite que anuncia os fios que tecem estrelares
Vem Sofia o teu amor com os meus olhos ter o bel-prazer lunares
A paz que consegui através da tua alma mater inebriante,
Aconchegar em braços de ninfas carícias de uma doce amante,
Receba-me ao encanto aos toques de afagos no âmago de ser
E quem ama não teme nem a escuridão e nem teme morrer

Com chocolate, vinho e mel tua rubra veste alegra como delícias
Sabedoria estimada, ser da intimidade que me trás carícias
Que preza a real bondade erotídeas, e bebe ares ao qual liberta
Apaixonadamente inspirada com mil rosas, é a tua coberta
Vem incerta ao amor que se autodescoberta para quem desperta
Então não desespere porque a primavera será descoberta

Assim como Calímaco conta em seus hinos, temos jardineiras
Estas nascem das árvores, são hamadríades as nossas floreiras
Anunciam com tamanha alegria a primavera em sua festa chegada
Com seus jogos florais e píticos em tua homenagem amada
Dispersam prantos quando da queda das folhas, assim despetalam
Formam forros macios quando nós dois deitarmos elas vêm e badalam

Coração marca o tempo como as notas aéreas de Bach palpitaram
Ao balé dos gracejos das sílfides, curam dores que passaram
Nos afetam orvalhos que fulguram asas da imaginação
Gotas de chuvas feitas de hidromel que caem, e confunde a razão
Vinde o maná da vida, o secreto elixir em lazúli e rubi
Pedra filosofal dos amantes das doces amritas bebi

Ao teu lado Sofia, minha imensa alegria, sejamos almas gêmeas
Nosso jardim tão belo com todas as flores, com todas as gemas,
E com todas as cores, a nossa simbólica seja octarina
Façamos dessa história o arquétipo áureo do amor qual destina
Tenhamos mais que mil e uma noites devir em nossa eterna flor
Assim seja no céu e na terra ligando estrelas ao esplendor
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O Chiado Malvado
por: Deborah Gomides Ramos Malta

Era uma vez, um menino chamado Augusto, e sua irmã. A menina Ágata e seu
irmão gostavam muito de assistir televisão. Gostavam tanto, mas tanto, que quando a
energia acabava, a brincadeira deles era fazer uma televisão de caixa de papelão.
Revezadamente, uma das crianças fazia a programação, enquanto a outra assistia.
Brincavam de novelinha, brincavam de telejornal, brincavam de programa de auditório, de
filme, de entrevista, de programa educativo e até de desenho animado.
Certa vez, eles foram passar um fim de semana na casa de seu avô Zaqueu. O avô
dessas duas crianças curiosas, era muito, mais muito inteligente. Ele possuía uma
enorme biblioteca em sua casa, e seu desejo era que seus netinhos começassem a se
interessar por ler e por estudar. E que eles estudassem bastante e pudessem aprender
muitas coisas novas, e que aprendendo essas muitas coisas novas, eles fossem mais
preparados para lidar com as diferentes situações da vida.
Acontece que esses dois irmãozinhos não gostavam muito de estudar, deixando as
expectativas de seu vovô um tanto frustradas. Mas ainda assim, o vovô Zaqueu insistia e
insistia para que seus amados netos adquirissem o gosto pelo estudo.
Nesse fim de semana, em que Augusto e Ágata foram para casa do vovô Zaqueu,
o vovô veio logo com um livro de matemática em direção a eles, dizendo que estava muito
triste porque soube que a professora deles estava triste, reclamando para os seus pais
que os dois irmãos não estavam conseguindo aprender nada do que ela tentava ensinar
sobre matemática.
E embora o livro fosse cheio de figuras coloridas, embora tivesse um monte de
jogos divertidos para treinar e embora eles até soubessem que aquele livro poderia fazêlos
bem, Ágata e Augusto se recusavam terminantemente a se quer olhar para aquele
livro tão proveitoso.
Desta vez, as crianças conseguiram deixar seu vovô mesmo irado. Ele ficou tão
bravo, mas tão bravo que deu-lhes um castigo:
_ Porque vocês não querem estudar e porque não podem nem pelo menos tentar
pelo seu avô, não vou deixar que vocês assistam televisão, e nem vou ligar para seus
pais buscarem vocês. Vocês terão que arrumar outra coisa para se distraírem. Eu vou
para a minha oficina consertar meu velho carro. Estou precisando muito dele.
_ Ah, vovô! Mas isso não é justo! - reivindicaram Augusto e Ágata.
Sem mais nenhuma palavra, vovô Zaqueu se virou e seguiu para sua oficina.
Ágata e Augusto já ficaram entediados só de pensar como seria ficar sem poder
assistir televisão. Estavam tão aborrecidos, que dessa vez nem quiseram brincar de sua
brincadeira favorita, pois parece que havia acabado toda a graça naquele momento.
E no sofá, jogados, o irmão e a irmã, um reclamava daqui, outro bufava dali, um
resmungava, e o outro dizia: "_ Blá!". Suspiravam fundo e gemiam com desânimo:
"_ Aaah!".
Como era difícil para eles ficar sem aquele aparelhinho cheio de novidades
instantâneas e fascinantes!
Até que de repente, começaram a ouvir um barulho esquisito. Que começou com
um pequeno:
"_Chhh..." Augusto e Ágata olharam para um lado, olharam para o outro, e não
conseguiam entender o que estava acontecendo.
"_ Chhhhh..." - aumentava mais um pouco o barulho. E Ágata e Augusto
começaram a ficar arrepiados, com medo...
"_ Chhhhhhh..." - e cada vez mais aumentava aquele barulho estranho, e os olhos
deles ficavam arregalados, e arregalavam-se mais, cada vez que aquele som se
prolongava ainda mais, até que seus olhos já estavam esbugalhados, e no meio daquele
imenso chiado aparecia uma voz que dizia:
"_ Alguém? _ Ei, tem alguém aí? Ágata abraçou seu irmão mais velho e perguntou:
_ Você ouviu o mesmo que eu?
_ Ouvi sim, - respondeu Augusto.
_ Será que devemos responder? - retrucou Ágata.
_ Eu não sei... - hesitou Augusto.
_ Crianças! Venham aqui! Eu sei que vocês estão aí! Não se preocupem! Não farei
mal a vocês!
Augusto e Ágata respiraram fundo. E decidiram que precisavam saber o que estava
acontecendo. Bem devegar, começaram a andar com passos bem levinhos, bem
cuidadosinhos, em direção à voz, com o cuidado de não fazer nenhum barulho. Eles
andavam em câmera lenta, como se estivessem pisando em ovos. Cada vez que
avançavam no caminho, colocavam a mão em formato de concha sobre a orelha, a fim de
apurarem os seus ouvidos, para seguirem a voz na direção certa.
A voz que continuava insistindo:
_ Venham aqui! Quero conversar com vocês! Eles foram seguindo, seguindo,
seguindo aquela voz, quando se deram conta de que estavam na porta do porão. Augusto
abria a porta bem devagar quando Ágata, que estava morrendo de medo, terminou de
abrir a porta bruscamente e acendeu a luz correndo. E a pobrezinha, que ofegava já sem
ar de tanto desespero, ainda achou forças para gritar:
_ Tem alguém aí? Nosso vô é um coronel aposentado e vai vir aqui prender você!
Realmente, o vovô Zaqueu teria servido ao exército e foi um excelente coronel. E
Ágata quis deixar bem claro que eles tinham alguém para os defender.
_ Eu já estou preso!
_ Ahn? Como assim? - perguntaram as crianças sem entender nadica de nada.
_ Estou preso na televisão!
_ Não acredito! - disse Augusto com as duas mãos na cabeça, quando avistou de
longe, de cima da escada, no chão lá em baixo, uma televisão antiga, jogada, no meio do
porão. E o mais intrigante! A tomada não estava ligada! Desceram devagar, e foram
descendo as escadas, até que chegaram na TV antiga que não emitia sinal nenhum além
de uns pequeninos grânulos coloridos de todas as cores, que se misturavam dentro da
tela insistentemente, juntamente ao barulho infinito que fazia:
"_ Chhhhhhhhh" - sem parar um minuto se quer.
_ Quem está escondido aí? - perguntou Ágata.
_ Não estou escondido. Vocês não estão me vendo?
_ Não... - disse Augusto com muito receio. _ Afinal, quem é você? - interrogou o
menino à voz, a fim de que talvez, a resposta daquela preocupante voz os fizessem
perceber algo diferente do que eles estavam vendo.
_ Ah, perdão, desculpe. Vou me apresentar a vocês. Prazer, o meu nome é Chiado.
_ Não acredito! É mesmo esse chiado da TV que está falando com a gente?! -
indagou Ágata de forma exclamativa. _ E chiados falam?
_ Falam sim. - respondeu o Chiado. É que só falamos quando queremos. E eu
percebi que vocês estavam tristes, por isso resolvi lhes contar um surpreendente segredo!
_ Puxa, que legal! O que você tem para nos contar? - perguntou Augusto
alegremente.
_ Esta antiga televisão de seu avô que ele jogou aqui como se faz com qualquer
velharia, é uma televisão mágica!
_ Uma televisão mágica? - surpreendeu-se Ágata. - _ Mágica como naquele filme
em que os personagens entram dentro da televisão e descobrem o mundo da TV?
_ Não. - respondeu o Chiado com sua voz de telefone. - _ É uma mágica nunca
antes imaginada. É muito legal e tenho certeza de que vocês vão gostar muito. Ainda
mais hoje, passando por esse terrível castigo de não poder assistir televisão.
Augusto e Ágata olharam um para o outro com os olhos baixos. No fundo, eles
sentiram que o Chiado não era tão legal assim, pois queria fazer com que as duas
crianças desobedecessem seu avô. Mas eles olhavam para o chiado, tornavam a olhar
um para o outro. E logo suas carinhas iam se animando até que Augusto disse:
_ Pois então, seu Chiado, nos conte logo o que você é capaz de fazer!
_ Coloquem um livro na minha frente e vocês verão!
Rapidamente, e animadamente, Ágata e Augusto pegaram o livro da história "O
Patinho Feio" do escritor dinamarquês "Hans Christian Andersen", na sessão de livros
infantis, na biblioteca de seu vovô.
Eles colocaram o livro com sua capa virada para a televisão, quando de repente,
no lugar de Chiado, aparecia a imagem da capa do livro, e uma voz doce de mulher, que
parecia até com a voz da mãe daquelas crianças, lia o título do livro, e o nome do autor.
Incrivelmente, o cisne do desenho da capa levantava e chacoalhava suas asas, enquanto
o balançar do rio fazia os pontos de brilho na água. E o melhor de tudo! Uma linda música
de fundo tocada por um piano embalava aquela linda figura animada.
_ Ooooohhh! - espantaram-se as crianças deslumbradas com o que viam.
A imagem da capa do livro sumiu e Chiado voltou dizendo que se eles quisessem
poderiam assistir a história inteira do livro. Ágata não pensou duas vezes. Puxou o livro
das mãos de seu irmão e o abriu na primeira página, ainda com as figuras em direção à
TV mágica.
_ "A mamãe pata tinha escolhido um lugar ideal para fazer seu ninho...." - contava
a narradora enquanto tudo o que ela dizia ia acontecendo dentro daquela maravilhosa
televisãozinha antiga.
E continuava a contar:
_“..., um cantinho bem protegido no meio da folhagem, perto do rio que contornava
o antigo castelo. Mais adiante, estendiam-se o bosque, e um lindo jardim florido. Naquele
lugar sossegado, a pata agora, aquecia pacientemente seus ovos."
As crianças assistiam aquele lindo filminho atônitas, e iam passando e passando as
páginas para que a história continuasse. Depois quiseram assistir mais, e mais, e fizeram
o mesmo com o livro da "Chapéuzinho Vermelho", fizeram novamente o mesmo com o
livro dos "Três Porquinhos", o mesmo com o livro da "Caixinhos Dourados", com o livro do
"Pequeno Polegar", o livro do "Pequeno Príncipe", de "Joãozinho e Maria", "O Gato de
Botas" e tantos outros que eles encontraram na imensa biblioteca do vovô Zaqueu.
Estavam tão impressionados com aquilo tudo, que só quando não havia mais livro
para ler, foi que eles se deram conta de que todas as imagens dos livros haviam sumido.
_ Ai! Não acredito! - disse Augusto espantado.
_ O vovô vai acabar com a gente! - se queixou Ágata desesperada.
_ Chiado! Chiado! O que você fez? Devolva-nos os desenhos do livro! - corriam em
direção à estranha TV acreditando que o malvado Chiado resolveria para eles aquela
terrível situação.
_ Hahaha! - Chiado ria assustadoramente. - _ Como vocês são bobinhos! Não
sabiam que se vocês não gravassem a programação da televisão em um vídeo cassete,
não teria como assistir novamente os filmes nela passados?
_ Não nos enrole! - advertiu Augusto. - Não estamos falando disso! Acontece que
você apagou todas as figuras nos livros!
_ Pois é, e vocês só se deram conta no final, de tanto que vocês gostam de livros!
_ Acontece, seu Chiado Malvado, que esses livros são a paixão do vovô! E
estamos muito encrencados. A culpa de tudo isso é sua, e você tem que nos tirar dessa!
_ Tudo bem! Só que tem um probleminha. Isso é impossível! Hahahaha! -
continuava rindo apavorantemente.
_ Não é justo! - reivindicou Augusto. - Diga-nos! O que faremos agora?
E ironizando com a situação Chiado sugeriu:
_ Pintem todas as figuras nos livros novamente! Se vocês forem capazes!
Hahahaha! - continuava debochando deles o malvado Chiado.
_ Ei! Faça alguma coisa por nós! Faça alguma coisa! - gritava Ágata segurando a
televisãozinha e a chacolhando, até que o Chiado simplesmente sumiu, e a televisão se
apagou.
Os irmaõs começaram a chorar, e a chorar, e choraram tão alto que o vovô Zaqueu
ouviu lá de sua oficina e saiu correndo para ver o que havia acontecido.
_ Ei! Crianças! Crianças! Por que vocês estão chorando desse jeito?
Augusto e Ágata engoliram seco quando perceberam que seu avô havia chegado e
tremeram de medo. Eles se deram as mãos e caminhavam para trás, de costas, olhando
para o avô, que percebeu que algo estava muito errado ali.
_ Eu sei que vocês aprontaram pelas suas caras e tratem logo de ir dizendo o que
aconteceu, porque não vou tolerar ter que descobrir sozinho!
_ Vô, vô! - Dizia Ágata chorando, com voz de como quem emplora o perdão. - Nos
perdoe! mas sem querer fizemos algo horrível para seus livros!
_ Meus livros! - gritou o avô furioso, sem conseguir imaginar o que poderia ter
acontecido, já inclusive pensando que todos haviam sido rasgados.
Augusto pegou rapidamente um dos livros e levou para o vô que não entendia o
que havia acontecido.
_ Mas o que é isso? Suas crianças atrevidas! O que vocês fizeram?
_ Na verdade não fomos nós, vovô! - tentava explicar, Ágata. - Foi um tal de Chiado
que apareceu nessa televisãozinha antiga, que nos chamou quando ainda estávamos lá
na sala e disse que sabia fazer uma mágica.
O avô ouviu toda história, pois, mesmo não conseguindo acreditar, percebeu que
as crianças não conseguiriam fazer tudo aquilo sozinhas, e que aquele chiado parecia
mais ter sido impresso ali, do que pintado.
Quando Augusto e Ágata terminaram de relatar o que havia ocorrido, vovô Zaqueu
se apressou em ligar a pequena TV, mas nada aconteceu porque a mesma nem se quer
ligava, mesmo na tomada.
_ Eu ainda não entendo como vocês podem ter visto um chiado aqui, se esta TV
está quebrada a anos! - argumentou o vovô.
_ Acontece vovô, que esse tal de Chiado, apareceu mesmo com a TV desligada da
tomada, e como dissemos para o senhor, ele disse que a tv era mágica. E no final de tudo
ainda se riu de nós, e disse pro Augusto que poderíamos pintar todos os livros
novamente. - denunciou, Ágata, a façanha de Chiado.
_ Vovô! Consiga para nós as tintas, e prometemos que iremos pintar todos os livros
para você novamente! - implorou Augusto.
_ Sim, vovô! E também que vamos estudar, e ler mais livros do que assistir
televisão! - completou Ágata.
_ Tá certo, vou deixar vocês se retratarem. Vou comprar as tintas. Consertei meu
carro.
_ Podemos ir com você, vovô? - Perguntaram seus netos.
_ Não, não senhores! - respondeu o vovô ainda chateado. Vocês vão ficar aí
pensando no que fizeram. A vovó está chegando, e vou deixá-los com ela. Assim vocês
não precisarão temer esse tal de Chiado. - dizia o vovô ainda intrigado com aqueles
relatos.
A vovó Esmeralda chegou e preparou um bolo delicioso e quentinho para seus
netinhos, e serviu com um chá bem quentinho. Ela soube de tudo que aconteceu e deu
vários conselhos para Ágata e Augusto. Eles ficaram esperando nas cadeiras da varanda,
assistindo o pôr-do-sol, enquanto a vovó Esmeralda contava sobre um molusco chamado
"Mantis Shrimp", que enxerga treze cores a mais, que os nossos olhos humanos não são
capazes de ver. E ainda contava também, que os cachorros não são capazes de ver
tantas cores como nós.
Os netinhos refletiam, e suspiravam enquanto ouviam os saberes da vovó. Quando
o vovô chegou, os três saltaram de alegria e correram até ele. Abrindo a sacola de tintas,
ainda na mão do vovô, Augusto se desmotivou um tanto, quando viu que vovô Zaqueu
trazia consigo apenas cinco cores de tinta: o vermelho, o amarelo, o azul, o branco e o
preto.
Ele o questionava sobre as outras cores. Sentia falta do laranja e perguntava como
ele pintaria os bicos dos patinhos da história do "Patinho Feio". Perguntava como pintaria
de roxo, as uvas de "A Raposa e as Uvas", como pintaria, sem o verde, tantas florestas
existentes em tantos daqueles livros, como pintaria os catelos sem ter marrom, e até
mesmo questionou como pintaria de cinza os ratos das fábulas de Esopo, como "O Rato e
a Ratoeira", ou ainda "O Leão e o Rato".
_ Bem, estes cinco frascos de tinta, é o que concedo a vocês. E tratem de dar a
cada figura, a cor que elas merecem! - concluiu o avô.
Imediatamente, toda aquela alegria escapou dos olhos de Ágata e Augusto. A vovó
por trás deles, segurava um sorrisinho que quase deixava escapar, e que ela prendeu
rapidamente quando eles se viraram e olharam para ela.
_ Vovó! - exclamou Ágata. - A senhora que é tão sábia, tão inteligente e tão
amorosa, será que poderia nos ajudar de alguma forma?
_ Ora, ora, ora... - dizia a vovó, vocês têm cinco cores de tinta na mão. Aconselho
vocês a começarem o trabalho logo. Pintem somente o que possui a cor certa e depois
pensaremos em algo. Isso não animou muito as crianças, porém elas trataram de
começar rapidinho, mesmo com medo de que os desenhos ficassem pela metade no final.
_ Vovô? O que você está fazendo aqui? - perguntou Augusto ao chegar na oficina.
_ Estou lixando levemente e com muito cuidado essas partes com chiado dos
livros, para que chegue na parte branca do papel, para que a pintura de vocês seja
possível.
Ágata e Augusto ficaram um pouco mais aliviados em saber que o vovô estava
ajudando, mas ainda estavam um pouco preocupados. Vovô Zaqueu já tinha lixado alguns
livros e seus netinhos começaram os desenhos por estes livros que já estavam
preparados para receber as tintas.
Eles logo estavam pintando e até mesmo se distraindo com aquela tarefa. Até que
de repente, sem querer, Augusto mergulhou a ponta de seu pincel, que estava ainda com
tinta vermelha, antes de lavá-lo, na vasilhinha com um pouco de tinta azul, e quando
percebeu tirou o pincel dali, assustado, pois mesmo não sabendo por quê, ele queria
obedecer a vovó que disse que eles deveriam retirar toda a tinda do pincel num copinho
com água antes de trocar de cor.
Porém, quando ele olhou para a ponta do pincel, percebeu que a tinta estava se
transformando na cor roxa! E ele começou a mostrar para todos, feliz com o que ele
acabava de descobrir! Então a vovó que já sabia que era possível tal façanha, disse para
as crianças:
_ Parabéns pelo empenho de vocês! E a vovó sabia que encontrariam a solução
para os problemas! O que vocês têm que fazer agora, é misturar todas as cores
possíveis. - disse a vovó, já indo providenciar mais vasilhinhas para que eles pudessem
fazer todas as experiências possíveis com aquelas tintas.
Misturando o azul com o branco, conseguiram o azul do céu para pintar todos os
livros do vovô, de histórias que mostravam o imenso azul por entre as nuvens
branquinhas. E assim foram eles, misturando, salvando novas cores, e cumprindo a tarefa
para deixar o vovô novamente feliz.
E, como recompensa, o vovô Zaqueu fez uma linda televisão de madeira com
abertura em baixo, para que seus netinhos pudessem brincar de sua brincadeira favorita
sempre. Com aquela nova e linda televisão, eles sempre se lembrariam daquele dia e a
televisãozinha sempre estaria pronta para a diversão. E vovô Zaqueu e vovó Esmeralda,
só lhes impuseram uma condição:
_ Quem começa somos nós!
E assim, os quatro puderam brincar juntos e as crianças se divertiram muito com o
vovô e a vovó encenando aqueles filmes antigos de que os avós gostavam. Mais tarde, o
pai e a mãe das crianças, chegaram para buscá-los e também tiveram que participar da
brincadeira. E a partir desse dia, Ágata e Augusto estudaram mais, e só assistiam
televisão depois que obedeciam seus pais e seus avós, em tudo.
Domingão, dia perfeito para dirigir em São Paulo. Algo que eu gostava bastante, além de fazer   me sentir mais importante que o GPS. Porém, estranhamente, eu não queria ir. Diante da insistência eu aquiesci.

Todos a bordo do veículo. A palavra bordo foi levada ao pé da letra, isso ainda vai ficar claro. O destino era o “Cirque du Soleil”, do lado oposto da cidade. Eu não entrei no circo, o Parque Villa-Lodos era suficiente.

O “Cirque du Soleil” é assim, digamos, diferente. Esse empreendimento não lembra o cirquinho de bairro nem na lona, ainda menos os artistas. A lona é impecável, esticadinha e sem nenhum furo. Os palhaços são chamados de “clowns” e, perspicazes, nunca fazem papel de bobo. Os artistas vêm de várias partes do mundo.

Eu sempre fui em circos tradicionais. Por isso, para mim, no picadeiro tem que ter macaco vestido e andando de bicicleta, elefante que chuta bola, um cachorrinho serelepe enfrentando obstáculos, domador colocando a cabeça na boca do leão, palhaço triste, mágico muito manjado e Globo da Morte. Tudo perdeu a graça depois que proibiram circo com animais. Mas foi por um motivo nobre: evitar maus-tratos. Não pode haver algo mais cruel do que retirar um leão da savana africana e obrigá-lo a morar em Diadema.

Muita coisa sempre sai diferente do ensaiado, dá errado. Desde que não seja nada sério, é o que sai mais engraçado. O elenco, que mais parece o maltrapilho Exército de Brancaleone, vive em trailers e vem de lugares como Paraguai, Bolívia e Venezuela. No máximo tem um russo, que dá credibilidade ao “Internacional” que vem junto ao nome do circo (que também é russo).

Além de tudo, o Cirque du Soleil tem que ser compreendido e interpretado, isso é muito para mim. Eu prefiro algo mais óbvio, mais Sessão da Tarde. Acho esse outro conceito de circo também muito sofisticado para mim.

“Freak Show”, Circo de Aberrações ou Circo dos Horrores, a atração era muito mais “roots”. Popular de 1840 a 1970, o “show” de gosto duvidoso (mau-gosto), crueldade e vilipêndio foi muito retratado em filmes. O Playcenter (histórico parque de diversões de São Paulo) emulou o clima dessas apresentações bizarras com a Monga - A mulher gorila. Sim, a Monga era uma moça que virava um gorila. Atraente, para os padrões da época e o baixo orçamento, a “atriz” ficava em uma tenda, atrás de grades. No início, todos ficavam só manjando a moçoila; de repente, num truque barato de espelhos, ela se transformava num horrível, nervoso e peludo símio. O, agora, furioso gorila arrebentava a grade e corria atrás dos espectadores. Eu, arrependido por não ter ido à Montanha Encantada, estava lá no meio, fugindo do macacão.

Deixando as elucubrações circenses, o retorno reservaria as emoções que qualquer circo jamais proporcionou. Ao contrário do nome “Cirque du Solei” (Circo do Sol), estava chovendo muito e era noite. Porém, como era domingo, isso não me preocupou. 

Tudo ia bem até que, início da Rodovia Fernão Dias, eu não fiz jus ao velho bandeirante e fiquei num, ainda incipiente, alagamento. Éramos seis e assim pretendíamos permanecer, de modo que o melhor a fazer foi abandonar o navio (digo, o carro).  Eu como comandante da embarcação (motorista do automóvel), não dei uma de Schettino (vada a bordo, cazzo!) e esperei todos desembarcarem (do veículo).

Parecíamos uma família de desabrigados, ensopados e debaixo da chuva, num morrinho à beira da pista e ao lado de uma favela (ou comunidade). Fiz a contagem, todos vivos. Ainda voltei para o barco (carro) umas três vezes para pegar os documentos antes que fossem parar no Rio Tietê. Já estava aguardando a visita agourenta do helicóptero do Datena, entretanto era domingo.

Voltei pro morrinho, com água na cintura, ensaiando aquele antigo discursinho: é só um bem material, você trabalha e compra outro. O importante é que todos estão vivos. Para minha surpresa, todos estavam rindo, como se estivessem curtindo aquela “aventura”. Eu até esbocei um sorrisinho, mas, definitivamente, aquela não era uma situação engraçada.

Depois disso tudo, fomos resgatados, bem como o automóvel (certo!). Chegamos, sobreviventes, em casa. O ingresso e um carro, foi esse o preço para assistir o  “Cirque du Soleil”. Foi muito caro, mas não faltaram emoções.



A turma desse governo federal, apelidada de Carreta Furacão, está muito ocupada viajando o mundo para aplaudir o presidente Lula. Como não há motivo para aplaudi-lo, a Carreta Furacão cumpre a necessária função de claque.




Nesse embalo, a corte lulista pega carona e faz um périplo aéreo nos jatos da FAB (Força Aérea Brasileira). O nível de deslumbramento e aproveitamento da boquinha estatal só é  comparável ao desembarque da corte de Dom João VI aqui. Os “aspones” alojados em Brasília sobrevoam o Brasil para visitar parentes, participar de eventos particulares e, inclusive, assistir a uma partida de futebol.




Dia 24 de setembro, a ministra da Igualdade Racial e irmã de Marielle Franco, Anielle Franco, foi ao estádio do Morumbi... num jatinho da FAB. O que qualifica Anielle não é o currículo ou a esperada competência, mas o histórico de ser... a irmã de Marielle.




Pois bem, a moça embarcou no jatinho e foi à final da Copa do Brasil assistir ao jogo. A justificativa que a ministra sacou  foi que a viagem era para combater o racismo. Ah bom! Suspeito que se ela fosse titular da Pasta da Economia sua desculpa seria o preço do ingresso.




Não numa tentativa de reescrever a história, mas, sim, numa justa reparação histórica, eu finalmente explico que fui naquela semifinal de 1983, ainda criança, lutar pelos direitos infantis; assisti àquela finalíssima pelo comércio ilegal de madeira da Amazônia; estive numa partida para proteger o Planeta Terra do aquecimento global (ou mudanças climáticas); e acompanhei aquela goleada, protegendo o mico-leão-dourado da extinção.




O Corinthians está disputando a semifinal da Copa Sul-americana; se classificar para a final, a possibilidade de jogar contra uma equipe estrangeira será total. Por isso, solicito um jatinho da FAB, porque, inspirado no altruísmo de Anielle Franco, vou sacrificar minha agenda para combater esse crime que assola a América do Sul: a xenofobia. 




A abnegação não se intimida nos domingos ensolarados. Por coincidências dessa vida, vejam só, a ministra trabalhou enquanto seu Flamengo jogava; e eu, o meu Corinthians.
...
Sinto muito
...
Hoje senti
Senti muito
Senti tanto
Que não consegui sair do lugar
Hoje se o céu desaba
As lágrimas das nuvens tem nome:
CAMILA!
Sinto muito
Pela falta de contato
Mesmo tentando sempre
E as vezes não conseguindo
Eu tô seguindo, garanto.
Era o que você gostaria que eu fizesse.
Me diluo na aquarela da vida.
...
Me perdoa
...
As vezes não conseguimos falar
As vezes queremos só sentir
Mas foi aí que aprendi
O quão importante é o poder
O poder da fala.
É assim que a gente aprende
A bradar!
Matar um leão por dia
Sem afetar ninguém.
E todos os dias
É assim que se via
CAMILA.
...
Eu te amo
...
Quando se fala de amor
Estamos falando
De um estado pleno de espírito.
Algumas pessoas
São feitas de amor.
Seu DNA é construído com
Moléculas subatomicas
De amor concentrado.
O pensar nos seres ao redor
Como si mesmo
É atingir o nirvana da alma.
Depois de muito pensar
Com essa cabeça de artista
O estado pleno da alma
Se tem nome de
CAMILA.
...
Sou grato
...
O que me mantém de pé
Aguentando fortemente ainda
É saber que em algum dia
Um momento, coisa pequena,
Mas explosão no meu universo!
Você me apareceu.
CAMILA!
Vestida de arte,
Portada de tinta.
E era assim, para todos
Só mais um dia
Para mim?
Foi quando senti a força
De
CAMILA.
Como Vai Você?

Você que sente vontade de gritar

E se senti sufocado.

Você

que rir Quando quer chorar

E chora quando quer rir.

Como Vai Você?

Que é feito de carne e osso

Com recheio de sentimentos

Misturados à água adentro.

Você

que se senti sozinho

No meio da multidão

Perdido e confuso dentro de si

Como Vai Você?

Você

que tem medo do olhar alheio

E às vezes até do espelho

Você que senti frio

E quer calor humano

Quer gritar, quer chorar

Mas que rir de nervoso

Você

que precisa ser forte

Mas que se senti fragilizado

Você

que precisa matar um leão por dia

Como Vai Você?

Você

que sabe o que é morrer

De sede em frente ao mar

Sabe-se lá!

Que pede um pouco mais de

Paciência

Você

que tem vontade de sumir

Morrer?

Como Vai Você?

Que está por um fio

Querendo morrer de desgosto, dor ou amor.

Você

que não quer ser tão racional

Mas que precisa ter controle.

Como Vai Você?

Que quer se permitir a ser criança

E brincar de viver e ter a arte de sorrir

Cada vez que o mundo diz: Não!

Você

que apesar dos pesares

Ainda busca forças pra viver

Você

que olha para o horizonte

Querendo encontrar a cor da esperança

Que quer simplesmente ser Compreendido

Verdadeiro e Viver

Você

que sonha com essa tal Felicidade

Amigo, Como Vai Você?

Quando você achar que

Ninguém mais liga para você

Então ligue CVV e

Deixe a esperança nascer

Caminho Verdade e Vida.








O segredo da prece, verdade é
Deus condena quem
assina divisão da cruz às
costas.

Perdoa a quem dá
outrem a coça

pois que em cada qual é
sina, aprender por erro
experiência e fadiga

– vaga e extensa insolação.

Você, à volta com novena, ponha
fé na tabuada que lhe
consome, mal completa
jornada, irreal o real.

Peça nada ao santo; orçamento
de milagre, é faltar-lhe com
respeito.

Fica a cachaça ao balcão de
sonhos fins, e dos
pulmões tosse pigarro, presságio
ruim.

(você ainda à volta da tarde, noite
infinda, rouca de saudades de
menina, que é João).

Seja a sorte se não
for, nada a ver com lance
algum; crédito à mão
de vista grossa o
desjejum, benzido amor
pagão.

Há de oculto em toda prece
mentira que a gente nega.

Cicatriz da carne fraca, que
feliz guarda Araci, porque mulher
consorte de homem que
a maltrata, diz assim é
o macho

ela condiz.

Talvez passado
humano, de tempos
costume vassalo; em dia
de hoje sem
poder de prece

leão à cova ausente
a regurgitar
preceitos de bem querer:

Daniel:

– segredo da prece, não sei
decerto a alma conta;
sejam lágrimas do rosário, ou
reza de Francisca à mesa
posta

quando ainda é madrugada, e
filho quer café mais
palavra à entrevista

e hora já cadente,
deseja espaldar o
firmamento não, quer
estrelas pelo chão vir
semear.

Pressa antiga, prece nova
queira de mim seu duvidar.

Importa que
deidades mundanas ouçam
cantiga de língua morta?

Lendas que se confrontam
e desamor de quem um
dia fez-te mar?

Segredo e prece é
de avó; sequer o
Padre Nosso – cuja
grandeza é maior – se vasculha
aos cabelos seus; preceitos
quais piolhos da trama
esconde-esconde
mandinga, que a
terra parasita descorçoa

à prazo, à vista, que
diferença tem?

Quer anciã, escuta
atenta dos versos, nada
além.

Pois prece nenhuma recupera
gênio bom.

Prece perdida é
aquela feita, ingratidão.

Profanar deidades assentadas
à guisa de encosto, que de
Cafarnaum à Santa Sé
fez desgosto só

dessa fé trabalhadeira.

Pois que cuíca
de santos filha
ginga-gingante à ladeira
venha me condecorar
sorrindo.

Oremos, rezemos mundos
desdigamos enfim, anos
passados, porvir
Serafins.

Sejam preces de contas, de faz
de conta, de cor, de
sermão

bem-vindas serão todas

que segredo de prece
existe, às vezes não.

Afinal, Deus se fazer ouvir por
todas, quer saiba sua
religião, quer não

exista Deus, se desista em
vão do mistério – ateu (!)

O segredo da
prece, quem tiver o
traga à pele esfolada,
seja ou não Bartolomeu.

E prece será fé que
ditará, cantará
espanto assombro
devoção.

Da roseira, segredo
espinho que a
proteja contra
o que a per-rodeia
oração;

mistério que alma
traz consigo, e quer
batam os sinos,
direi sempre comigo

– não morreu.
AUTOBIBLIOGRAFIA

 

quando você quiser me dar um beijo na boca

por favor não me diga nada

sou um astronauta das madrugadas

sob a influência de aquário eu nasci

 

tenho os mais diferentes conceitos

sei que a terra gira que o vento faz curva

e que as estrelas são psicólogas

dos bêbados e das galinhas

 

por isso quando você quiser me procurar

me achará dentro de um livro

de rimbaud ou de artes plásticas

ou ainda ouvindo schummann

 

os meus conceitos as minhas poesias

os meus retratos são fúnebres concertos

de vanguarda e de guarda-chuvas

aliás eu adoro a metafísica de um pé de mamão

 

sonhos tenho aos milhares de milhões

nas esquinas os meus passos têm o esboço

da via-láctea e a minha poesia dorme de costas

tentando conversar com o futuro


 

RECÉM-FORMADO EM BOTÂNICA

 
 

arrumei cinco folhas era madrugada

na mesa um macarrão fora de moda

agora não posso desistir

os meus óculos passeiam pelo chão

o dia inteiro não foi como uma sinfonia

por ironia não foi como uma de mahler

 

rasguei a primeira e joguei ao destino

as minhas pupilas declamavam rilke

estava ensaiada toda a obra da minha vida

tudo fantasia do meu retrato que sorria

sem parar gáudios de safo

o pensamento platônico me fazia brincar

com uma borboleta

o tempo não depende das asas de uma borboleta

 

a segunda tinha um tom meio balzaquiano

rimei em versos dodecassílabos

antes de opugná-la ao lixo

a noite navega como um argonauta apaixonado

o sono toca sua harpa indolentemente

o tempo aterrissa para confidenciar ao crepúsculo

 

a terceira veio impulsionada pelo concerto de brahms

desta vez o inverno não chegou aos meus ombros

com ela o sincretismo de descartes

sófocles ao piano passa pelo meu subconsciente

estava eu em delírios gregos

 
a lua começa a bocejar

tudo é sombra e abandono

no meu quarto a vida é insatisfação

de quem nunca viajou por si mesmo

 

a quarta completa os estágios de mallarmé

não consigo esquecer os versos do sobrinho

neste momento tudo é pausa

o universo é monótono átomos em prosa

o poema flui como galáxias

a madrugada brilha uma vez mais

 

a quinta está completa

pelos passos prostituídos das outras

o tempo não depende das asas de uma borboleta


 

COTIDIANO DE UM POETA

 

acordo às nove e meia da manhã

com os olhos no sol que dormiu

comigo pego um copo com água

olho-me no espelho escovo os dentes

 

sento-me em uma mesa

como um pão com chocolate frio

aos poucos vou me sentindo no mundo

 

minuciosamente vou em direção ao quarto

observo a velha máquina de escrever

arrumo algumas folhas e começo a trabalhar

a mesma cor metafísica de sempre

 

a névoa começa a dançar em meus neurônios

sinto-me como se estivesse com ressaca

tento estralar os dedos como forma de abstração

 

uma pessoa me telefona está tudo bem

volto para o vazio não sei me convencer

estou perdido nem o noticiário é interessante

a tarde namora meu telhado

 

estou confuso sai a primeira linha

muito inocente desenho a chuva no campo

a lua para atrás da minha janela

 

é tão estranho que a noite não me sorria

ouço prelúdios de brisas


aprendo a conviver com a verdade já é tarde

minha cama é o caminho da eternidade

amanhã quem sabe

eu me ouça menos

e a poesia fale




VIOLETAS DANÇAM NO PLAYGROUND

 

sete e meia da manhã

um menino busca o pão

a família o espera

 

oito e vinte e cinco

um carro o atropela

 

doze e quinze

a família fica sabendo

 

dezesseis e trinta e sete

o seu corpo é sepultado

 

sete e meia da manhã

do dia seguinte

o pão aumenta

uma família diminui



A PENÚLTIMA CASA

 


1. eu não lerei o último

poema meu

talvez seja anacrônico

ou até mesmo contrabandista

 

2. terá por certo a perfeita alusão

de mim

sem me desvendar

 

3. cicatrizes no peito

olhos bem espantados

2,20 m de curiosidade

 

4. suave como borboletas

no cio

metade eterno por todo tempo

metade orgasmo por insatisfeito


 

ETERNIDADE MÍNIMA

 

 

estou cego

e a coleção completa dos filmes

de lars von trier ainda não assisti

o gato que antes passeava pela minha

imaginação agora só dorme no tapete

 

entre todos estes combalidos anos

não encontrei o lado b da vida

que consiga me causar espantos

ou a mulher de beijos estonteantes

que me faça negar meus pedros

 

estou cego

e a felicidade é só mais um lúdico cartaz

os fantasmas que nunca ousei encarar

riem das minhas fotos de casamento

amigos me culpam pelo crasso silêncio

 

mesmo a guerra não declarada

do meu comportamento antissocial

é capaz de compreender

os carinhos extremos dos amantes

da ponte neuf

 
estou cego

e cada vez mais os sorrisos recuam

os amores não mais se reconhecem

o absurdo sepulta em mim seu engano

na incerteza cambaleante de continuar


 

A DOMÉSTICA CASA DAS INVENÇÕES PARTICULARES

 

o tempo elege sempre uma vida para levar

mas aprendi que não existe certeza

 
antes corria dos trilhos incendiados

para compreender a perda que imaginamos

nem todo dia é para comemorarmos

 
existe uma parada ela estava lá silenciosa

 
há uma música que sempre ouço pela manhã

faça chuva ou quando lembro de meu pai


estão disfarçados os amantes que mandam flores

sem meus valores não julgo ninguém

meu filho acha engraçado eu dormir de pijama


a vida é uma série de confusos movimentos

 
escolhi o vazio dos lugares sem nomes

para mutilar lembranças que nunca existiram



RODOPIO

 

não esperarei mais

que teus beijos encontrem

meus sapatos trocados

 

nunca ninguém me disse

que eu deveria correr tanto

 

amar foi para mim

uma estranha maneira

de se comparar amanhãs

 

sempre segui na contramão

do que eu sentia sem saber

 

não sei te amar mais

do que uma imagem

desfocada no espelho


 

OS PÁSSAROS

 

a cada dia extinto uma dívida

                             imagens que rangem no espelho

              ouso sentir mais que quase tudo

talvez bispo do rosário tivesse olhos

                         para os infalíveis caos que me perseguem

                                                                    às vezes desamarro

                                                                                              meus girassóis

 

cada foda que dermos uma serpente

                        tigres famintos rodeiam minha solidão

                                                                enquanto escuto o sussurrar das coxas

                        teus olhos parecem se perder em mim

                                                         nem mesmo os poemas de hilda hilst possuem

                                                                                       a báquica carne

                                                                                                      de tuas ancas

                                                                                                                    possuídas


 

MÃOS

 

as mãos sobre o papel

como se fora um barco

o papel

mas na verdade um branco

que dói

 

as mãos sobre o papel

como se esperassem um sonho

nascer

mas na verdade é um sino

que nasce

 

as mãos sobre o papel

como que derrotadas

por hoje

 

mas na verdade a derrota

não houve

 

as mãos sobre o papel

como se não tivessem nada

a fazer a vida inteira

mas na verdade o tempo

não importa


 

ESTUÁRIO

 

 
poesia

uma insatisfação

 

pausa que pulsa por detrás

do mundo lâmina de alta precisão

 

contraventora de palavras

fuga da minha imaginação

 

destino que me alucina

rupestre inscrição

 

incêndio controlado

em minhas mãos


 

HABITAÇÕES

 

 

I)

vague entre estrelas e sóis imaturos pregue a doutrina do beijo

compreenda a dor enamorando-se beba o belo e o feio que são

eternos vista o sonho de realidade ressuscite retratos amarelecidos

com o mesmo ontem solitário experimente novidades sem naufragar

em mares de nunca cruze a saudade velejada nos ombros

 

II)

fale de ventos e tempestades íntimas dance com ternura a valsa dos

peixes deposite o azul dos céus nos olhos mudos toque em notas nuas

as pausas da solidão cicatrize feridas com um leve silêncio de luas

faça versos em sereno utópico à procura do momento exato anuncie

em prosa amiga a grandeza das trevas brancas

 

III)

cante para as noites as suítes úmidas do vento busque no horizonte

um sonho de mãos descalças trace o ridículo em carinhos incomuns

acene em gestos simples sem reduzir rostos de papel ultrapasse

mundos vazios sem flagelos de um soprar castanho escute histórias

de atalhos com urgência de nuvens

 

IV)

suavize as madrugadas num deleite de estrelas trilhe pelos muros do

tempo sem um único sinal de beijo póstumo envolva dores de mães

em dédalos de linho olhe para os homens como palavras rudes resista

calado às dores das cicatrizes amanheça em brumas com sonhos de

distâncias viva à sombra da foice sem massa de cadáveres

 

V)

pinte de aurora a tela do infinito pacifique cóleras com doações

de simplicidade respire corpos perfeitos sem cansaço de bandeiras

tenha mãos pacíficas e seja poeta até no desalento sorria sem perder

a identidade sonhe transparências sem nitidez de suspiros lute contra

os medos são apenas pensamentos

 

VI)

reviva a rosa noturna sem cotidianos de sangue dispa destinos

incertos na nua profundeza dos sonhos decifre províncias sem reter

liberdades pese pecados enrolando confissões sopre o perfume

das fêmeas acariciando orgasmos tenha segredos sem se tornar

prisioneiro conforme o pranto com travesseiros de nunca

 

VII)

abrace o covarde para que ele saiba o que é amar beije a face de

modo elétrico saúde cada momento com exatidão beltrana ore com

olhos sinceros para os de pés cansados procure na dúvida o futuro

embaçado absorva fábulas sem desperdiçar uma borboleta sequer

reduza incertezas em cemitério de comas

 

VIII)

garanta aos humildes um necessário lugar alegre a mesmice em

infernos de flores roucas dissolva o hálito da ruína percebendo o

silêncio mármore dos girassóis retire do lodo as pessoas puras

procurando a essência dos beijos conviva lúcido em um mundo de

hashtags whatsapps & selfies torne público o que de público não há

 


IX)

pregue um mundo de perdões de franciscos protestando contra as

mazelas seculares fuja dos intolerantes dos preconceituosos dos

moderadores e se arrependa das amantes que nunca amou acorde

e olhe para o céu para o sol e o mar para as estrelas como símbolos

contínuos do nosso existir sede vós a essência dos mundos


 

SERENDIPIDADE

 

 

quase observo

uma velhinha passear pela rua

do sol com os calcanhares duros

 

pelas tantas do meio-dia

quase cai e o vento passa

 

de longe apreensivo

pergunto se não quer ajuda

 

abre a sombrinha e me dá a mão

 

lembro do meu avô que morreu

em uma queda de um muro

ou melhor meses depois

de banhar por horas na chuva

 

abruptamente ela para me olha

até aqui está bom vá com deus

 

o caminhar impreciso e frágil

flutuava pelos paralelepípedos

 

como guiados por uma razão maior


 

LEITO QUATRO

 

 

se vai mais um dia entre muitos que pensei viver melhor olhares como

se esperança fosse um entulho de lamentações acelera meus pulmões

ginsberg tece comentários entre a luva indesejada e o prato de comida

que chega como hospitalidade aquele antro de desespero e chagas

destila em meu caos inconformidades com o divino que insiste em me

reter sem qualquer motivo na verdade queria estar em um aeroplano

sobrevoando as praias de humberto de campos ou conversando com

uns amigos na porta do bar do Adalberto

 

às vezes yeats faz me lembrar da samsara que é um copo de leite gelado

após a bebedeira flanando pela avenida melo e povoas agarrado nas

arrepiadas ancas de uma morena observo o marasmo da calcinha

da mulher que ri ao lado naquele bar entre estrelas descontinuadas

todos os meus provérbios de existir me negam tropeço mais uma vez

na mesmice de acreditar em corações complacentes hainoã quando

me chama de pai caem meus hemisférios sobre a baía de são marcos

há felicidade entre o roer de unhas e a dor da cutícula

 

na rua do giz minha vertebral luz minha jerusalém estoica meu

gozo sobre o colo de prostitutas noites que como beatnik caminhava

desolado em busca de algo mais que pudesse estancar as interferências

prejudiciais dos versos inacessíveis anti-herói soprava a dualidade

dos anos oitenta/noventa com barba rala & jaqueta desbotada

transpirando revoluta paixão um ser barroco à procura dos

espelhos perdidos com a obscura missão de continuar em precipícios

acreditando que há um verão orgástico no caminho do poeta

 

a verdade da vida era para ser escrita em forma de poesia pouparia

do desgaste secular de acreditar em são tomás de aquino o amor

só vale a pena se não exigir tíquetes de estacionamento bandeira

da mastercard crediário nas lojas de departamento da magalhães

de almeida agora recluso entre gotas interestelares seringas peidos

fortuitos e azedos o deserto de barreirinhas é o arpoador das minhas

abstrações bundinhas tesas adornadas de branco tangenciam minha

libido meu cacete endurece entre uma e outra troca de antibióticos

 

o céu mais azul que já havia visto se instala em meu coração do olho

d’água à ponta do farol iemanjá me guia com suas ondas caudalosas

o espírito de meu avô parece dançar entre as pedras de arrebentação

da ponta da areia batuques inebriantes cadenciam aquela noite

enquanto os trinta e nove e meio graus me jogam de um lado para

outro iniciado em rotinas e fast-foods inconformismos parecem me

tragar para o boqueirão se pudesse acenderia velas para os ancestrais

bashô está comigo é o que me deixa calmo pelo menos dessa vez

 

reviro-me para tentar apaziguar o cansaço do trópico de capricórnio

que há em minhas costas as mulheres da antiga sunset rasgam meus

olhos pela madrugada naquele equinócio de desesperança onde líamos

camus pessoa gullar chopes ecoavam no saloon pronto a explodir a

nudez de uma amistosa moça nem todos se sentiam na primeira fila

do carnegie hall o cobertor florido aquece meus ossos embargados

por um dia quase todo de febre e delírios ao lado da cama minha

mulher ronca baixinho como um poema arisco de alice ruiz

 

rabolú encontrou as engrenagens simbióticas de jesus maomé

quetzacoaltl pelas ruas desfilou em seu fleetmaster conversível muito

embora a discoteca fosse o religare preterido chove sobre os telhados

do turu e não sinto nada estou vazio como um biscoito ensopado

de café frio aproveito para conferir intempéries não aguento mais

ficar imóvel sobre a esquálida cama apesar de muitos livros ao meu

redor nenhum tem a atmosfera lúdica de peshkov se eu fosse líquido

precipitaria sobre os túmulos carcomidos do cemitério do gavião

 


queria caminhar pela rua portugal destilar imoralidades com sotero

vital ou ouvir o guriatã cantar que a coroa está no maracanã meu

alento são alguns metros quadrados e a memória profícua e desolada

a contemplar a kalevala entre uvas tangerinas e sorrisos de minha

mãe a conversar há uma catarse de choros e ainda não é sexta-feira

nos corações das pessoas nem mesmo o extremismo fático dos grupos

muçulmanos a cortar gargantas pelo iêmen calará os preciosos traços

dos redatores da charlie hebdo

 

meus cabelos parecem a décima quinta de shostakovich a antissepsia é

tão complexa quanto as linhas de nazca mamãe me dá uma ajudazinha

e me enche de sândalo barato ouço no rádio que o país não é mais o

mesmo crise à vista salários minguados violência se instalando dentro

das casas a oligarquia baixando a guarda no maranhão o mundo é

uma sobra de falências múltiplas enquanto uma criança vietnamita

chora a perda de seu cão assado em um mercado público a standard

& poor’s rebaixa a nota de investimentos no brasil


 

RELIGARE

 

 
o tempo todo guardou segredo

na noite de núpcias baixou a luz

pediu que eu viesse com calma

 

abriu o zíper virou-se de costas

beijei-lhe o pescoço as nádegas

 

a virei de frente desci a calcinha

suguei os seios a batata da perna

 

quando estava lá pediu que eu

parasse que seguiria ao closet

 

fechou a porta apagou as luzes

de repente surgiu todinha nua

 

maluquice da minha mulher

tatuar um buda em sua xoxota


 

MÍNIMO MÁQUINA

 

                                                          

uma pessoa que escreve poesia

não é nenhum pouco diferente

de uma costureira de franzidos

de um instalador de antenas

 

não difere em nada

de um ostreiro de um pirata

que rouba barcos fundeados

na baía de são marcos

 

não é nada distante

de copeiros de fast-foods

de acionistas de fundos

de investimentos

 

pelo contrário

um sujeito como os outros

que desliza seus olhos

pelas cidades de si mesmo

 

uma pessoa que escreve poesia

de maneira alguma é diferente

a não ser por levar humanidades

dentro do seu hábito de caminhar



TERMOS E CONDIÇÕES

 

A velhice é a crítica da mocidade

                                José de Ribamar Brito



sempre quis o futuro todos querem o futuro

mesmo com suas ameaças seus mísseis e guerras

açoitado pela rotina não desnorteio o carinho

por quem um dia foi o meu amor

 

nunca seremos ideais ou seja lá o que for

nem admitiremos que a morte nos espreita

pelos corredores e filas ou no orgasmo

com sua manta pungente cheia de significados

 

vivo como se o respirar fosse sempre festa

não minto que já passei por momentos difíceis

me preservo ouço a chuva e preparo o espírito

 

ninguém nunca duvidará do futuro

nem as tais tecnologias serão capazes

de automatizar o que de humano já fomos

tudo se alinha com o que é certo

 

todos os contratempos são antíteses

ou então deus ainda insiste em estrelas

ninguém é muito diferente das ruas à noite

não existe futuro o que existe é agonia

lamentável que os sinais da existência

sejam reticentes ou maneiras de otimismo

já deixei você antes agora só quero voar

 

vou sair

procurar alguém para escolher minhas árvores

ouvir boa música ou mesmo sentar em uma pracinha

de um lugar sem ninguém por perto

 

pessoas passarão por mim

verão meu carimbado rosto

meu livro de cabeceira

 

a eternidade há muito deixou de estar

em meu cabide de roupas prediletas

sempre se constrói algo quando se tenta acreditar 

 

vivências me fazem lembrar que pouco mudei

não havia cordas pesadas em meu pescoço

 

beiramos a estupidez ao pensar em inovações

tudo é complexo para parecer que estamos bem

não ria de mim eu também já me apaixonei

 

talvez reescreva meu destino na tua porta

ou quem sabe me desespere em fugir de ti



PASTO

 

 

quando fernando pessoa

ensaiava o livro do desassossego

minha avó debulhava juçara

nos brejos do interior

 

quando manuel bandeira

modernizava as cinzas das horas

meu avô galopava cavalos

pelas manhãs infinitas

 

quando jorge luis borges

ilustrava a história universal da infâmia

meu pai ainda caminhava

dentro da voz do meu avô

 

quando carlos drummond de andrade

apresentava a rosa do povo

o mundo se diluía entre guerras

meu pai carregava água nos ombros

 

quando pablo neruda

apaixonava com cem sonetos de amor

minha mãe descascava coco babaçu

para ajudar a renda da família

 

quando bandeira tribuzi

se mostrava em pele e osso

meus pais se encontravam

nos clubes de dança de são luís

 

quando cecília meireles

despetalava flor de poemas

eu nascia na benedito leite

com muita gritaria

 

quando luís augusto cassas

concatenava rosebud

eu nos primeiros versos

tomava um espanto

 

quando hagamenon de jesus

emplacava the problem

minha poesia começava a trilhar

entre as transições do mundo

 

quando ricardo leão

palpitava em primeira lição de física

meu combustível se expandia

em anticópias de paixão

 

quando antonio aílton

fulgurava com cerzir

há tempos já acreditava

na desordem das coisas

 

poesia essa ponte de significados

que trisca os olhos necessários

como se o tempo fosse incrustado

no penso parâmetro do porvir  


 

A ESPOSA

 

 

i)

foi necessário perder a costela

para entender toda sua ontologia

 

mesmo no desfiladeiro não desisti

aprontei as malas retornei ao círculo

 

nesta turbulência pude entender

os romances de virginia woolf


 

 

 

ii)

apesar dos filhos da casa mobiliada

só restou o que não me desgastava

 

esqueci de tudo voltei para casa

abrigo de minha mãe um paraíso

 

não era para ser este destino

vivíamos em rota estrangeira

 

 

 

 
iii)

estranho ter que cruzar

com a alma em precipício

 

desconstruir incertezas

apostar o que não podia

 

desprender das perdas

estender cálidas feridas


 

 

 

iv)

apaguei os rastros

o caos se equilibrou

 

fui criando apego

pela paz interior

 

tudo se cadenciou

o amor revigorado


 

 

v)

a vida é o entrelaçar

de aparentes dúvidas

 

não crio mais expectativas

só com o que me satisfaz

 

meus olhos agora brincam

como sempre quis


 

INTERVALOS BURLESCOS

 

 

 

1

ele brinca atirando pedras no rio

enquanto o pai se distrai

 

com uma mossberg 500

caçando patos selvagens

 

 

2

a irmã sem o que fazer

ouve imagine dragons

 

entre gibis baratos

pede proteção a belzebu

 

 


 
3

a mãe com a boca

entupida de cannabis

 

descarta bitucas

no vaso sanitário

 


 

 

 

4

o namorado da irmã

bate na janela do quarto

 

entre uma transa e outra

faz boquetes inesquecíveis

 

 


 

5

o pai chega com o filho

coloca a arma sobre a mesa

 

bate na porta do quarto

da filha sem dizer nada

 


 
 

 

6

o namorado não espera

pula do terceiro andar

 

a mãe morre

de rir com a cena


 

CISÃO AMÉM!

 

                                                                  aos 50 anos de Antonio Aílton

 

 

1.

era uma época de beleza de ignorância lamber os seios de uma mulher um feito merecedor de uma chuva de meteoros quando tocava meu pênis detrás daquele jardim luzes inebriantes solapavam os olhos vermelhos dela que se dizia relâmpago entre meus colhões a verdade é que todo aquele tempo vivíamos uma sinfonia de medos não seguíamos mais os beatles e o que se queria ser era só vanguarda ou rebeldia para agradar um bando de gente com suas interrogações doenças bombardeios ônibus espaciais se desintegrando na hora da sessão da tarde mas sobrevivemos a todos os meandros circunscritos nas calças jeans de nossos pais


 
2.

há muito estive cansado meus cachorros se jogaram de dentro dos meus olhos e escaparam da comida ruim dos fast-foods baratos é certo e não existe coisa mais desagradável que um punhado de caos no final de uma sexta-feira naquela cidade naqueles degraus da matriz de são josé de ribamar vi os olhos de deus caminhando nos cabelos crespos de uma senhora que vendia potes de barro meus pecados talvez não durem mais que o olhar do bêbado dormindo na porta daquela casa em ruínas a fila é grande para os que desistem de amar durante muito tempo desisti de me contentar com um pouco de sexo vinho e discos de pink floyd

 


3.

às vezes necessito que teus olhos larguem meus destinos nunca disse que amanhãs estão escritos na parede do quarto na incerteza encontraremos nosso refúgio necessário há um calendário de perdas no desnorteado sentimento tudo conspira e sopra a nosso favor mesmo desiludido encontro suas pegadas na minha sala de estar é a hora que me inflamo e beijo tuas mãos como reverência aquela fogueira não alcança mais minhas dúvidas divide meus vazios as coisas mudaram não são mais como sempre imaginei quando menino sentando em um banco de praça na avenida jerônimo de albuquerque conferia carros e admirava estrelas

 

 

4.

hoje passam por um menino na calçada profissionais liberais advogados pessoas comuns casais de namorados desviam do inoperante destino mudam os olhares talvez só o apreciem o sol a chuva ou um amontoado de latinhas descartadas os sentidos de todos estão vidrados mesmo é com o aumento dos seios da filhinha do papai são silêncios que nos perseguem que quebram as asas dos anjos se eu permitir você com suas conchas estarei contribuindo para o eterno marasmo que nos persegue uma esquina é sempre um bom lugar para chorar calma que deus até hoje não desabrigou nenhum filho seu por isso esperemos

 


 
5.

em horizontal perspectiva se esconde entre a neblina sugando a metafísica sem estralos da porta que o conduz ao precipício o faro de satã faz habitat na planície da noite é mais belo que o compulsivo sexo da amante amo a noite não me ouve às vezes ninguém me espera há uma chance para abrir a porta me sinto no precipício dentro dos meus olhos a vida basta as pessoas nunca se escutam espio o exercício de cada dia na espiral das escolhas todas as manhãs não tomo café meu vizinho ouve baixinho as notícias dos jornais nem mesmo chuva é ritual nesta existência talvez felicidade seja mais que todas essas coisas juntas

 


 
6.

ela desce as escadas do corredor risca as paredes sem motivo inventa caos é estupidez o retrato do que poderia ser estepe diário filosofia esperança e minha debandada ela que retrai sorrisos é luta íntima o olhar nervoso as estrelas o piano e as cordas vocais as rinhas os reinados a bússola a poesia e tudo que inverna e supera a maresia a santidade e a descrença é iemanjá a pausa a alegria dos casais por ela que tudo se acalma tudo se destrói com um gesto põe tudo a ganhar ou a perder é o destino a que todos esperam é o amor é a que se adianta porque nenhum inverno a espera nem a jose cuervo ou o cabaço da mocinha tremendo

 


 

7.

naquele tempo tudo era muito impreciso nem imaginávamos como seria nossa atualidade quantos filhos só intentávamos em comer um monte de besteiras já passaram tantas tempestades meio século e ainda corremos para a felicidade a vida anda chata demais nem mesmo jogar futebol ou empinar papagaios nos distraem a vida é um acúmulo de cabelos brancos aos poucos vamos brilhando cada vez menos rugas até nas fotos de infância desesperança e angústia nossos companheiros do andar de cima e saber que um dia não mais estaremos por aqui o mal existe deuses e raparigas lindas sorrindo no sofá de um clube de adultos



                                                                                                                    bioquemesito@gmail.com

 

 

                                                                                              

Ele é tão irracional. Ora, não é como se não conhecesse o que deve fazer, ele sabe, realmente sabe. Pois bem, poderias tu indagar, por que, então,... Certo, espera... Por qual motivo não vives baseado nisso? E por certo tua pergunta é de toda interessante. Mas, se esperas uma resposta para tua tão pensada questão, eis que dar-te-ei uma reposta satisfatória. Melhor do que isso, de dar-te uma simples reposta, direi a ti o que, como agiria se lhe perguntasses. Com uma expressão de culpa, olharia para baixo, fecharia a cara, não, não como que tendo raiva de ti, da pessoa que dirige-lhe a cogitação, mas com raiva de si mesmo. Pensa, pois, que aquele conhecimento todo que tem é inútil, que é vão, que é efêmero, que é vapor. É difícil, porém, ter uma vida como a dele, uma vida tão desesperadora, tão angustiante. Sabe, outrossim, que as pessoas ficam cansadas, e, adivinha, ele está cansado, mui, demasiadamente, assaz deteriorado. Nunca, nunca, ele não tem ideias, espera silenciosamente uma mensagem sem perspectiva alguma. Fica, também, pensando em qual o sentido da sua existência, queria desaparecer, sumir, evaporar. A sua vontade de entrar em ebulição, sua vontade de ser usado como um ATP é demasiado. Um coçar a cabeça, o que isso significa? Veja como ele está agora, neste momento, desamparado no escuro, seus olhos não aguentam mais, sua mente está urgindo como um leão à beira da morte pela fome. Bem assim, o frio entra em sua casa por uma grande abertura da janela, porquanto ela está aberta, enquanto isso, nesse ínterim seus familiares estão lá, jogando da mesma forma, de igual maneira que ele, as suas vidas no lixo. Tão pequenas são, e não é como se não soubessem deste fato, mas sim, não se importam nem um pouco com isso. Todos eles merecem morrer, não concorda?

-Khalil Gibran
Tra.: Ranjan Lekhy
December 1, 2025

 

Yusuf al-Fakhri tinha cerca de trinta anos quando abandonou a sociedade e se instalou em um eremitério isolado perto do vale de Kadisha, no norte do Líbano. Nos vilarejos ao redor, circulavam muitas lendas sobre Yusuf. Alguns diziam que ele vinha de uma família rica, que havia amado uma mulher que o traiu, e que, decepcionado com a vida, escolhera o isolamento. Outros afirmavam que ele era um poeta que abandonara a cidade barulhenta para viver na solidāo, a fim de coletar seus pensamentos e imaginações, e versificar suas inspirações divinas. Mas muitos acreditavam que ele era um homem misterioso que encontrava satisfação na espiritualidade. No entanto, a maioria das pessoas o considerava simplesmente um louco. Quanto a mim, não cheguei a nenhuma conclusão definitiva sobre esse homem. Apenas senti que, em seu coração, devia haver algum segredo profundo, cujo conhecimento não poderia ser obtido apenas pela imaginação.

Há muito tempo eu desejava encontrar esse eremita. Tentei de várias maneiras fazer amizade com ele, para descobrir sua realidade e perguntar qual era o objetivo de sua vida. Mas todos os meus esforços foram em vão. Na primeira vez que o encontrei, ele estava passeando na floresta de cedros sagrados do Líbano. Escolhi as palavras mais belas para saudá-lo, mas ele apenas inclinou ligeiramente a cabeça em resposta e seguiu em frente, dando grandes passos. 

Na segunda vez, eu o vi no meio de um pequeno pomar de videiras perto do eremitério. Aproximei-me para cumprimentá-lo e iniciei uma conversa perguntando: “As pessoas dizem que este eremitério foi construído no século XIV por seguidores de uma seita síria. Pode me contar algo sobre sua história?” Ele respondeu com indiferença, em poucas palavras: “Não sei quem construiu este eremitério, nem quando foi construído, e não me importo em saber.” Virou as costas para mim e disse: “Por que não você pergunta aos seus ancestrais? Eles são mais velhos que eu e sabem mais sobre este vale do que eu !” Vendo que meu esforço era completamente inútil, voltei embora. 

Assim se passaram dois anos. A vida excêntrica daquele homem estranho se instalara em minha mente, aparecendo frequentemente em meus sonhos e me atormentando. Em um dia de outono, enquanto eu passeava pelas montanhas e ravinas ao redor do eremitério de Yusuf al-Fakhri, de repente uma violenta tempestade com chuva torrencial me cercou de repente. Como um marinheiro perdido em uma tormenta oceânica, sem leme nem mastro, eu me sentia vagando sem direção. Com grande dificuldade, dirigi meus passos para o eremitério de Yusuf e pensei comigo mesmo: “Depois de tanto tempo esperando, finalmente chegou a oportunidade. Usarei a tempestade como pretexto para entrar no eremitério e, com as roupas molhadas, poderei ficar por mais tempo.” 

Quando cheguei ao eremitério, minha condição era muito precária. Bati à porta e, para minha surpresa, o próprio homem que eu buscava abriu. Ele segurava em uma das mãos um pássaro agonizante com a cabeça ferida e uma asa quebrada. Pedi desculpas: “Perdoe-me, Senhor, por entrar sem convite e causar incômodo. Estou muito longe de casa, perdido nesta solidão por causa da tempestade.” 

Ele respondeu com voz rouca: “Há muitas cavernas nesta floresta deserta onde você poderia se abrigar.” Mas ele não fechou a porta. Meu coração acelerou ainda mais, pois minha antiga espera estava prestes a ser recompensada. Ele acariciava a cabeça do pássaro com extrema delicadeza, revelando qualidades humanas que me agradaram muito. Fiquei admirado ao ver, naquele homem, compaixão e crueldade coexistindo. De repente, senti um profundo silêncio me envolver. Ele parecia irritado com minha presença, mas eu queria ficar mais um pouco. Como se tivesse lido meus pensamentos, ele quebrou o silêncio olhando para as nuvens: “A tempestade não quer comer comida azeda (como os carne do homens). Por quê você quer escapar dela?” 

Com um toque de ironia, respondi: “Pode ser que a tempestade não goste de coisas azedas ou salgadas, mas ela é capaz de esfriar e enfraquecer tudo. Se ela me pegar, certamente me engolirá sem mastigar.” 

Ao ouvir isso, seu rosto endureceu de repente e ele disse: “Se a tempestade te engolisse, você receberia uma honra que não merece.” Eu retruquei com uma piada: “Sim, senhor, eu me escondi neste eremitério exatamente para não receber uma honra que não mereço.” Apesar de não querer, ele sorriu e virou o rosto para esconder o sorriso. Então, apontou para um banco de madeira perto do fogo e disse: “Sente-se e seque suas roupas.” Ao ouvir isso, uma alegria surgiu em meu coração, que mal consegui esconder. 

Agradeci e me sentei no banco. Ele se sentou à minha frente, em um banco esculpido na rocha. Mergulhava os dedos em um frasco – talvez com algum óleo ayurvédico – e massageava suavemente a cabeça e a asa do pássaro. Sem olhar para cima, disse: “Um forte vendaval jogou esta pobre criatura entre a vida e a morte, batendo-a contra as pedras.” 

Eu continuei a comparação: “E esta terrível tempestade, antes disso, quase despedaçou minha cabeça e quebrou minhas pernas, me fazendo vagar até me enviar para sua cabana.” Ele olhou seriamente para mim e disse: “Eu desejo que o homem adote a natureza dos pássaros e enfrente a tormenta, mesmo que suas pernas se quebrem. O homem tende ao medo e à covardia. Quando sabe que uma tempestade está vindo, rasteja como um inseto para dentro de um buraco e se esconde.” 

Meu objetivo era descobrir o segredo de seu isolamento voluntário. Para provocá-lo, disse: “Sim, os pássaros têm essa qualidade e coragem que o homem não possui. O homem vive à sombra das leis e costumes que ele mesmo criou. Mas os pássaros vivem sob a lei eterna e livre, por isso a Terra gira continuamente ao redor do Sol em sua órbita invisível.” 

Seus olhos e rosto brilharam, como se tivesse encontrado em mim as qualidades de um discípulo sábio. Ele disse: “Muito belo! Se você acredita nas suas próprias palavras, deve abandonar imediatamente esta civilização, suas leis sujas e tradições podres, e viver como um pássaro em um lugar vazio onde não haja nada além da grande lei do céu e da terra.” 

“Acreditar é uma coisa fácil, mas colocar essa crença em prática exige grande coragem. Muitos são como o oceano: rugem e gritam, mas sua vida é oca e sem fluxo, como um esgoto sujo. Alguns são como montanhas: erguem a cabeça e o peito com orgulho, mas sua alma dorme no escuro de uma caverna.” 

Ele se levantou devagar, envolveu o pássaro em um pano pendurado na janela e o colocou perto do fogo seco. Depois disse: “Tire os sapatos e aqueça os pés no fogo; ficar molhado por muito tempo é prejudicial à saúde. Seque suas roupas e descanse.” 

As palavras hospitaleiras de Yusuf aumentaram a esperança em meu coração. Segui seu conselho e me aproximei do fogo. Vapor subia da minha roupa. Ele ficou de pé na soleira, olhando para as nuvens escuras. Em minha mente, fervilhavam perguntas de todos os tipos para desvendar seu segredo. 

Fingindo ignorância, perguntei: “Desde quando o senhor vive neste lugar?” Sem olhar para mim, respondeu calmamente: “Cheguei aqui quando a Terra era sem forma e vazia, quando estava envolvida em trevas misteriosas e Deus pairava sobre as águas.” 

Fiquei atônito ao ouvir isso. Perturbado, tentei compreender aquele conhecimento profundo e pensei: “Que homem estranho e difícil de desvendar! Mas devo prosseguir com cautela, paciência e perseverança até que seu silêncio se torne eloquente e sua estranheza compreensível.” 

À medida que a noite avançava, a escuridão se espalhava como um véu sobre o vale cheio de florestas e selvas. A tempestade furiosa uivava, a chuva não dava sinais de parar – pelo contrário, aumentava. Em minha mente, vinham imagens terríveis do dilúvio descrito nas escrituras, como se uma inundação destruidora tivesse vindo novamente para limpar a sujeira da humanidade da face da Terra. 

A noite caía. Parecia que, após anos de ascetismo, uma amizade e compaixão espontâneas haviam surgido no coração daquele misterioso asceta por mim, seu hóspede humano. Ele acendeu duas velas no fogão, preparou o jantar e logo colocou à minha frente uma mesa com uma jarra de vinho de uvas, pão com manteiga em um grande prato, azeitonas, uma tigela de mel e algumas frutas secas. Sentou-se em sua cadeira, convidando-me a comer: “Venha, irmão! Coma este simples alimento e mate a fome.” 

Agradeci e comemos em silêncio, ouvindo o lamento do vento e o choro da chuva. A cada mordida, eu observava seu rosto, tentando extrair os segredos de seu coração. Pensava nas possíveis razões de sua existência extraordinária. Após o jantar leve, ele pegou uma chaleira de latão do fogão e serviu café perfumado em duas xícaras. Abriu uma pequena caixa de madeira, tirou charutos e me ofereceu um: “Fuma, irmão?” Bebemos café e fumamos charutos. Mas o que meus olhos viam parecia inacreditável. 

Como se tivesse lido meus pensamentos, ele olhou para mim, sorriu e, dando uma longa tragada no charuto e um gole no café, disse: “Certamente você está surpreso ao ver vinho, café e charutos – coisas de luxo e conforto – aqui. Não te culpo. Você é como aqueles que acreditam que quem abandona a sociedade e se torna eremita renuncia à vida humana, ou deve viver privado de todos os confortos, em miséria e sofrimento, infligindo dor a si mesmo.” 

Concordei imediatamente: “Sim, os sábios dizem que quem abandona o mundo apenas para devoção e oração a Deus, tornando-se um asceta, deve renunciar a todos os prazeres mundanos. Deve contentar-se apenas com o que Deus criou: viver de água, árvores e vegetais.” 

Suspirando profundamente, perdido em pensamentos, ele disse: “O isolamento não é necessário para a devoção a Deus. A devoção pode ser praticada mesmo vivendo entre as pessoas. Não, irmão, eu não abandonei o mundo em busca de Deus. Eu sempre senti Deus na presença de meu pai e de minha mãe.” Abandonei a sociedade humana apenas porque minha natureza não se encaixa na dos outros. Seus sonhos são diferentes dos meus. Deixei a companhia da humanidade porque as rodas da minha alma giram em direção oposta às dos outros, colidindo. Abandonei a civilização humana porque ela é como uma árvore antiga, corroída e destruída, mas ainda poderosa e cruel. Suas raízes estão presas em cavernas escuras da terra, seus galhos perdidos em nuvens densas. Suas flores são ganância, injustiça e pecado; seus frutos, insatisfação, medo e sofrimento. Alguns santos tentaram reformar a civilização humana, mas falharam e morreram decepcionados e tristes.” 

Parando, Yusuf inclinou-se ligeiramente para o fogo, como se esperasse uma reação às suas palavras. Achei melhor permanecer em silêncio. 

Vendo meu silêncio, ele continuou: “Não adotei o isolamento para viver como um monge. A oração é o canto do coração, e mesmo no meio de milhares de gritos, uma oração sincera e silenciosa chega aos ouvidos de Deus.” 

“Viver como asceta significa torturar o corpo e a alma, sufocar os desejos. Isso é uma tradição contra a qual sou totalmente oposto. A natureza criou este corpo como templo da alma, e nosso dever é cuidá-lo.” 

“Não, irmão, não adotei o isolamento nem por motivos espirituais. Fiz isso apenas para ficar longe dos homens, de suas leis, ideias, queixas, sofrimentos e lamentos.” 

“Tornei-me eremita para não ver o rosto feio do homem que se vende por um preço baixo, tanto espiritual quanto material.” 

“Vivo isolado para não encontrar mulheres que andam orgulhosas com sorrisos falsos nos lábios, mas com um único objetivo escondido nas profundezas de seus corações.” 

“Afastei-me das pessoas auto-satisfatórias que veem um vislumbre de conhecimento nebuloso em seus sonhos e acreditam ter alcançado a verdade completa.” 

“Fugi da sociedade para ficar longe daqueles que, ao acordar, captam apenas um vislumbre da verdade, mas gritam para o mundo inteiro que a conquistaram por completo.” 

“Abandonei o mundo porque me cansei de ser cortês com pessoas que consideram a humildade fraqueza, a compaixão covardia e a crueldade força.” 

“Meu isolamento se deve ao cansaço de conviver com aqueles que acreditam que o sol, a lua e as estrelas nascem de seu tesouro e se põem apenas em seu jardim.” 

“Fugi dos políticos gananciosos pelo poder que enganam o povo inocente com poeira brilhante nos olhos e sons vazios nos ouvidos, destruindo suas vidas.” 

“Escolhi o isolamento voluntário porque nunca recebi compaixão de ninguém sem pagar o preço total com minha vida.” 

“Afastei-me dos líderes religiosos, sacerdotes e clérigos que pregam religião em voz alta, exigem conduta que eles mesmos não seguem, se consideram os mais puros e vivem apenas de doações.” 

“Fui forçado ao isolamento por esta grande e terrível instituição chamada civilização, que cobre a contínua miséria da humanidade com uma monstruosidade feia.” 

“Tornei-me eremita porque só no isolamento há plenitude para minha alma, meu coração e meu corpo. Neste isolamento, encontro um belo país onde o sol repousa sua luz, as flores espalham sua fragrância em cada respiração livre no vazio, e os riachos cantam chuá-chuá a caminho do mar. Encontrei montanhas onde vejo a primavera clara acordar, as aspirações coloridas do verão, os cantos magníficos do outono e os belos mistérios do inverno. Vim para esta ravina distante por causa do reino de Deus. Estou ansioso para conhecer os mistérios do mundo e chegar perto do trono do Senhor.” 

Yusuf Baba deu um longo suspiro e ficou em silêncio, como se tivesse se livrado de um grande fardo. Seus olhos brilhavam com uma luz estranha e mágica, e seu rosto radiante refletia orgulho, determinação e satisfação. 

Passou algum tempo em silêncio assim. Eu o observava atentamente, vendo o véu se erguer do que até então era desconhecido para mim, e disse: “Sem dúvida, tudo o que o senhor disse é cem por cento verdadeiro. Pelo sintomas, pode-se diagnosticar corretamente a doença social, provando que o senhor é um médico habilidoso. Entendo que uma sociedade doente precisa desesperadamente de um médico como o senhor para curar suas várias doenças. Não ajudar uma sociedade assim seria injusto para o senhor e infortúnio para a sociedade.” 

Ele me olhou fixamente por alguns momentos, pensando, como se buscasse uma resposta sólida à minha acusação, mas quando respondeu, estava imerso em decepção. Defendendo sua vida isolada, disse: “Os médicos lutam desde o início da criação para ajudar os doentes a se livrarem das doenças. Alguns usaram cirurgia, outros ervas medicinais, mas as epidemias continuaram a se espalhar de forma terrível. As pessoas morriam sem esperança, porque a esperança não existe.” 

“Em minha opinião, se o doente se contenta em deitar em sua cama suja e encontra prazer em lamentar sua velha doença, o que alguém pode fazer? O pior é quando um médico vem tratar o doente, e o doente, tirando a mão de debaixo da coberta, agarra o pescoço do médico e o sufoca até a morte. Ai! Que infortúnio que o doente mau mate seu médico e, fechando os olhos, diga: ‘Pobre médico grande!’ Não, irmão, ninguém no mundo pode ajudar esta humanidade. Por mais hábil e sábio que seja o agricultor, nada cresce no inverno gelado.” 

Para inspirar esperança, eu disse: “O inverno da humanidade um dia terminará, virá uma bela primavera, flores desabrocharão nos campos e riachos fluirão das montanhas.” 

Ao ouvir isso, suas sobrancelhas se franziram e ele falou em tom duro: “Tomara que Deus tivesse dividido a vida humana em estações como o ano! Há alguma comunidade ou grupo humano no mundo que viva pela verdade de Deus e fé no Divino, desejando nascer nesta terra? Virá algum tempo em que o homem se estabilize e dependa apenas da consciência divina? Pode ficar feliz com a luz do dia e o silêncio escuro da noite? Meu sonho algum dia se tornará realidade? Ou só será verdadeiro quando esta terra estiver coberta pelo carne podre do homem e encharcada com seu sangue?” 

Yusuf Baba se levantou, ergueu as mãos para o céu como se apontasse para outro mundo e respondeu a si mesmo: “Não pode acontecer. Para este mundo, é apenas um sonho. Mas eu o busco para mim. O que encontro está espalhado no fundo do meu coração, neste vale e nestas montanhas.” Elevando ainda mais a voz excitada, disse: “Na verdade, eu sei. É o grito da minha consciência. Estou muito cansado, mas meu ser está cheio de fome e sede. Gosto de comer o pão da vida preparado e servido por minhas próprias mãos; nisso encontro alegria. Por isso abandonei os assentamentos humanos e vim para este deserto isolado, e ficarei aqui até o fim.” 

Ele andava agitado de um lado para o outro na sala, enquanto eu refletia sobre suas palavras e estudava a explicação das feridas profundas da sociedade. 

Então, para provocá-lo mais uma vez, disse: “Concordo com suas ideias, respeito completamente sua vontade pessoal, admiro e invejo seu isolamento. Mas a nação infeliz sofre grande perda ao se separar do senhor. A nação precisa de um reformador sábio como o senhor para ajudá-la em dificuldades e despertar sua consciência adormecida.” 

Balançando lentamente a cabeça, ele disse: “Esta nação é como as outras; suas pessoas são feitas dos mesmos cinco elementos que o resto da humanidade. A diferença está apenas na aparência externa, que não tem significado especial. A dor das nações orientais é a dor do mundo inteiro. O que você chama de civilização ocidental não é nada além de outra forma feia de tragédias e ilusões enganosas.” 

“Hipocrisia sempre permanece hipocrisia, não importa o quanto seja colorida com henna ou embelezada com maquiagem. Engano nunca se transforma em honestidade, por mais suave e doce que seja seu toque. Mentira nunca se torna verdade, mesmo se vestida com seda e sentada em um palácio. Desejo nunca se torna satisfação. Quanto à escravidão eterna – seja de princípios, costumes ou história – escravidão sempre é escravidão. Não importa como pinte o rosto ou mude a voz, escravidão permanece em sua forma horrenda e repugnante, mesmo se você a chamar de liberdade.” 

“Não, irmão, o Ocidente não é nem um pouco superior nem inferior ao Oriente. A diferença entre os dois não é mais que entre um leão e um tigre. Além da forma externa da sociedade, devemos buscar uma lei suprema e completa que trate igualmente felicidade, sofrimento e ignorância. Essa lei não considera uma raça superior a outra nem tenta elevar uma rebaixando a outra.” 

Admirado, eu disse: “O orgulho da humanidade é falso, e tudo o que nele está contido é inútil.” 

Ele respondeu imediatamente: “Sim, o orgulho da humanidade não é nada além de uma ilusão falsa. Invenções e descobertas são apenas entretenimento e conforto para o homem quando ele está completamente cansado. Conquistar distâncias terrestres e vencer os mares são frutos perecíveis que não satisfazem a alma nem nutrem e desenvolvem o coração. A vitória é completamente antinatural. Tudo o que o homem chama de arte e ciência da criação não é nada além de elos de correntes ou correntes douradas. Preso em sua ilusão, o homem as arrasta consigo, feliz com seu brilho e som.

Na verdade, o homem começou a construir essa forte jaula há séculos, mas não sabia que, construindo-a de dentro, logo se tornaria seu próprio prisioneiro para sempre. Ha ha! As ações do homem são inúteis, seus objetivos sem sentido, e tudo nesta terra é vão.” 

Parando um pouco, ele falou mais devagar: “Nesta vaidade toda da vida, há apenas uma coisa que a alma ama e deseja. Uma coisa única e brilhante!” 

Com voz trêmula, perguntei: “O que é isso?” 

Ele me olhou por um momento, fechou os olhos, colocou as mãos no peito. Seu rosto brilhava. Com voz confiante e grave, disse: “Não é nada além do despertar da alma, o despertar camada por camada nas profundezas do coração.” 

“É um grande poder que se espalha por tudo, capaz de iluminar a consciência humana a qualquer momento, clarear sua visão interior para que veja a vida cercada por música, envolvida em uma coroa, erguida como uma torre de luz entre a terra e o infinito.” 

“É uma chama que de repente se acende na alma interna, purifica o coração com seu calor e, descendo à terra, gira no céu eterno.” 

“É uma compaixão que desce ao coração do homem para inspirá-lo com maravilha e rejeitar tudo o que se opõe a ela. Odeia tudo o que não está de acordo com ela. Rebela-se contra todos que não compreendem seu segredo.” 

“É uma mão misteriosa que removeu o véu dos meus olhos quando eu vivia feliz com família, amigos, benfeitores e compatriotas.” 

“Na infância, muitas vezes fiquei atônito e pensei: ‘De quem são esses rostos que me olham? Quem são essas pessoas? Como me conhecem? Como vim parar entre elas? Como estou sentado e conversando com elas? Sou estranho para elas ou elas são estranhas nesta casa que a vida construiu para mim e cuja chave a vida me entregou?’” 

De repente, ele se calou, como se tentasse lembrar algo esquecido, mas não quisesse revelar. Abriu os braços e sussurrou: “Há quatro anos, quando abandonei o mundo, isso aconteceu comigo! Vim para este lugar isolado para viver em estado de despertar, desfrutar da paz com silêncio sagrado, amizade e pensamentos significativos.” 

Lá fora, estava escuro e sussurrante. Ele se aproximou da porta, olhou para a tempestade e gritou em voz alta: “É o despertar dentro da alma. Quem o conhece não pode expressá-lo em palavras, e quem não o conhece nunca poderá pensar no belo mistério forçado da existência.” 

Uma hora se passou enquanto Yusuf al-Fakhri andava de um canto ao outro da cabana, parando às vezes na porta para olhar a atmosfera escura iluminada por relâmpagos. 

Eu fiquei em silêncio, observando as ondas em sua alma, tentando compreender o significado de suas declarações, pensando em sua vida e nos prazeres e sofrimentos de sua solidão. Quando o segundo quarto da noite terminou, ele se aproximou de mim, olhou longamente para meu rosto, como se tentasse preservar na memória a imagem do homem diante de quem revelara os segredos de sua vida isolada. Meu coração estava pesado com a agitação dos pensamentos, e meus olhos, cansados pela névoa da tempestade. 

Então, ele disse devagar: “Agora vou passear na tempestade. É um hábito que me dá prazer nas estações de outono e inverno. Há café na chaleira e charutos. Se quiser vinho, está na jarra. Se quiser dormir, há cobertor e travesseiro naquele canto.” 

Cobriu o corpo com um casaco preto, sorriu e disse: “Peço que, quando voltar amanhã, feche a porta para niguém entrar sem permissão. Planejo passar o dia inteiro passeando na floresta de cedros sagrados.” 

Pegou uma bengala simples e disse: “Se a tempestade te cercar de repente nesta selva, não hesite em buscar abrigo no eremitério. Espero que agora você aprenda a amar a tempestade e não tenha medo dela. Adeus, meu irmão.” 

Abriu a porta, ergueu a cabeça na escuridão e saiu. Fiquei na soleira observando por qual caminho ele ia. Logo desapareceu da minha vista. Por alguns minutos, ouvi o som de seus passos nas pedras da estrada. 

Após aquela conversa profunda à noite, quando amanheceu, a tempestade havia cessado, o céu estava claro, e os raios quentes e suaves do sol faziam brilhar toda a planície e o vale. 

Antes de sair da cabana, não esqueci de fechar a porta. Comecei a sentir o despertar espiritual sobre o qual Yusuf al-Fakhri falara na noite anterior. Esse despertar se espalhava por todos os meus membros. Pensei que essa inspiração certamente deveria se manifestar. Quando me acalmei um pouco, vi plenitude e beleza florescendo ao meu redor. 

Quando voltei para a sociedade humana na cidade barulhenta, ouvi seus sons e vi suas atividades, parei e disse ao meu coração: “Sim, o autoconhecimento é extremamente necessário na vida humana e deve ser o único objetivo da vida humana. Não é a civilização, com toda sua dolorosa ambiguidade e incerteza, uma grande razão para o despertar espiritual? Maravilho-me como podemos negar a existência de algo existente apenas porque sua existência é sua própria prova? Talvez a civilização moderna seja um acidente decrescente, mas a lei eterna pode transformar a escada de todos os acidentes em degraus que levam à plenitude.” 

Nunca mais encontrei Yusuf al-Fakhri, porque, devido aos meus próprios esforços para remover os males da civilização, fui exilado do norte do Líbano no final daquele outono e tive que viver como expatriado em um país distante onde as tempestades são muito fracas, e o isolamento de um monge é considerado uma loucura considerável – porque a sociedade aqui também está muito doente. 

Fim

"CARPEDIEM"

A vida pode ser muito simples para quem deseja vive-la em sua intensidade e diversidade. Portanto:
Ame ao próximo,Porem primeiramente ame a si mesma, pois o tempo vai te ensinar que por mais que você queira o bem de seu irmão, o seu bem é tão ou mais importante e deve vir em primeiro lugar, sem passar por sima do sentimento de ninguém para tal.
Seja feliz com seus pequenos momentos, com o dia de sol, com a folga do trabalho, com o sorriso de seus familiares, com a brisa que bate a seu rosto.
Não espere que os outros tenham a mesma consideração que você tem com eles, mais seja sempre você mesma.
Entenda que nem sempre dois mais dois são quatro. Seja flexível em suas decisões, procurando entender que todos pensam diferente de você.
Saiba que você é única nesse universo, e que Deus lembra de você em cada momento da sua vida e até depois que você se for.
Mostre aos outros o porque de você estar aqui nesse mundo. Mostre que você não está aqui a passeio.
Seja grande, esquecendo tudo de ruim que o mundo trouce a você até o dia de hoje.
Viva o momento ao máximo, seja simples nas suas escolhas, seja grande nas suas decisões, enfrente o mundo como um leão, ame como se foce uma gatinha, beba cerveja nos fins de semana, beba café durante a semana.
O ontem pode ate não voltar, mais ninguém pode te impor o amanha.
Então lembre que quem constrói seu destino é você.

E por ultimo mais nem por isso menos importante... saiba que há sempre alguem esperando para lhe estender a mão.

Esses...Esses são seu verdadeiros amigos e irmãos
MAGNO - A história de Alexandre

CANTO PRIMEIRO

I
Canto, ó musa, dos grandes o maior!
Aquele cujos feitos nunca mais
Haverão pelos tempos de igualar.
Canto o senhor dos helenos e dos persas,
E explorador das Arábias e das Índias!

D'entre todos os homens em seu Fado,
Eu canto quem de Vênus tão dilecto
Quanto de Marte mais favorecido,
Como se não de reis, mas sim de deuses
O houvessem concebido para a glória!

II
Mas não, musa, não cabe ao menor poeta
Cantar, por fim, dos grandes a grandeza...
Tampouco lhe compete se arvorar
Um cronista de cortes tão distantes
No espaço e tempo às suas tortas letras!

Oh sim, como ousa o obscuro lançar luzes
Sobre este cujo nome imenso brilha?
Como, musa, algum poeta 'inda pretenda
D'outro século os transes da Fortuna
Que marcaram os dias de Alexandre?

III
Ou mesmo, como da Hélade traduzir
N'um tardio e vulgar falar latino
Que por terras austrais americanas
Calhou de florescer exuberante?
E como -- para além das conjecturas --

Ter versos onde o velho se renove
A iluminar as mentes d'este tempo
Que pouco ou nada escutam d'outras eras?
Mas haverá ainda d'entre nós
Quem aprecie d'épicos o engenho?

IV
Deveras... Não sabendo responder
Tu silencias, musa, qual dissesses
Dever também o poeta se calar...
Afinal, que aproveita o homem em ter
Vencido todo o mundo se se perde?

Que poderá o poeta contra o Fado
Enquanto o próprio herói, em sua história,
Sem conhecer derrota é esquecido?
Talvez não reste um canto a se cantar
Tampouco história alguma a ser contada...

V
Se canto, ó musa, é antes teimosia
Que talento ou verdade iluminados.
Eu canto porque os homens e mulheres
Coetâneos de Alexandre n'ele vivem!
Eu canto porque os deuses o escolheram

Para levar o saber do Estagirita
Às três partes do mundo conhecido:
Por África, Ásia e Europa, desde Pela,
Avançou até ser tido por Magno
Mesmo onde seu domínio não chegou.

VI
Mas canto, sobretudo, porque falham
Todos os que o tentaram superar...
Mesmo quem o epiteto após houvera:
Pompeu, Gregório, Leão, Carlos, Alberto...
Antes foram desejos d'outras glórias

Do que lumes capazes de ofuscá-lo!
À semelhança de astros que pelo Orbe,
Transitando em concerto gravemente,
Luzem sem contrastar co'a luz mais alta
Vista no céu nocturno entre as estrelas.

VII
Alexandre, após guerras e poderes,
A sua história aos códices da História
Tivera assim, por mérito, elevada.
Deve o poeta, contudo, não o douto
Cantar o homem a além de suas obras.

Certo de que, ao exaltar sua existência,
Celebre antes vivências que conquistas
E entenda, humanamente, o que é ter
Grandeza quando o mundo mais parece
Carecer simplesmente de limites.

Betim - 18 10 2018
Eu sou o homem, que viu a aflição, pela vara do seu furor,
me levou e me fez andar, nas trevas e não na luz, mas na dor.
Deveras ele volveu a sua mão contra mim, o dia todo sim!
Fez envelhecer a minha carne e a minha pele, está contra mim!


Quebrou os meus ossos, levantou contra mim muitas trincheiras,
e me cercou de amargura e trabalho, fez-me habitar em trevas,
como os que morreram à muito em antigas e longínquas eras.
Cercou-me com um muro alto, com muitas e grandes pedras.


Eu assim já não consigo mesmo sair, agravou os meus guilhões.
Ainda quando clamo e grito ele exclui a minha de sempre oração.
Fechou meus caminhos com pedras bem lavradras em montões.


Fez tortuosas as minhas veredas, como o leão em esconderijos,
como o urso de emboscada, ele desviou todos os meus caminhos.
Ele Deus, me fez em pedaços, para de todo fazer, uma nova construção!